O Globo, Opinião, p. 6
01 de Jun de 2011
Alemanha deu um passo atrás
O governo alemão decidiu dar um passo atrás em relação ao uso da energia nuclear. A vida útil de suas usinas, que respondem por cerca de um quarto da eletricidade consumida no país, não mais será prorrogada, de modo que até 2022 as centrais em funcionamento terão de ser desligadas.
Trata-se de uma decisão política, sem embasamento técnico, que o governo de coalizão liderado pela chanceler Angela Merkel resolveu tomar em função dos resultados das recentes eleições regionais, marcadas por um expressivo avanço do Partido Verde.
A decisão significa, sem dúvida, um tremendo revés para a indústria nuclear no mundo. A Alemanha contribuiu consideravelmente para o avanço tecnológico do setor, especialmente no que se refere à segurança das usinas.
O Brasil se tornou parceiro dos alemães na década de 70 com um acordo envolvendo transferência de tecnologia para construção e operação de centrais nucleares. O acordo também envolvia investimento em um processo de enriquecimento de urânio (que somente havia sido testado em escala laboratorial), que acabou abandonado, pois se mostrou antieconômico. Paralelamente, a Marinha brasileira desenvolveu tecnologia própria para enriquecimento de urânio, posta em prática pelas Indústrias Nucleares do Brasil, em suas unidades de Resende.
O ótimo funcionamento de Angra 2, considerada uma das usinas mais eficientes do planeta, atesta que o acordo com os alemães foi bem-sucedido. Os franceses adquiriram o controle acionário das companhias que detinham a tecnologia alemã, e os contratos tiveram uma sucessão natural, garantindo a retomada das obras de Angra 3, prevista para funcionar em 2015.
O trágico acidente em Fukushima, no Japão - causado por erros técnicos e imprevidência -, certamente abalou a imagem da indústria nuclear e fortaleceu os críticos do setor na Alemanha, em um momento que toda a Europa vinha reativando projetos de novas usinas, dentro do esforço de redução das emissões de gases que contribuem para o efeito-estufa. A Suécia, por exemplo, que depende em 50% da energia nuclear, e que resolvera anos atrás desligar suas usinas, voltou atrás e prorrogou a vida útil das centrais, baseada em rigorosos critérios técnicos. Os alemães caminhavam nessa direção, quando o acidente de Fukushima levou o governo Merkel a congelar a iniciativa. Não há tempo hábil para os alemães substituírem toda essa energia nuclear por fontes alternativas. O mais provável é que passem a depender de energia térmica, de fontes como carvão, óleo combustível e gás natural. A Alemanha, que reconhecidamente se esforçava para reduzir a emissão de gases que aceleram o aquecimento global, agora trocará de sinal. Teria sido preferível que usassem sua eficiência tecnológica para investir na segurança dessas usinas, o que beneficiaria o planeta inteiro.
Até 2022 é possível que essa discussão amadureça e, sem a pressão dos acontecimentos, os alemães reflitam mais sobre a decisão que tomaram.
O Globo, 01/06/2011, Opinião, p. 6
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