O Globo, Ciência, p. 29
22 de Jan de 2014
Além de bens, China exporta poluição para os Estados Unidos
Emissões do país chegam até a Costa Oeste americana
Edward Wong
Do New York Times
PEQUIM - As sujas emissões das indústrias exportadoras da China cruzam o Oceano Pacífico e contribuem para aumentar a poluição do ar na Costa Oeste dos Estados Unidos, diz artigo publicado nesta segunda-feira em um proeminente periódico científico americano. A pesquisa é a primeira a quantificar como a poluição do ar nos EUA é afetada pela produção chinesa de bens para exportação e pela demanda global dos consumidores por eles, afirmam os autores do estudo, escrito por nove especialistas baseados em três nações e publicado no "Proceedings of the National Academy of Sciences", que no ano passado divulgou artigo de outros cientistas que identificou uma queda na expectativa de vida no Norte da China devido à poluição atmosférica.
O último artigo explora as consequências ambientais das economias interconectadas. Os cientistas escrevem que "transferir a produção para a China nem sempre alivia os consumidores dos EUA - e por sinal de muitos países do Hemisfério Norte - dos impactos ambientais da poluição do ar". O movimento dos poluentes atmosféricos associados à produção de bens na China para o mercado americano resultaram em uma queda na qualidade do ar na Costa Oeste, contam os cientistas, embora a menor atividade industrial nos EUA se traduza em um ar mais limpo na Costa Leste.
Jintai Lin, principal autor do artigo, disse em entrevista que ele e outros cientistas queriam analisar os efeitos transfronteiriços das emissões das indústrias exportadoras de forma a avaliar como o consumo contribui para a poluição atmosférica global.
- Estamos nos focando no impacto do comércio - disse Lin, professor do Departamento de Estudos Atmosféricos e Oceânicos da Escola de Física da Universidade de Pequim. - o comércio muda os locais de produção e assim afeta as emissões.
Poderosos ventos globais chamados "ventos do Oeste" ou "corrente ocidental" podem carregar os poluentes da China para o outro lado do Pacífico em uma questão de dias, levando a "perigosos picos de contaminantes", especialmente durante a primavera, informa comunicado da Universidade da Califórnia em Irvine, onde um dos coautores do estudo, Steven J. Davis, estuda os sistemas terrestres. "Poeira, ozônio e carbono podem se acumular nos vales e bacias da Califórnia e outros estados do Oeste", diz o documento.
O carbono negro é um problema em particular porque a chuva não o "lava" da atmosfera, então ele persiste através de longas distâncias, acrescenta o comunicado. O carbono negro está relacionado à asma, câncer, enfisema e doenças do coração e dos pulmões. "Los Angeles experimenta pelo menos um dia a mais de smog por ano que excede os limites federais para o ozônio por causa dos óxidos de nitrogênio e monóxido de carbono emitidos pelas fábricas chinesas para fabricar bens para exportação", continua o texto.
Usando um sistema de modelagem chamado GEOS-Chem, os cientistas estimam que a Costa Oeste americana observa um aumento de até 2% nas concentrações de sulfatos, e os níveis de ozônio e monóxido de carbono também sobem levemente, por causa do transporte dos poluentes das emissões resultantes da fabricação de bens para exportação aos próprios EUA. Mas como a Costa Leste americana tem uma maior densidade populacional, a transferência das fábricas para a China resultam em "um efeito benéfico geral para os sistemas de saúde dos EUA" mesmo que os estados do Oeste sofram mais, afirmam os cientistas.
A quantidade de poluição atmosférica resultante das emissões da China ainda é muito pequena comparada com a quantidade produzida por fontes nos EUA que incluem o tráfego e as indústrias domésticas. Os pesquisadores também analisaram o impacto das indústrias exportadoras da China na qualidade do ar do próprio país. Eles estimam que em 2006 as exportações de bens para os EUA foi responsável por 7,4% das emissões de dióxido de enxofre pelas fabricantes chinesas, 5,7% dos óxidos de nitrogênio, 3,6% do carbono negro e 4,6% do monóxido de carbono.
