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Ações da Vale

O Globo, Panorama Econômico, p. 30
Autor: LEITÃO, Míriam
05 de fev de 2006

Ações da Vale

Miriam Leitão

A Vale do Rio Doce vai exportar este ano US$10 bilhões, é uma gigante para o Brasil, mas não para o mundo. Ela fornece matéria-prima para o setor siderúrgico, que passará agora por mudanças radicais se a Mittal Steel comprar a francesa Arcelor. A Vale acha que, para crescer no mercado, é indispensável ter uma estratégia globalizada e uma forte política de meio ambiente. Inicia um programa que vai plantar 200 vezes mais mudas por ano que o projeto de revitalização do Rio São Francisco.
A idéia da Vale é atacar nas duas frentes.
Na visão de Roger Agnelli, com o mercado internacional agitado como está agora, não há mais como adiar esse movimento:
- Quem não crescer agora está fora do jogo.
A Vale produz matéria-prima para a siderurgia e tem participações em siderúrgicas no Brasil. O setor passou por uma consolidação no mundo inteiro que aumentou a concentração. No Japão, hoje, depois de uma temporada de compras e fusões, existem duas siderúrgicas; na Europa, quatro. Há três anos, várias empresas norte-americanas estavam perto da concordata. O governo Bush aumentou a proteção ao setor. Houve um processo de concentração que virou a ISG, que foi comprada pela Mittal, que é de um indiano e tem sede em Roterdã, na Holanda.
A Mittal, que poucos anos atrás era uma pequena siderúrgica de Calcutá, fez uma oferta de US$22 bilhões pela Arcelor e isso atingiu os brios dos franceses. A própria Arcelor já havia sido resultado da fusão de Arbed, Aceralia e Usinor. Se a compra for efetivada, a Mittal terá 10% do mercado mundial de produtos siderúrgicos, com produção de 117 milhões de toneladas. Para se ter uma idéia, todas as siderúrgicas brasileiras juntas produzem 32 milhões de toneladas.
A Arcelor, que pode ser comprada pelo grupo indiano, tem 34% da produção brasileira porque é dona da Belgo Mineira, da CST e da Vega do Sul, além de controladora da Acesita.
A pergunta de Roger é: diante de tantos interesses, tendo presença em Ásia, Europa e Estados Unidos, que importância terá o Brasil na estratégia da Mittal?
A Vale acha que o cenário do mundo mostra que a visão brasileira sobre concentração de empresas está errada, que é inevitável que isso ocorra na siderurgia no país. Aqui, ela está às voltas com restrições do Cade e lá fora o mercado está escalando a concentração.
O mercado de mineração e siderurgia está agitado também pelo aumento da demanda. A China continua sendo o devorador de tudo o que se produz - no caso, se extrai - no mundo. Só no ano passado, o país importou 275 milhões de toneladas de minério. A demanda mundial tende a aumentar, sobretudo por causa da Índia. Os preços nunca foram tão altos.
A Vale fornece 20% do que a China importa e 50% do que a Europa importa de minério de ferro. A companhia produz 234 milhões de toneladas, das quais 50 milhões ficam no Brasil. Acha que estratégico é o crescimento do setor siderúrgico aqui no país e está executando planos de crescer na América Latina.
O Brasil tem as maiores reservas de minério de ferro; Cuba tem 35% do níquel mundial; o Chile tem as maiores reservas de cobre; a Venezuela tem petróleo, gás e carvão. A América Latina é grande também em bauxita, potássio e vários outros minerais. Roger Agnelli critica quem não vê a força que a América Latina pode ter, como é o caso dos Estados Unidos, que, no governo Bush, distanciou-se ainda mais da região.
Há outra estratégia competitiva inevitável: investimento em meio ambiente. A empresa está lançando o Vale Florestar, que prevê o plantio de árvores em 200 mil hectares de terra, principalmente no Pará e no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. A decisão não é por bom-mocismo, nem para aparecer bem na foto. É a forma de lutar contra um calcanhar-de-aquiles. A empresa acompanha atenta o noticiário externo sobre destruição ambiental brasileira e sabe que pode ter de pagar essa conta.
- Nós atuamos na Amazônia e a forma moderna de ter um diferencial competitivo é ter atitudes social e ambiental corretas. Não podemos ter esse ponto fraco para não sermos acusados de nada. A Vale é muito grande. Além disso, todo o mundo está pensando em meio ambiente, em Amazônia. Há muito dinheiro lá fora para proteção e recuperação da Floresta. Só um fundo que veio aqui falou em US$300 milhões - contou Roger Agnelli.
O projeto da Vale prevê o reflorestamento de 150 mil hectares e a revegetação de outros 50 mil. O reflorestamento é para o uso da madeira; é plantado, entre outros, o polêmico eucalipto. A vantagem é usar essa madeira podendo poupar espécies nativas. O projeto será em torno de áreas de mineração ou áreas degradadas, como os assentamentos do Incra nos anos 70.
- Isso dará ao pessoal assentado uma alternativa econômica que não seja mão-de-obra para o desmatamento - comenta o presidente da Vale.
No caso da revegetação, ela é feita com espécies nativas com o objetivo de preservação da mata. A empresa tem um banco genético com mil espécies diferentes. Serão produzidos 40 milhões de mudas por ano, ou seja, 200 vezes mais que as que serão plantadas na chamada revitalização do Rio São Francisco.
A ofensiva da empresa é para provar que não destrói. Por isso, tem apresentações ressaltando que a área onde atua, a Floresta Nacional de Carajás, está sendo uma ilha de proteção. Fora dela, o desmatamento avança.
Roger não tem dúvida de que a importância do tema vai aumentar:
- Estamos no meio de um apagão de madeira. Não há madeira no mundo. A pressão vai crescer.

O Globo, 05/02/2006, Panorama Econômico, p. 30

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