VOLTAR

Água do Paraiba

O Globo, Tema em Discussão, p. 6
Autor: COSTA, Aluízio Meyer de Gouvêa
29 de abr de 2004

Água do Paraiba

Caixas-pretas

Nossa opinião
Esgotos domésticos, rejeitos industriais, desmatamento e ocupações irregulares provocaram tal degradação do Rio Paraíba do Sul, a principal fonte de água do Estado do Rio, que o fornecimento chega a estar sob ameaça de colapso. Estudiosos da Coppe dizem que o desastre é iminente, o que a Cedae nega, ao mesmo tempo que aponta a necessidade de maior conscientização quanto ao tratamento adequado dos recursos hídricos.

Empresas e população em geral têm mesmo sua parcela de culpa. Mas é inegável a incompetência e a incúria do poder público em matéria de saneamento. No ano passado, por exemplo, a empresa Cataguazes de Papel provocou um desastre ecológico que deixou meio milhão de pessoas sem água; sua licença ambiental estava vencida desde 1995. Não é preciso mais para mostrar a ineficiência da fiscalização.

A omissão do estado é ajudada pela falta de uma clara delimitação de funções. Cedae, Comlurb, Feema, Ibama e outros volta e meia se empenham num jogo de empurra típico das situações em que inexiste uma regulação clara - agravada pela falta de transparência dos órgãos e empresas oficiais, verdadeiras caixas-pretas.

A cobrança de tarifas dos grandes consumidores de água do Paraíba, estabelecida há um ano pela Agência Nacional de Águas, vem dando bons resultados, avalia o Comitê para a Integração da Bacia Hidrográfica do Paraíba. É uma boa fonte de recursos, mas a escassez de dinheiro é apenas um dos problemas; é essencial avançar na atribuição mais nítida de responsabilidades aos órgãos e suas esferas municipal, estadual e federal.

Outra Opinião

Questão cultural

Aluízio Meyer de Gouvêa Costa

Mais do que recursos financeiros infindáveis e políticas públicas coerentes, a questão do saneamento básico - sobretudo nas grandes cidades - requer uma revolução cultural capaz de fazer com que a sociedade se conscientize da importância de preservar os escassos recursos hídricos.

A recente série de reportagens publicadas por este jornal sobre a flagrante degradação do Paraíba do Sul mostrou como ainda existe um longo percurso a ser vencido até que seja alcançado o desejável equilíbrio do sistema ecológico daquele rio.

Diariamente, a estação de tratamento do Guandu utiliza dezenas de toneladas de produtos químicos para fazer com que a água barrenta e suja do Paraíba do Sul seja distribuída aos consumidores com elevados índices de limpeza e potabilidade. Não raro os dias em que, ao invés de extrair lama da água captada, somos obrigados a obter água da lama... Mensalmente são realizadas mais de 7.500 análises laboratoriais de amostras colhidas em pontos de consumo, o que garante um produto de qualidade indiscutível, idêntica à de países como o Canadá e os Estados Unidos.

Dá trabalho e custa muito manter em operação várias estações de tratamento de água e de esgoto, além de conservar e ampliar uma rede cuja extensão supera os 20 mil quilômetros.

Boa parte das críticas feitas à Cedae tem procedência, sim, na medida em que ainda existem regiões onde o abastecimento de água é precário e o esgoto não recebe o tratamento adequado, situação que será revertida tão logo sejam quitados os pagamentos devidos. Hoje, mais de 600 mil consumidores estão inadimplentes e acumulam uma dívida de cerca de R$ 3 bilhões.

Todo este quadro, por maiores que sejam as inerentes preocupações, não pode ser interpretado com alarmismo. O Paraíba do Sul, por mais poluição que receba, tem demonstrado um excepcional poder diluente, ou seja, recusa-se a morrer e mostra-nos que pode ser salvo, o que ocorrerá tão logo a sociedade assim queira.

Comprovada por especialistas, a qualidade da água produzida e distribuída pela Cedae para mais de doze milhões de consumidores em 62 cidades do Estado do Rio é uma prova incontestável de que o Rio Paraíba do Sul merece, com urgência, ser adotado pela sociedade e transformado em uma espécie de ícone da resistência aos desmandos que insistem em tirar-lhe a vida.

Aluízio Meyer de Gouvêa Costa é diretor-presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae).

O Globo, 29/04/2004, Tema em Discussão, p. 6

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.