O Globo, Amanhã, p. 7
30 de Jul de 2013
Agência de espionagem tenta modificar o tempo
Com o objetivo de se preparar para a ameaça das mudanças climáticas sobre a segurança nacional dos Estados Unidos, CIA se associa à academia em pesquisas de geoengenharia que podem ser capazes de mudar o clima
Entre o céu e a terra, são infinitas as origens de ameaça à segurança nacional americana. E as mudanças climáticas se tornaram mais uma delas. Por isso, a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) decidiu dar mais combustível a teorias da conspiração e participar do financiamento de um estudo de geoengenharia sobre como controlar o clima.
Segundo a revista britânica "New Scientist", a famosa agência americana é uma das responsáveis pelo financiamento de uma pesquisa da Academia Nacional de Ciências (NAS, na sigla em inglês) que irá investigar formas de utilizar a geoengenharia para estancar as mudanças no clima do planeta.
A geoengenharia é uma ciência que estuda a intervenção deliberada e em grande escala no sistema climático da Terra. Além da CIA e da própria NAS, a Administração Nacional da Atmosfera e dos Oceanos e a Nasa também providenciaram recursos para a pesquisa. Estima- se que o projeto vá custar aos envolvidos US$ 630 mil (ou R$ 1,4 milhão).
As duas técnicas principais a serem analisadas são a de gestão da radiação solar e a remoção de dióxido de carbono. O objetivo é descobrir os impactos da aplicação dessas técnicas sobre o meio ambiente, a economia e, é claro, a importante "segurança nacional".
Gestão da radiação solar é um ramo teórico da geoengenharia que estuda a reflexão da luz solar como uma tentativa de bloquear a radiação infravermelha e travar o aumento das temperaturas.
O estudo também vai analisar os riscos de que essas técnicas acelerem a acidificação dos oceanos - um desastre à parte nas mudanças dos sistemas globais.
Conspiração ou compreensão
Portanto, para os teóricos da conspiração, a trama ainda não se adensou. A CIA vê o aquecimento global como uma ameaça à estabilidade do planeta e, por isso, quer saber como pode detê-lo.
"Em um assunto como mudanças climáticas, a agência trabalha com cientistas para entender melhor o fenômeno e suas implicações na segurança nacional", resume o portavoz da agência Ned Price à "New Scientist".
De posse da informação, a revista americana de tendência esquerdista "Mother Jones" lembrou de um episódio que já demonstrava o interesse dos espiões americanos sobre o assunto. Durante a Guerra do Vietnã, foi muito discutida a tentativa de dispersar substâncias no ar, criando a condensação de nuvens e núcleos de gelo e, posteriormente, gerando chuva ou neve. A ideia era tornar as trilhas usadas pelos vietnamitas absolutamente impraticáveis.
Também foi amplamente noticiado que o governo chinês utilizou um processo parecido antes da cerimônia de abertura Olimpíadas de 2008 para criar uma chuva torrencial em outro lugar e manter o estádio seco. Os chineses teriam atirado cristais de iodeto em nuvens de chuva que estavam sobre Pequim, provocando a precipitação.
Há quem acredite, inclusive, que os recentes desastres naturais que devastaram grandes trechos do território americano, como a supertempestade Sandy e os tornados de Oklahoma, sejam obra de humanos.
Dado o interesse de governos e suas agências de inteligência nas técnicas de geoengenharia, um dos aspectos abordados pelo estudo deve ser o perigo do engajamento dos países em projetos unilaterais. Um dos cientistas que participam do estudo, Ken Caldeira, da Universidade de Stanford, disse à "New Scientist", que há uma preocupação especial com "atores desonestos" envolvidos com a geoengenharia.
No ano passado, a CIA havia declarado ter fechado seu centro de pesquisas sobre mudanças climáticas. A decisão teria sido tomada depois que membro do Congresso, que discutiam o orçamento do país, argumentaram que a CIA não deveria estar pesquisando o tema.
O Globo, 30/07/2013, Amanhã, p. 7
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