Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
Autor: Jessé Souza*
04 de Fev de 2005
Faz alguns dias escrevi sobre racismo e preconceito. Mais precisamente a reação preconceituosa e racista velada contra os indígenas. E preferi não entrar em conceitos históricos, justamente para não adentrar em uma discussão teórica.
Mas até hoje recebo e-mails incisivos e muitas vezes confusos sobre este assunto. Confusos porque acabam reforçando um preconceito e algumas vezes racismo contra os índios e minorias.
Quando falo em minorias, refiro-me a indígenas, judeus, negros, pobres, "feios", prostitutas, homossexuais, despossuídos de qualquer forma, jeito e economia. Não esqueçamos que e m Auschwitz e em vários campos de concentração foram exterminados entre 6 e 10 milhões de judeus, ciganos, socialistas e gays.
Não esquecendo também que o racismo era tratado entre estes povos como anedotas. Todos riam das piadas aparentemente sem intenção. Até hoje conheço gente que repassa piadas preconceituosas e racistas. E todos riem, todos acham engraçadas as piadas que depreciam ou rejeitam os excluídos, os negros e índios, por exemplo.
Então vamos contextualizar a história da Humanidade. Naquela época do nazismo, as piadas preconceituosas se converteram numa arma poderosa para distrair o descontentamento popular e apoiar o totalitarismo, a apoiar o nazismo.
"No Século XX, o racismo nasceu com um genocídio contra armênios e se fechou massacrando aos tutsis. Essas carnificinas foram incubadas em sociedades que toleravam o racismo", escreveu o analista política mundial Bagio.
"Nos Andes há uma grande mistura étnica. Uma sociedade aberta pode beneficiar-se da 'multi-culturalidade' que cada etnia tem a oferecer através de sua própria autonomia regional, idioma ou cultura" (idem).
"Alentar frases ou posturas depreciativas para semitas, brancos, cholos, índios ou negros é uma receita que, em tempos de crises, poderá vir a incubar perseguições como aquelas que padeceram anteriormente, descendentes de nipônicos, chineses, africanos, índios ou judeus. O comportamento racista pode abrir as portas para que se repitam tristes cenas vistas na Alemanha, Ruanda, Líbano ou os Balcans", complementou Bagio.
É disto que falo. A cegueira econômica atacando os indígenas, sem entender os conceitos históricos e antropológicos, já está provocando em Roraima uma onda de preconceito. Primeiro preconceito econômico e étnico. Depois essa "raiva" que terminará em um racismo.
E não precisa explicar muito onde esta visão distorcida e enraivecida da realidade pode parar. A elite local e seus aliados (incluídos aí 'escritores' que se acham intelectuais) trabalham incessantemente para que suas "anedotas" e "fatos históricos" fiquem fixados na memória popular, como se fossem História.
Querem empurrar a visão do colonizador, mais uma vez, ignorando os demais atores sob a desculpa da integração, do "índio vivendo bem com o não-índio". Preste atenção nas histórias dos colonizadores. Veja de onde partem as versões. Veja onde estão não só os índios, mas os mais pobres na versão deles...
A "História" é contada na versão das famílias tradicionais, dos exploradores, de quem submeteu a "senzala" de sua época ao desprezo. E ai de quem for contra essa "verdade", essa "tradição". Ai de mim. Ai de meus antepassados que se reviram no túmulo.
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