A Tribuna-Rio Branco-AC
01 de Abr de 2003
O Acre deverá proibir, dentro do menor espaço de tempo possível, a saída de madeira em tora. O anúncio foi feito no último domingo pelo governador Jorge Viana ao visitar a comunidade do seringal Porto Dias, a 200 quilômetros de Rio Branco, às margens do rio Abunã, na fronteira com a Bolívia. No local, Jorge Viana anunciou que o Estado, através do Imac (Instituto de Meio Ambiente do Acre) e o apoio do Ibama, vai estabelecer uma verdadeira cruzada contra madeireiras e serrarias que trabalham com extração ilegal de madeiras.
Porto Dias é uma comunidade de 70 famílias, das quais 13 trabalham com a experiência do manejo comunitário certificado. O manejo consiste na exploração madeireira com acompanhamento técnico e ações coletivas que permitam a preservação das espécies exploradas. A comunidade foi a segunda a receber ano passado o selo do FSC, o fundo internacional de florestas manejadas. A primeira foi a comunidade do seringal Cachoeira, em Xapuri.
O selo verde atesta que a madeira é extraída de áreas exploradas sobre a ótica da preservação ambiental. Além da madeira, os produtores podem explorar essências como o óleo de copaíba e sementes, como, por exemplo, o chamado marfim vegetal, que vem a ser a semente da jarina, uma palmeira cujo fruto é tão resistente quanto o marfim animal encontrado em dentes de elefantes.
Porto Dias já é área de manejo florestal
A transformação do seringal Porto Dias como área de manejo florestal comunitário é uma proposta do Centro de Trabalhadores da Amazônia (CTA), que está em execução desde 1996, quando Jorge Viana, após deixar a Prefeitura de Rio Branco, juntou-se aos técnicos que trabalhavam com o sonho de transformação de florestas em áreas de exploração certificada. "Estou diante de um sonho sendo transformado em realidade", disse Jorge Viana em Porto Dias. "Nós não vamos apoiar a implantação de serrarias no Estado. O que queremos é que a madeira seja explorada racionalmente e que seja industrializada aqui, para agregar valores e para que os recursos girem no Estado", acrescentou.
Depois de receber o selo do FSC, a comunidade se prepara para beneficiar a madeira explorada no local. Cumaru-cetim, cumaru-ferro, jatobá, cerejeiras e ipês, depois de abatidos, devem ser transformados em móveis e outros bens de qualidade tipo exportação. Antigos seringueiros devem receber treinamento na própria comunidade para trabalhar com madeira. "Vamos começar um treinamento com 20 alunos e daqui vamos tirar os melhores, os mais talentosos, para trabalharmos na feitura de móveis finos", disse o instrutor Nonato Montefusco.
"Se temos condições de explorar a madeira e transformá-la em objetos de arte, não há razão para continuarmos exportando a madeira em tora", disse o governador Jorge Viana. Ele anunciou que vai pleitear junto à ministra do Meio Ambiente, senadora Marina Silva (PT-AC), e ao próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que outras florestas sejam transformadas em áreas de preservação. "Esse é o nosso futuro", afirmou.
Manejo pode render até R$ 2,5 mil por ano
A exploração madeireira com base no manejo florestal comunitário pode render em média te R$ 2.500 por ano para cada família envolvida na produção. Além da madeira, o manejador pode explorar também a produção de sementes e de essências, como a copaíba.
As primeiras experiências de Porto Dias apontam para lucros ainda maiores. Seringueiros como Erenir Lourenço do Carmo, de 39 anos, que ganhava em torno de um salário mínimo por mês, agora pode tirar até mais que o dobro. "A vantagem é que o produtor envolve toda a família no trabalho", informou o coordenador do CTA (Centro de Trabalhadores da Amazônia), Marcelo Argueles.
Para explorar o potencial madeireiro de sua área, o manejador precisa, primeiro, levantar o total de árvores e das espécies prontas para o abate. Para isso, é feita uma espécie de memorial madeireiro, com as árvores contadas e com sua exata localização identificada. A partir daí, após o abate, o memorial descritivo da área é utilizado para que o equipamento de recolhimento da árvore entre na floresta causando o menor dano possível à vegetação e às árvores que permanecerão à espera da época certa do abate", informa Argueles.
Esse tipo de exploração racional não só impede a ação predatória do madeireiro que trabalha com a exploração ilegal como, aos poucos, vai criando na sociedade a idéia de que trabalhar legalmente é mais rentável. "A ilegalidade acaba saindo mais caro", avisa Argueles.
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