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Agricultores conhecem produção de alimentos orgânicos na Amazônia

WWF - http://www.wwf.org.br
Autor: Jorge Eduardo Dantas
25 de jun de 2014

A produção de alimentos orgânicos é um dos campos de trabalho mais promissores para os agricultores familiares e vem crescendo em todo o mundo nas últimas décadas.

Por meio deste processo, que consiste em cultivar utilizando técnicas que respeitem o meio ambiente e dispensem o uso de agrotóxicos, é possível dar origem a alimentos mais saudáveis, mais saborosos, evitar a contaminação da água, do solo, da vegetação, e gerar sistemas que valorizem a mão-de-obra do homem do campo.

Por este motivo, o WWF-Brasil optou por contemplar o assunto durante o Intercâmbio Agroflorestal Purus-Tarauacá-Envira. Neste evento, 22 produtores rurais e técnicos rurais dos municípios de Manoel Urbano, Feijó e Tarauacá, no Acre, passaram uma semana visitando experiências bem sucedidas de agroflorestas no sudoeste da Amazônia, no próprio Acre, no Amazonas e em Rondônia.

O intercâmbio fez parte da iniciativa Protegendo Florestas (Sky Forest Rescue). Este projeto, desenvolvido em conjunto com a emissora de TV inglesa Sky e o Governo do Acre, tem como objetivo garantir a conservação de 1 bilhão de árvores naquele estado.

"Pupunha vende bem"

Uma das mais interessantes experiências conhecidas no intercâmbio foi na Colônia São Luiz - um sítio de 64 hectares existente no Projeto de Assentamento Humaitá, localizado no município de Porto Acre, a 54 quilômetros de Rio Branco.

O lugar é propriedade do agricultor Valdir Silva de Souza, 61, que, junto a sua família, mantém ali uma produção detentora do selo Brasil Orgânico e certificada pela Associação de Certificação Socioparticipativa da Amazônia (ACS - Amazônia).

Seu Valdir produz, entre outras culturas, hortaliças, milho, mandioca, maracujá, abacaxi, mamão, banana, açaí e cupuaçu - mas seu carro chefe é a pupunha ("É renda garantida, vende bem sempre", explicou o agricultor). Sua renda com a produção orgânica gira em torno de R$ 57 mil anuais, cerca de R$ 4.750 por mês.

Menos trabalho, mais lucro

Valdir deu início ao trabalho com produção orgânica na década de 90, num projeto desenvolvido pela Universidade Federal do Acre (Ufac). "Eles perguntaram à comunidade quem gostaria de trabalhar com leguminosas para a recuperação de áreas degradadas e eu me apresentei", afirmou. Ele começou a experimentar diferentes formas de produzir e plantar em sua propriedade - até perceber que a produção orgânica, livre de agrotóxicos, dava menos trabalho e rendia mais lucros.

Essa realidade foi verificada por vários dos "vizinhos" de seu Valdir, moradores do projeto de assentamento do Humaitá. Eles resolveram então, em 2002, criar o Grupo de Agricultores Ecológicos do Humaitá (Gaeh) com o objetivo de reforçar as ações em direção à produção orgânica. Hoje, o Gaeh reúne 20 sócios que, juntos, conquistaram uma série de benefícios na última década.

No sítio, Valdir mostrou suas áreas cultivadas com sistemas agroflorestais, roçados sem fogo e horta orgânica. Ele falou bastante sobre a necessidade que os produtores rurais têm de se organizar e de aprender a produzir sem agredir o meio ambiente.

"No mundo inteiro, vamos ter que aprender a plantar sem queimar. O cerco tá se fechando, isso vai chegar pra todo mundo. Quem não se adequar vai estar fora, não vai conseguir vender, não vai acessar mercados", falou o agricultor.

Visita ao Reca

Outra experiência visitada pelos participantes do intercâmbio foi o projeto Reca - Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado. Situado no distrito de Nova Califórnia, em Porto Velho, capital do Estado de Rondônia, o projeto trabalha há 25 anos com a produção e venda de produtos agroflorestais.

Atualmente, o projeto Reca conta com a participação de 300 famílias e mantém uma área de mais 2,7 mil hectares, onde são produzidos mais de 40 itens, entre cupuaçu (o produto que mais gera dividendos à associação), castanha, pupunha, açaí, patoá, café e essências florestais, além de doces, compotas, licores, biscoitos e polpas de frutas. Metade de sua produção é certificada como orgânica. Eles também apoiam outras três associações de produtores situadas naquela região.

Hoje o Reca produz, por safra, cerca de 70 toneladas de óleo de copaíba, mais de 300 toneladas de castanha, mais de 200 toneladas de açaí e mais de 100 toneladas de palmito - vendidas apenas no Brasil.

Trabalho e dor de cabeça

"Não há como pôr de pé um projeto como esse sem dor de cabeça e trabalho. Ao longo desses 25 anos enfrentamos muitos desafios, mas sempre havia algo que nos mantinha trabalhando e aqui estamos, depois de 25 anos, ainda tentando, mas já com várias conquistas", declarou o gerente comercial do projeto Reca, Hamilton Condack.

Como parte da visita ao projeto Reca, os intercambistas almoçaram, visitaram as áreas de agrofloresta e as fábricas de palmito de pupunha e óleo de cupuaçu - que são vendidos pra a empresa de cosméticos Natura.

Maiores do mundo

O analista de conservação do WWF-Brasil, Flávio Quental, afirmou que o objetivo da visita ao projeto Reca foi levar os participantes do intercâmbio a conhecer uma experiência de organização comunitária que fosse reconhecidamente bem-sucedida.

"O projeto Reca é um dos maiores projetos de agrofloresta do mundo. O sistema de organização comunitária deles é muito interessante e gente do mundo inteiro vem visitá-los e conhecê-los", disse o especialista.

O produtor Antônio Flor da Silva, 28, conhecido como "Tonho", morador de Feijó, disse que viu semelhanças entre os locais visitados no intercâmbio e a sua comunidade. "O que percebo é que as dificuldades existem, elas estão em todos os lugares. Mas temos que ir plantando, experimentando, vendo o que dá certo e o que não dá. Baseado no que vi aqui, vou levar algumas coisas para casa, ver se consigo alguns resultados parecidos", disse o agricultor.

Tonho mora na Colônia Laguinho, uma propriedade de 150 hectares onde, junto com seus familiares, planta diversas culturas. Ele trabalha com o açaí e a borracha FDL, ações apoiadas pela iniciativa Protegendo Florestas.

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