OESP, Vida, p. A26
Autor: LAPOUGE, Gilles
21 de Mar de 2009
As águas do mundo
Gilles Lapouge*
Enquanto a crise financeira continua atacando em toda parte, fazendo explodir um banco aqui, deixando no olho da rua 10 mil operários ali, inimigos mais discretos prosseguem com seu trabalho de desagregação das sociedades. Entre esses inimigos está a falta de água.
É possível que daqui a 50 anos todas as pequenas desgraças atuais pareçam inofensivas comparadas a duas grandes calamidades: o aquecimento climático e a escassez de água, cuja gravidade mal começamos a avaliar.
É esse o tema do fórum que reúne 15 mil pessoas em Istambul, Turquia. Em linhas gerais, eis um panorama que deve pôr medo: 340 milhões de africanos não têm acesso à água potável. Em 2030, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, 5 bilhões de seres humanos sofrerão o mesmo destino. A falta de água é portanto um "vírus" tão devastador quanto a aids. Todo ano morrem 3 milhões de pessoas por falta de água potável.
E não é apenas a saúde. Há também a alimentação. A agricultura consome água. Setenta porcento da água disponível destina-se à agricultura e essa proporção se elevará para 90%.
O ar e o clima têm um status internacional. Eles constituem o "bem comum da humanidade". O mesmo não acontece com a água. Ela é administrada pelos países, o que é absurdo, considerando que é frequentemente partilhada por vários deles.
Na China, a barragem monumental das Três Gargantas deverá massacrar territórios do tamanho da França. No Oriente Médio, o Eufrates, o grande rio da antiga Babilônia que irrigava, ao que se conta, o Paraíso Terrestre, foi gravemente afetado por uma barragem. A cidade de Halfeti, conhecida desde o 3o século antes de Cristo, está agonizando.
Muito frequentemente a construção de barragens afeta países que, na realidade, são inimigos ferrenhos. É o que ocorre principalmente no Oriente Médio, com o Jordão, outro rio místico e sagrado, porque teve papel essencial na História de Deus. Suas águas irrigam ambas as partes do conflito israelense-palestino.
* Giles Lapouge é correspondente em Paris
OESP, 21/03/2009, Vida, p. A26
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