O Globo, O País, p. 13
24 de Abr de 2005
Adversários de reserva querem isolar Boa Vista
Produtores rurais, índios e políticos organizam levante
A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de homologar a demarcação da Raposa Serra do Sol em terras contínuas agradou a indigenistas, ambientalistas e missionários no Brasil e no exterior, mas não acabou com a antiga disputa pela ocupação de 1,7 milhão de hectares de lavouras, pastagens e serras da rica e paradisíaca reserva de 16.484 índios macuxis, uapixanas e tuarepangs, no norte de Roraima. Um grupo de grandes produtores de arroz, de índios ligados à Sociedade de Defesa dos Índios de Roraima (Sodiur) e de políticos está organizando um levante contra a retirada de não-índios da reserva.
Os líderes do movimento recorreram à Justiça e ao Congresso contra o modelo de demarcação estabelecido pelo governo federal. Mas, em paralelo à batalha jurídica e política, alguns setores do movimento já desencadearam o processo de sabotagem da demarcação em terras contínuas. Depois de cortar a energia elétrica de Placas, um vilarejo dentro da reserva, e de prender quatro policiais federais na sexta-feira, ameaçam bloquear as estradas de acesso a Boa Vista, como fizeram por cinco dias em 2003.
Com seis caminhões e tratores se pára qualquer rodovia afirma o fazendeiro Paulo César Quartieiro, prefeito de Pacaraima, município de 3,7 habitantes na fronteira com a Venezuela.
Sodiur diz que integração garante prosperidade
Os líderes da Sodiur, organização indígena vinculada ao governo de Roraima, também estão dispostos a boicotar a homologação da Raposa Serra do Sol em terras contínuas. A Sodiur quase não aparecia nos debates públicos anteriores à homologação, mas tem uma força nada desprezível: representa cerca de cinco mil índios macuxis, ou seja, um terço dos índios da reserva.
O presidente da Sodiur, José Novaes Macuxi, é favorável à permanência de fazendeiros, comerciantes e vilas de não-índios dentro da reserva. Para ele, a interação de índios e não-índios vai garantir prosperidade.
- Quero comida e casa boa. Hoje tenho um fusca, mas quero ir pra aldeia de Ranger - afirma Novaes, ao volante de um Fusca amarelo, fabricado em 1979, mas de olho em uma caminhonete último tipo.
O coordenador do Conselho Indigenista de Roraima (CIR), Marinaldo Justino Trajano Macuxi, desconfia do discurso integracionista dos adversários da Sodiur. Segundo ele, a entidade é contra a homologação em terras contínuas por ser ligada ao governo local.
O Globo, 24/04/2005, O País, p. 13
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