O Globo, Opinião, p. 19
Autor: TUBBS FILHO, Decio
20 de Ago de 2014
A agenda da água
Devemos incutir em nossos futuros governantes a necessidade de incluir em programas de governo a gestão hídrica
Decio Tubbs Filho
Mark Twain, escritor americano, argumentava que só reconhecemos a importância de um poço quando ele seca. Devido à maior estiagem já observada na bacia do Paraíba do Sul, a nossa principal fonte, a crise da água agora passou a fazer parte do cotidiano, e as regiões metropolitanas de Rio e São Paulo descobriram-se interdependentes do rio.
À parte o jogo eleitoral repleto de ufanismos hídricos e midiáticos, e ultrapassada a crise atual, ambos os estados terão de construir uma agenda única - consolidada por uma gestão compartilhada, técnica, que atenda às demandas futuras e, principalmente, que considere o uso múltiplo das águas para ambas as populações.
Em 2003, devido a outra longa estiagem, os problemas de abastecimento da Região Metropolitana do Rio foram suplantados pelo diálogo, com soluções embasadas por decisões técnicas construídas em torno de uma mesa de negociações, com a participação de todas as instituições do sistema de gestão hídrica e sem decisões unilaterais ou intempestivas.
Em 2013, o Conselho de Recursos Hídricos do Estado do Rio de Janeiro aprovou o Plano Estadual de Recursos Hídricos, ferramenta essencial para o uso sustentável das águas em todo o estado.
O documento apontou vários cenários para a gestão das águas, notadamente, em relação à dependência do Paraíba do Sul, responsável pelo abastecimento de 80% da região metropolitana, bem como de outras dezenas de cidades fluminenses.
Significa dizer que a atual crise é vitrine anunciadora de situações futuras, podendo se repetir, ainda que relacionada somente às incertezas climáticas.
Entretanto, até hoje fomos inábeis para demonstrar à sociedade a importância da gestão hídrica. Pouco é conhecido sobre os avanços e conquistas desse sistema, por exemplo, sobre a importância da participação nos comitês da bacia hidrográfica, corresponsáveis pelas decisões. Portanto, atrair a sociedade civil para essa discussão é um desafio presente.
Por outro lado, é pouco provável que os recursos hídricos sejam protagonistas ou ganhem destaque nas campanhas eleitorais. No entanto, diversas regiões fluminenses apresentam ou apresentarão dificuldades relacionadas à disponibilidade de água, quer devido à quantidade ou à qualidade.
Assim, é nossa obrigação, mais uma vez, tentar incutir em nossos futuros governantes a necessidade de incluir em seus programas de governo a gestão hídrica como ferramenta essencial para o desenvolvimento social e econômico do nosso estado.
Portanto, devemos aprender com a atual crise, incluindo a gestão dos recursos hídricos no cotidiano da sociedade e na agenda política, bem como implementando o Plano Estadual de Recursos Hídricos como instrumento fundamental para assegurar o desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro. Fica o alerta à sociedade e aos nossos futuros governantes.
Decio Tubbs Filho é presidente do Conselho Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Rio de Janeiro
O Globo, 20/08/2014, Opinião, p. 19
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