OESP, Especial, p. X7
22 de Set de 2014
Agronegócio consome 83% da água doce
Brasil gasta no cuidado com animais e cultivo mais que a média do resto do mundo
Valéria França
ESPECIAL PARA O ESTADO
O Brasil consome mais água na agricultura do que a média dos países ao redor do mundo. O cultivo e os cuidados com os animais em geral são responsáveis pela maior parte, 70%, do gasto total do recurso. O Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil, da Agência Nacional de Águas, aponta que o agronegócio é responsável por 83% do consumo total do País.
Entre 2006 e 2007, houve um aumento de 29% da retirada de água de mananciais para irrigação, técnica que expandiu em 7% as áreas cultivadas. O processo é importante principalmente para elevar a produtividade das plantações. "São poucas as propriedades que possuem uma técnica mais sofisticada de irrigação, que distribua em tempo certo a quantidade ideal para aquele tipo de cultura", afirma a bióloga e pesquisadora Gláucia Souza. "Existe, sim, um desperdício de água na maior parte das propriedades, por falta de técnicas apropriadas." Apenas 5% do território nacional é irrigado.
Estabelecer políticas públicas de produções mais sustentáveis e investirem novas tecnologias se apresentam como medidas fundamentais para crescer sem perder recursos naturais - que serão cada vez mais raros. "Certamente, o Brasil está entre os países com maior potencial para atender a necessidade de aumento de produção de alimentos que o mundo vai demandar de forma crescente", diz Valter Brunner, diretor corporativo da Syngenta, o maior fabricante mundial de agroquímicos.
As mudanças climáticas, o crescimento dos centros urbanos e da população mundial estão levando à escassez de água. Mesmo com tanto recurso, São Paulo, o estado mais rico do Brasil, sofre esse ano com o abastecimento. Um problema que tem a ver com a seca inesperada e também com o desmatamento da Amazônia.
Vantagem. "O Brasil tem a vantagem natural de reunir 13% de toda água doce do planeta. Isso pode colocá-lo entre as cinco nações mais competitivas do mundo", diz o especialista em commodities agrícola Warren Kreyzig, do Banco Julius Baer.
"Os países são ranqueados pelas capacidade produtiva ou de exportação, mas fatores como qualidade da terra, recursos hídricos, clima, tecnologia, escala e acesso ao mercado global transformam-se em ativos e, portanto, em grandes vantagens competitivas", diz o especialista." O centro-oeste dos Estados Unidos tem solo rico, Clima temperado, logística e infraestrutura e certamente entra para os melhores de qualquer lista. O Brasil também pode chegar lá, pela conjunturado Clima, da água e dos resultados do agronegócio." O cenário mundial será ainda mais favorável para o Brasil. " Sob prognóstico de médio crescimento econômico, assumindo que não haja ganhos de eficiência, a demanda global de água em 2030 deve aumentar 50%. A oferta mundial será menor que o consumo, um déficit estimado em 2,7 bilhões de m³", diz Kreyzing.
Se até hoje a água era líquido certo e farto, agora flui para virar riqueza, uma commodity muito valiosa. O aumento da temperatura em até 2o C impactará a produtividade agrícola negativamente entre 10% e 20% até 2050. A commoditização da natureza é uma tendência e significa transformar um bem comum em mercadoria. Em outras palavras: transformar um bem difuso, público, em privado. Diferentemente de uma commodity agrícola, a ambiental, no entanto, não é definida pelo mercado. O produtor geralmente muda o cultivo dependendo dos preços. No caso do meio ambiente, tudo depende do ecossistema.
"O agricultor será a maior vítima do estresse hídrico, em primeira instância, por precisar do volumes maiores para produzir em escala, em comparação ao baixo valor agregado por litro consumido. A água para eles é o principal rendimento e lucro", afirma Kreyzing.
Segundo o especialista, a diminuição do recurso fará com que o agricultor eleve o valor do produto - ou mude para regiões onde a oferta de água seja maior. "Educação e sustentabilidade são ainda os melhores caminhos para prevenir conflitos e minimizar perdas econômicas", diz Kreyzing.
OESP, 22/09/2014, Especial, p. X7
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