O projeto de pesquisa interdisciplinar teve início dois anos e meio atrás por especialistas na Grã-Bretanha, China e EUA. O grupo incluiu tanto economistas quanto cientistas ambientais e da Terra. A metodologia aplicou várias análises e modelagens da economia chinesa, da atmosfera terrestre e padrões climáticos.
Os especialistas que fizeram as estimativas de emissões das indústrias exportadoras chinesas, uma parte significativa da economia do país, analisaram dados de 42 setores que contribuem diretamente ou indiretamente para a poluição. Eles incluem siderúrgicas e fabricantes de cimento, geradoras de energia e transportes. As usinas movidas a carvão foram as maiores fontes de poluentes e gases do efeito estufa, que colaboram para o aquecimento global.
Em anos recentes, os especialistas têm estudado o impacto do total das emissões chinesas na poluição atmosférica e aquecimento. Residentes de nações no caminho dos ventos que carregam os poluentes da China estão alarmados com o que acreditam ser a deterioração da qualidade do ar em seus países por causa desta poluição. No Japão, por exemplo, um engenheiro ambiental atribuiu a misteriosa pestilência que está matando árvores na Ilha de Yakushima aos poluentes chineses.
Alex L. Wang, professor de direito da Universidade da Califórnia em Los Angeles e que estuda as políticas ambientais da China comentou depois de ler o novo estudo que "isso é uma lembrança a todos nós que as emissões de gases-estufa estão ligadas aos produtos que compramos e usamos todos os dias nos EUA. Devemos nos preocupar não só porque isso está prejudicando os cidadãos chineses, mas também porque está prejudicando a qualidade do ar em regiões dos EUA".
Lin, o principal autor do artigo, disse ter esperança que a pesquisa estimule a discussão sobre a adoção de uma contabilidade baseada no consumo para as emissões no lugar de uma contabilidade baseada apenas na produção. As exportações responderam por 24,1% de toda produção econômica da China no ano passado, uma queda significativa do pico de 35% em 2007, antes que a crise econômica global enfraquecesse a demanda mesmo que a economia doméstica chinesa continuasse a crescer. O número de 2013 leva em conta dados econômicos também divulgados na segunda-feira.
Os economistas alertam que isso não significa que um quarto da economia chinesa é dedicada à produção de bens para exportação, já que a China ainda faz muito reprocessamento no lugar de produzir os bens para exportação inteiramente sozinha. Mas a proporção das exportações chinesas "made in China" cresceu constantemente nos últimos anos à medida que as empresas transferiram mais de suas cadeias de suprimentos para o país no lugar de apenas fazerem o trabalho de montagem final lá. Assim, percentagens gerais da produção econômica não devem ser por si sós indicadores justos da importância das exportações para a economia chinesa.
As exportações da China para os EUA caíram em 2009 por causa da crise financeira global, mas retomaram um crescimento vigoroso. Pelo método chinês de contabilidade, que inclui apenas carregamentos diretos nos portos da China continental para os EUA e que exclui os bens que trafegam por Hong Kong, as exportações chineses aumentaram para US$ 368,5 bilhões no ano passado de US$ 252,3 bilhões em 2008. Em contraste, a China importou apenas US$ 152,6 bilhões em bens diretamente dos EUA.
Os EUA, que incluem bens que trafegaram brevemente por Hong Kong em seus dados de comércio com a China, mostram um déficit comercial com a China ainda maior ao longo de muitos anos, já que as empresas chinesas usam muito mais os portos de Hong kong para exportações do que para importações.
O Globo, 22/01/2014, Ciência, p. 29
http://oglobo.globo.com/ciencia/china-exporta-poluicao-para-os-eua-1136…
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