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AIE alerta para 'desintegração energética' na América do Sul

OESP, Economia, p. B15
19 de Set de 2008

AIE alerta para 'desintegração energética' na América do Sul
Desacordo entre governos pode tornar energia escassa, apesar de riqueza de recursos

Jamil Chade, GENEBRA

A América do Sul está vivendo uma fase de distanciamento entre os governos e desintegração energética diante das políticas desencontradas de vários países e do fracasso da nacionalização na Bolívia. O alerta é a da Agência Internacional de Energia (AIE), que publicou ontem relatório sobre o tema, em Paris. Segundo o documento, os paradoxos são tantos na região que projetos de gasodutos estão sendo abandonados, apesar dos recursos abundantes.

Para a agência, a falta de gás na América do Sul transformou-se em problema "endêmico", e a demanda no Brasil mais que dobrará até 2012. O País, porém, poderá transformar-se em exportador de gás, dependendo do resultado da exploração das novas reservas de Tupi e Júpiter.

A AIE, entidade controlada pelos países ricos, aponta que a Bolívia está dependente hoje do Brasil e, por isso, tentando acertar um pacto com Brasília. Com a promessa de que a Petrobrás invista no País, daria preferência ao mercado brasileiro sobre o argentino no fornecimento de gás.

De acordo com o relatório, o crescimento da produção de gás na Bolívia está estagnado e dificilmente o país conseguirá atrair os investimentos necessários para cumprir os contratos assinados nos últimos anos com Argentina e Brasil. A agência estima que o país terá de investir US$ 3,5 bilhões até 2012 para entregar o gás prometido. Isso equivale aos investimento dos últimos 12 anos. Diante da confiança baixa dos investidores no país neste momento, a meta seria difícil de ser atingida.

O problema, para a AIE, é que a demanda de gás no Brasil cresce mais rápido que a produção nacional e deve dobrar até 2012, em comparação a 2006. Por isso, a estratégia é diversificar as fontes e incrementar a produção nacional. "Em 2007, 40% do fornecimento de gás vinha da Bolívia. Mas com a instabilidade política no país e o processo de nacionalização, o Brasil freou seus esforços para incrementar a capacidade de importação do gasoduto."

A agência admite que as futuras importações de gás vão depender da velocidade d a Petrobrás em desenvolver as reservas de Tupi e Júpiter. Os campos poderiam ser usados para a produção de GNV no País.

CLIENTE PREFERENCIAL

No caso da relação entre Brasil e Bolívia, a AIE estima que os bolivianos darão prioridade ao mercado brasileiro sobre o argentino. "A Bolívia decidiu cortar o fornecimento de gás para a Argentina para garantir seu acordo com o Brasil. Em troca, a Bolívia espera que o Brasil cumpra seu plano de investimentos de US$ 1 bilhão nos próximos cinco anos para aumentar a produção de gás, que atualmente é baixa", explica a agência.

A AIE destaca a confusão em que se transformou o mercado sul-americano de gás. A região produz mais do que consome. Mas vários países começam a importar GNV de fora da região diante da instabilidade. "Os paradoxos são tais que, apesar de a região ter reservas substanciais de gás, o recente surto de nacionalizações de recursos (Bolívia e Venezuela) e políticas econômicas sem base (Argentina) fizeram com que os principais consumidores buscassem o fornecimento fora da região", diz o relatório.

"O resultado é que vários projetos de gasodutos foram abandonados, incluindo o grande gasoduto do Sul que teria de conectar a Venezuela ao Brasil, Argentina e Chile", disse. Outro projeto cancelado foi o do Peru ao Mercosul, a duplicação do Gasbol entre Bolívia e Brasil e outro entre Paraguai e Uruguai.

Para completar, o Peru, único que desenvolve projeto de exportação de GNV, já avisou que destinará 75% da produção para o México.

OESP, 19/09/2008, Economia, p. B15

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