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A agonia das águas

CB, Cidades, p. 25-26
22 de Mai de 2004

A agonia das águas
Ocupação desordenada do solo, desmatamento e lixo jogado nos mananciais aceleram o processo de comprometimento das bacias hidrográficas do DF e acendem o sinal de alerta para o risco da escassez

Aline Fonseca
Da equipe do Correio

As bacias hidrográficas do Distrito Federal estão em estado de alerta. A densidade populacional e a ocupação desordenada do solo comprometem rios e córregos e ameaçam o abastecimento de água. A análise é da organização não-governamental WWF-Brasil, que realizou uma pesquisa sobre a integridade ambiental dos recursos hídricos do DF. "É como se tivesse uma luz amarela piscando, sinal de que é preciso cuidado e de que a situação não é tão boa assim", explica o coordenador do programa de água da WWF, Samuel Barreto.
Segundo a pesquisa, o sinal amarelo está nas alterações ecológicas e terrestres das unidades hidrográficas. Nas bacias do Paranoá e do Descoberto, há problemas com o desmatamento e o lixo jogado nos mananciais, e é preciso melhorar a coleta e o tratamento de esgoto dos núcleos urbanos. Na Bacia do Rio Preto, a WWF aponta o uso desregulado da água, com a irrigação por pivôs centrais, associado ao desmatamento.
Um plano de monitoramento ambiental encomendado pela Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) à Universidade de Brasília (UnB) e apresentado ao governo em setembro do ano passado também expõe a situação de risco dos córregos e rios do Distrito Federal. Em todas as bacias há comprometimento de mananciais. Na do Maranhão, cujos rios apresentam melhores condições por estar em terras acidentadas, o que reduz o interesse para a ocupação humana, o Ribeirão da Contagem registra baixa qualidade das águas. Com a instalação de uma fábrica de cimento e outra de asfalto na região, as áreas que margeiam o ribeirão foram desmatadas e sedimentos das terras correm para a água.

Áreas protegidas
Na Bacia do Paranoá, os mananciais em melhor estado são os que ficam em áreas protegidas por lei. 0 Lago Paranoá encontra-se em condição de sensibilidade ambiental, com as quatro estações de tratamento de esgotos (ETEs Sul e Norte, do Torto e do Riacho Fundo) no limite.
A situação é pior na Bacia do Descoberto, responsável por 65% do abastecimento de água no DF: um de seus ribeirões, o Melchior, é considerado morto. Para cada parte de água, ele tem quatro de esgoto. Isso porque as cidades de Taguatinga e Ceilândia despejam seus efluentes direto no Melchior. De acordo com a Companhia de Saneamento do Distrito Federal (Caesb), o ribeirão será despoluído assim que a ETE Melchior entrar em operação, no segundo semestre deste ano. A obra está orçada em R$ 58 milhões.
Na Bacia do Corumbá, o Ribeirão Santa Maria exporta sujeira para o Novo Gama e Cidade Ocidental, em Goiás. A área está repleta de cascalheiras; que assoreiam o córrego, responsável pelo abastecimento das cidades. "Não podemos dizer que vai faltar água, mas em algum momento, se a coisa continuar assim, haverá falta de água de qualidade", alerta José Elói Campos, professor de Hidrogeologia da UnB.
Os peixes são os primeiros a desaparecer dos córregos comprometidos. A presença deles é sinal de saúde dos mananciais. As bacias com maior quantidade de espécies únicas - o que indica bom índice de integridade biótica -•- são as do Maranhão, São Bartolomeu e Preto. Nas do Descoberto e Corumbá há apenas 9% de espécies únicas encontradas.
As pesquisas deixam claro que, onde há ocupação humana, todo o ecossistema é prejudicado. No DF, a densidade populacional e os parcelamentos irregulares agravaram a situação. Segundo o IBGE, o DF tem 353 habitantes por km2, contra 328 do Rio de Janeiro. "E a principal questão é que a explosão populacional ainda não acabou. Brasília já não é mais um paraíso, é só dar uma olhada para o seu entorno", diz o coordenador da WWF, Samuel Barreto.
Nas áreas preservadas - como o Parque Nacional, as reservas da UnB e os parques - os mananciais estão em bom estado. "A água não é infinita. Qualquer área de proteção ambiental hoje é muito mais para proteger os mananciais", diz o secretário adjunto da Secretaria de Parques, Álvaro Pinto."A água é. demasiado importante para pensarmos que é algo individual. Todo mundo tem de cuidar", ensina o chacareiro Carlos Domingues, que adotou uma nascente no Núcleo Rural do Torto.

