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Autor: Juarez Silva Jr
25 de Nov de 2019
Terminada a semana da consciência negra, mas não o mês, começo a coluna citando a historiadora Patrícia Melo em obra por ela organizada, "O FIM DO SILÊNCIO: presença negra na Amazônia":
[..] tema tido como fundamental nos mais diferentes campos acadêmicos: economia, sociologia, antropologia, direito, além da história, obviamente. Contudo em se tratando de Amazônia e, mais particularmente, do Amazonas, estamos diante de um tema muito pouco frequentado pelos estudiosos. Um silêncio persistente que insiste em apagar memórias, histórias e trajetórias de populações muito diversificadas que fizeram desta região seu espaço de luta e sobrevivência. Esta é uma dívida de muitas gerações que ainda reclama sua paga. (SAMPAIO, 2011, p8 )
A minoração, falando para quem não está muito familiarizado com o jargão das ciências sociais, é a redução da importância, do valor de um fenômeno ou presença; ela não os nega absolutamente, porém intenta os desqualificar. Em geral, isso vem de algum interesse ideológico, que não podendo conformar a realidade idealizada no plano prático, tenta fazê-lo no campo do imaginário coletivo, por meio dos silêncios, tergevisações e insinuações negacionistas que chegam a ganhar ares acadêmicos. Isso foi aplicado à questão da presença negra na região amazônica.
Do ponto de vista de produção intelectual sobre Amazônia, os discursos mais antigos oscilaram entre reconhecer a presença no folclore e minorar a presença demográfica, a importância na história econômica e questionar a relevância do elemento negro na formação da população amazônida e sua cultura. Isso começou a mudar a partir dos esforços como o de Vicente Salles (1932-2013) ao trabalhar o tema na obra "O Negro no Pará", publicada em 1971, bem como de uma geração hoje já "veterana" que fez seus escritos a partir das décadas de 80 e 90 do século passado, e bem mais recentemente, com uma turma entre madura e jovem que tem acessado concomitantemente as universidades amazônicas e os movimentos sociais a partir do início do século 21.
O que sucintamente penso em despertar com esse curto texto, me aproveitando da reusabilidade e amplitude prática do hipertexto, é a contestação à comum invisibilização e minoração da presença negra na Amazônia. Na verdade, já venho fazendo isso há tempos a exemplo de texto acadêmico mais detalhado sobre os afroamazonenses e sobre o qual deixo aqui link para a apresentação Prezi.
Hoje já se pode dizer que o tema possui vários trabalhos, acadêmicos ou não, que contribuem bastante para a desconstrução da falácia "não tem negros na Amazônia". Em tempos de Google não vou me deter em citações e referências diretas, porém alguns hiperlinks podem ajudar a quem tem interesse na temática. Um deles é o maravilhoso trabalho fotográfico realizado pela Marcela Bonfim, "Amazônia Negra", que inclusive já foi matéria do colega colunista e fotógrafo aqui da Amazônia Real, Alberto César Araújo .
Por fim deixo, e novamente à quem interessar, link para livro eletrônico "Ensino de história e cultura afro-brasileira: desafios e perspectivas na Amazônia", com textos de 18 autores dedicados à temática da Amazônia Negra, entre os quais orgulhosamente me encontro.
Juarez Silva Jr. é um ativista, escrevinhador digital e apaixonado pela Amazônia, radicado em Manaus desde 1991. Tem graduação em Processamento de Dados pela Universidade de Taubaté, em São Paulo. Trabalhou e lecionou diretamente na área de tecnologia da informação por duas décadas, migrando para a área de Educação a Distância na qual é especialista pela Universidade Católica de Brasília. Também é Mestre em História pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Atua nos movimentos de negritude e é estudioso da temática e história das relações raciais e cultura afrobrasileira e africana, movimentos sociais e Direitos Humanos. Foi conselheiro estadual de Direitos Humanos e é servidor público de carreira. Escreve sobre tecnologia, história, relações raciais, atualidades, sociedade e cultura.
A imagem que ilustra este artigo foi feita na Comunidade Quilombola do Forte Príncipe da Beira, no Vale do Guaporé, em Rondônia (Foto: Marcela Bonfim/Amazônia Real)
https://amazoniareal.com.br/afroamazonidas-uma-presenca-minorada/
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