O Globo, Opinião, p. 6
27 de Nov de 2008
Alerta das águas
As chuvas que castigam Santa Catarina, com um número de mortos que se aproxima da centena, e o caos provocado pelas enchentes, do qual a onda de saques tornou-se uma perversa decorrência, encerram uma advertência e uma preocupante constatação. No primeiro caso, situa-se a evidência de que aos temporais sazonais desta época do ano devem se juntar cada vez com mais constância, segundo estimativa dos cientistas, variações climáticas radicais em decorrência do aquecimento global.
Tal é o preço a pagar por décadas de agressões à natureza. Neste caso, admite-se, lidar com o imponderável requer ações que transcendem políticas localizadas. Mas é no segundo caso - o da constatação provocada pelas chuvas - que reside a responsabilidade do Estado pela dimensão que a tragédia catarinense alcançou. O poder público falhou em Santa Catarina por não ter montado - e não apenas agora, visto que a sazonalidade dos temporais já o exigia - um sistema eficaz de previsão, prevenção e socorro a vítimas que minimizasse os apuros da população em situações que, como esta, levam o desespero a milhares de famílias.
É certo que houve alertas sobre a iminência dos temporais, mas tal providência, por si só, não resolve a questão. Saber que uma tragédia está por ocorrer e pouco ou nada fazer para enfrentá-la corresponde a tratar com leniência a segurança dos cidadãos. Foi assim com New Orleans, no furacão Katrina, nos Estados Unidos.
As falhas com o sistema de prevenção a tragédias registradas em Santa Catarina não se restringem a esse estado, um dos mais ricos da Federação. Salvo possíveis exceções, o descaso com a defesa civil é norma no país. No balaio da irresponsabilidade misturam-se a omissão do poder público e manifestações de irresponsabilidade civil, como, por exemplo, a ocupação de encostas e as agressões urbanísticas cujas conseqüências só são percebidas quando a natureza cobra a sua parte nesses abusos. Neste ponto, a omissão oficial e a irresponsabilidade civil são sócias.
O cidadão é castigado não só pelas intempéries climáticas. Ele também é obrigado a arcar com uma carga tributária e com um inchaço da máquina administrativa de cujos dividendos pouco ou nada se beneficia. Uma vez que atenuar o peso dos impostos é palavra de ordem inscrita no índex oficial, ao menos o Estado deveria providenciar para que os altos índices de arrecadação fossem revertidos para a população na forma de bons serviços, como a implantação de sistemas eficazes de defesa civil. Não acabaria com as ameaças do imponderável, mas certamente evitaria tragédias como a de Santa Catarina.
O Globo, 27/11/2008, Opinião, p. 6
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