Recursos Hidricos
De garrafas plásticas a pneus, há de tudo no lixo que compromete a qualidade dos mananciais do Distrito Federal. A recuperação leva anos e exige ações do poder público e da população, afirmam especialista
Invasões aceleram degradação
ALINE FONSECA E LARISSA MEIRA
DA EQUIPE DO CORREIO
Quando as margens de mananciais se transformam em quintal das invasões de terra pública, a qualidade da água fica seriamente comprometida. A ocupação ilegal é responsável pela contaminação de grande parte dos rios e córregos do Distrito Federal. Nas proximidades das bacias, invasores desmatam, plantam, depositam lixo na água e cavam poços para improvisar um abastecimento hídrico.
Há cinco anos, a doméstica Valdete de Lima, 41 anos, mora embaixo da ponte sobre o Ribeirão Sobradinho, na BR-020. Baiana e ,mãe de dois filhos, ela não utiliza a água do rio para o consumo próprio. "Vixi, isso tá sujo demais. Até fede", diz. "Como já tá um esgoto puro, eu até jogo lixo no rio mesmo. Deixo os sacos na beira e a correnteza leva." No barraco de madeira, sob a ponte, Valdete acostumou-se a conviver Com o barulho dos carros, enchente em época de chuva e visitas da fiscalização de Brasília.
"Eles vêm aqui de vez em quando. Dizem que não posso ficar. Sei que é proibido. Eu vou pra Sobradinho, mas volto depois", conta. O abastecimento de água no barraco é improvisado - ela é retirada de uma grota próxima da ponte. A conseqüência das ocupações é visível na aparência do rio, totalmente esverdeado. Sacolas plásticas, restos de latas e caixas de bebidas bóiam na água malcheirosa.
. No Córrego do Guará, às margens dá Estrada Parque de Táguatinga, a situação também é de alerta. Mais de 130 famílias habitam as proximidades do manancial. "Quando cheguei aqui, era tudo mato de cerrado. Agora, tem minha horta e algumas árvores que acho bonitas e plantei", revela, sem constrangimento, o chacareiro Nilton dos Santos, 48 anos. Ele mora em um terreno localizado a poucos metros do córrego, há 17 anos. Na área, cultiva hortaliças, grãos e frutas. Tudo para a subsistência da família de sete pessoas.
Assim como Valdete, Nilton optou por abrir um poço, ao invés de utilizar a água do córrego para consumo próprio. De acordo com o chacareiro, o Sistema de Vigilância do Solo do DF (Siv-Solo) já tentou remover as ocupações. "Se negociassem outro lugar para eu ir, sairia numa boa. Mas, por enquanto, fico aqui", avisa.
Vestígios de habitação irregular são verificados ainda às margens do Córrego Vicente Pires, na Estrada Parque Taguatinga-Guará (EPTG). Uma mesa improvisada com galhos de árvore, garrafas, lonas e arame farpado são indícios de que a passagem subterrânea pela pista serve de abrigo a moradores de rua. A água tem aparência de esgoto, com tons verdes e marrons, além da sujeira que é vista no fundo e nas bordas. Há de tudo, de embalagens plásticas a pneus. A mata fechada, de pântano, dificulta a presença humana na região, já devastada nas proximidades pela ocupação urbana que tomou conta da Colônia Agrícola Vicente Pires.
Varal de lixo
No Ribeirão do Torto, formador do braço norte do lago, próximo ao Varjão,a vegetação ribeirinha está repleta de entulho, que também chega ao Paranoá. A sujeira é aparente. Os galhos das árvores acomodam sacos plásticos, garrafas peti, roupas velhas formam um varal de lixo que vem do Varjão. "Cheguei à conclusão de que homem e natureza não se afinam. Estou convencido de que onde tem natureza não pode ter ocupação, já que o homem não sabe o que fazer para não destruir", afirma o bancário Geraldo Pinto, 42 anos, morador do Setor de Mansões do Lago Norte empenhado na recuperação do Torto.
Ele e os filhos adotaram o Ribeirão do Torto desde que fizeram uma pequena excursão de caiaque pelo local, no ano passado. Ficaram tão impressionados com o estado do córrego que convenceram alguns vizinhos a fazer uma limpeza no ribeirão. Em apenas uni dia, o grupo retirou cerca de dez toneladas de lixo. "Nossa intenção é continuar a limpeza e atrair mais pessoas. Ninguém se dá conta, mas o Paranoá também é afetado", alerta.
A recuperação de rios e mananciais superficiais leva anos. "A natureza não funciona de forma automática. 0 rio vai depurar de acordo com seu ciclo natural, o que demanda alguns anos e a participação de chacareiros, governo, moradores e outros usuários", afirma a pesquisadora Maria Rita Souza Fonseca, autora do trabalho Monitoramento dos Recursos Hídricos Superficiais do DF, parte do plano de monitoramento entregue à Semarh.
"Nosso principal problema é a construção à beira de córregos e mananciais. A legislação estabelece uma faixa de limite para proteção dos sistemas hidrográficos, mas as pessoas teimam em desrespeitar as leis", explica o subsecretário do Siv-Água, Antonio Magno.
Nascentes são adotadas
O primeiro passo para conservar os mananciais hídricos é preservar as nascentes. Semarh e WWF criaram há dois anos o programa Adote uma Nascente: qualquer cidadão pode ser responsável por uma, no DF. Oitenta pessoas já aderiram ao programa. Três delas estão no Núcleo Rural do Torto. Os chacareiros Carlos Domingues, Rubens Bartholo e Alan Fialho, moradores do núcleo, adotaram a nascente que forma uma das vertentes do Ribeirão do Torto.
A nascente passa na propriedade de Carlos e foi adotada há dois anos. Degradado por uma ocupação irregular na área - o Condomínio Privê 1- o olho d' água precisou ser recuperado. A mata ciliar foi replantada e o lixo, retirado. Hoje, a água passa, límpida e barulhenta, pelas terras do chacareiro, graças à ajuda dos vizinhos. "A idéia é que cada um faça a sua parte. E importante que as pessoas pensem que a responsabilidade é de todo mundo", afirma Carlos.
Segundo a coordenadora do programa, Vandete Maudaner, as regiões priorizadas para a adoção de nascentes são as bacias do Descoberto e Torto-Santa Maria, que, juntas, são responsáveis por 85% do abastecimento do DE "O objetivo é garantir a disponibilidade de água no Distrito Federal", explica Vandete.

CB, 22/05/2004, Cidades, p. 25-26

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