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Ainda de mãos postas

CB, Opinião, p. 13
Autor: MARZAGÃO, Augusto
06 de Fev de 2008

Ainda de mãos postas

Augusto Marzagão
Jornalista

Fujo de fazer previsões. Temo a futurologia pelo que representa de abstração, e abstração sem o vigor dos efeitos cromáticos que Delacroix anteviu e uma admirável geração de artistas elevou à categoria de arte. Mas reconheço que não é raro ocorrerem coincidências entre o que dizemos hoje e acontece amanhã. É o que se chama de premonição, que nada mais é do que o conhecimento antecipado de acontecimentos futuros. Coisa passível de ocorrer com qualquer um, mas que me incomoda quando acontece comigo. Sou avesso a prever o futuro, quase certo que pelo medo de ver revelados seus secretíssimos enigmas.

Digo isso a propósito de artigo que publiquei há mais de 10 anos, no qual expressava a minha preocupação com o aparecimento crescente de vírus letais e a tese que sustentava seu direto relacionamento com a devastação de grandes áreas florestais. Disse um artigo, mas foram vários. Num deles, intitulado "Predação florestal", pedia que não se tivesse "dó nem piedade" na fiscalização e punição de agentes predadores.

Mas a ação predatória continua, uma década e picos depois do apelo, com todos os riscos que a devastação das florestas representa. Madeireiros, não somente madeireiros, como agronegociantes em geral, permanecem ou chegam à Amazônia com o propósito de devastá-la, sem que as autoridades ditas competentes tomem as providências cabíveis, ou porque não sabem quais sejam, ou porque não têm condições materiais, de gente ou numerário, para impor, na região, o império da lei.

Dezenas, centenas, milhares de hectares da maior reserva florestal do mundo são sacrificados, ano após ano, não digo diante de braços cruzados, que seria uma acusação injusta em relação a uns poucos, mas de braços imbeles, isto é, de braços sem o vigor necessário para fazer que as tais providências cabíveis transitem do terreno meramente discursivo para o campo da ação.

Em entrevista que deu na semana que passou, o presidente interino do Ibama, Basileu Margarido, não fez mistério das dificuldades que o órgão enfrenta para vencer a "briga de gato e rato" contra a ação criminosa dos predadores, que contam, inclusive, com o emperro da máquina do Estado, incapaz, quando pouco muito lenta, para, por exemplo, "recolher aos cofres públicos as multas aplicadas aos infratores".

Não se pode negar que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, de quem Margarido, segundo o repórter que o entrevistou, é um "fiel escudeiro", é um dos melhores quadros do governo. É séria e competente. Passa a impressão de ser uma pessoa confiável. Mas tem um defeito. Além de não contar com as verbas de que dispõem ministérios menos importantes mas de maior força eleitoral, Sua Excelência fala pouco e baixo. E é muito provável que não conte com verbas menos desnatadas, exatamente por falar pouco e baixo. "A roda que recebe mais graxa", disse Josh Billings, "é a que range mais alto."

Escrevi recentemente que torcia de mãos postas para que ventos benfazejos dissipassem os cúmulos-nimbos que toldam o céu da economia mundial por tudo de ruim que a borrasca anunciada representa para o mundo, inclusive para nós, no Brasil. Continuo de mãos postas. Já agora não apenas torcendo, mas também rezando. E pedindo que torçam e rezem comigo os que ainda acreditam na força da reza, para que as pessoas que nos governam tomem sentido, parem de derramar a falação inconseqüente com que pretendem nos convencer de que tudo está bem, de que tudo está sob controle, de que a honestidade é regra geral, de que basta devolver aos cofres públicos o que se gastou em proveito próprio, utilizando o cartão corporativo, para a irregularidade estar sanada.

Não duvido, por exemplo, que a economia esteja num momento favorável. Está. Vozes respeitáveis abonam a euforia das autoridades do setor. Mas não há peneira que tape o sol para o que acontece, não é de hoje, e pelo andar da carruagem vai continuar a acontecer com a nossa riqueza florestal. A cobiça nacional e internacional está levando de roldão um dos nossos mais preciosos tesouros naturais. Ora, senhores (e senhoras), tomem tento!

CB, 06/02/2008, Opinião, p. 13

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