O Globo, Economia, p. 21
19 de Jan de 2005
Alerta contra pobreza extrema
Enio Vieira
Brasília
O Brasil deverá atingir as metas fixadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o fim da pobreza extrema até 2015, mas terá que dar atenção nos próximos anos a 13 bolsões de miséria que englobam 600 municípios em regiões com 26 milhões de pessoas. O coordenador-residente do sistema ONU no Brasil, Carlos Lopes, disse ontem que o país poderá adotar nestes locais várias das 16 ações de impacto rápido que estão no relatório "Investindo no desenvolvimento, um plano prático para atingir os objetivos de desenvolvimento do milênio", preparado por especialistas e divulgado anteontem em Nova York.
Segundo a ONU, os 13 bolsões - que têm população equivalente a do Marrocos, ocupando território quatro vezes maior que o da França - apresentam Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) comparável ao de Uganda, um dos piores do mundo. Os focos de miséria estão espalhados pelo Brasil, à exceção de Rondônia, Roraima, Amapá, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Norte. No Estado do Rio, o bolsão de miséria batizado de Bacia do Itabapoana reúne municípios do Norte fluminense e os de Espírito Santo e Minas Gerais.
Como deve alcançar objetivos de daqui a dez anos, a ONU sugere que o Brasil adote metas mais ambiciosas de redução da pobreza, para cumpri-las até 2015, ou diminua o prazo fixado.
- Serão necessárias políticas bem focalizadas nestes 600 municípios porque se trata de um país muito desigual. Também deve haver coordenação para evitar a fragmentação de políticas entre os governos federal, estadual e municipal - disse Lopes.
Especialista critica desigualdades
As 16 ações de impacto rápido sugeridas vão da redução de custo de matrícula escolar à criação de fundos para reabilitar bairros de grandes cidades, passando por planejamento familiar e reflorestamento. Para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), os bolsões de miséria não estão só no interior como do Nordeste e do Vale do Ribeira (SP), mas também são graves em metrópoles como Rio e São Paulo.
- No Rio, observam-se IDHs que vão do patamar da Espanha à Suazilândia. O problema também já existe nas cidades médias do interior - disse o coordenador do Pnud no Brasil José Carlos Libânio.
A ONU considera pobreza extrema a condição de pessoas que vivem com menos de US$ 1 por dia e sem serviços como água tratada e esgoto. O documento da ONU consta do Projeto Milênio, ação para acabar com a pobreza extrema de 2000 a 2015 e foi elaborado por 250 especialistas, coordenados pelo economista Jeffrey Sachs.
No Brasil, foi contratada uma equipe de seis pessoas, entre elas Paulo Renato de Souza, ex-ministro da Educação do governo Fernando Henrique. Carlos Lopes disse que o país avançou em áreas como combate à Aids e ensino fundamental de 7 a 14 anos. Os problemas estão em meio ambiente, saúde (doenças como hanseníase) e desigualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Para ele, o governo Lula tem enfocado corretamente o combate à pobreza.
- O governo Lula tem avaliação positiva em adotar essas políticas sociais. Não tem sentido comparar as políticas do governo passado e o atual: um ficou oito anos, este só tem dois anos. Deve haver continuidade das políticas e inovação, como o Bolsa Família, agrupando programas.
Segundo Libânio, há muita pobreza na zona rural do Nordeste e há um componente racial, pois oito em cada dez pessoas em pobreza extrema são pardos ou negros.
- O Brasil tem recursos para (resolver os problemas) nos 600 municípios em pobreza extrema.
AL: 44% vivem em favelas ou precariamente
SANTIAGO. As condições de pobreza e a desigualdade fazem com que 44% da população da América Latina vivam em favelas ou subúrbios com estrutura precária, que apenas lhes dão as condições mínimas para sobreviver, alertou ontem a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). A maior parte das favelas está nas cidades, onde vivem três de cada quatro latino-americanos, disse a Cepal em seu estudo "Pobreza e precariedade do habitat na América Latina".
Dos domicílios em bairros precários, 76% têm problemas de qualidade da construção e dos serviços básicos, como saneamento e iluminação. E a maioria desses domicílios é chefiada por mulheres.
A situação de precariedade é maior nos subúrbios das cidades do interior, que, em sua maioria, não chegam a receber ajuda federal. As condições de vida nas regiões metropolitanas são melhores; em compensação, poucos têm título de propriedade de sua moradia.
A Cepal estima que, nos próximos 15 anos, a população das grandes cidades crescerá 2%. Em Bolívia, Guatemala, Haiti, Honduras e Paraguai - os países mais pobres da região - esse aumento será de 3%.
O Globo, 19/01/2005, Economia, p. 21
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