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Achado esqueleto de 800 anos no AM

OESP, Vida, p. A16
22 de Ago de 2006

Achado esqueleto de 800 anos no AM
É a 1.ª vez que se descobre uma ossada completa na região, após mais de uma década de pesquisa arqueológica.
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Liège Albuquerque

O primeiro esqueleto inteiro de um índio enterrado entre os séculos 8 e 12 d.C. foi encontrado na semana passada no cemitério indígena do sítio arqueológico Hatahara, em Iranduba, a 25 quilômetros de Manaus. Até então, só haviam sido localizados no sítio, um dos mais importantes do País, partes de esqueletos humanos.

A descoberta inédita foi feita por uma equipe de arqueólogos do projeto Amazônia Central, desenvolvido há 11 anos por cerca de 50 pesquisadores de diversas universidades brasileiras, coordenados pelo especialista Eduardo Góes, da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo os arqueólogos da equipe, o achado permitirá compreender melhor a história dos indígenas brasileiros que habitavam aquela região séculos atrás, como viviam e tratavam seus mortos.

O esqueleto foi preparado ontem à tarde para ser removido intacto hoje até um laboratório em Manaus, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). "Está em excelente estado de conservação, em posição inflexa (fetal). Até as falanges dos dedos estão preservadas", disse a mestranda em arqueologia da USP Anne Rapp Py-Daniel.

Segundo Anne, o corpo, encontrado a cerca de um metro de profundidade, tem entre 1,50 metro e 1,60 metro. Não foi possível definir o sexo, mas trata-se provavelmente de um adulto jovem.

SEPULTAMENTO PRIMÁRIO
De acordo com a doutoranda em arqueologia pela USP Helena Lima, que coordena a equipe responsável pela descoberta, em 11 anos de pesquisa na região só haviam sido encontrados "sepultamentos secundários" - o nome técnico para pedaços ou pós de ossos. Quando o corpo é localizado inteiro, em uma urna ou debaixo da terra, como foi o caso, a designação técnica utilizada pelos cientistas é "sepultamento primário".

Outros esqueletos inteiros já foram identificados no litoral sul do Brasil e no Vale do Ribeira, em São Paulo (leia ao lado). Mas essa foi a primeira descoberta do gênero no Amazonas.

Segundo Helena, o esqueleto estava sob uma fina camada de argila amarela, mas sem nenhum caixão ou urna. "A argila deve ter ajudado a preservar os ossos", avaliou a pesquisadora.

A área escavada no município está localizada em um triângulo delimitado pelos Rios Amazonas, Solimões e Ariaú, formando uma área de cerca de 800 km2.

"Temos quatro cemitérios investigados nos sítios arqueológicos Hatahara, Dona Estela, Lago do Iranduba e Laguinho", conta Helena. No que está sendo explorado há mais tempo, o Dona Estela, foram encontradas pedras lascadas de 8 mil anos atrás.

Segundo Helena, os arqueólogos acreditam que, a julgar pelas peças cerâmicas encontradas a alguns metros do corpo, o esqueleto pertence a um índio que viveu na fase denominada "Paredão" pelos cientistas, que vai do século 8 d.C. ao 12 d.C.

As outras duas fases são a "Açutuba", dos anos 200 a.C. até 300 d.C. e a "Manacapuru", cujas descobertas foram datadas dos anos 400 d.C. até 800 d.C.

Em sambaquis já foram encontrados esqueletos inteiros

Outros sepultamentos primários indígenas (esqueletos inteiros) como esse já foram encontrados em sambaquis (regiões de acúmulo de conchas de 7.500 a 800 a.C.,) no litoral sul do Brasil e no Vale do Ribeira, em São Paulo. No Amazonas é a primeira vez que isso acontece.

Jabuticabeira 2 é um dos maiores dos 60 sambaquis que existem em torno da Lagoa do Camacho, 160 quilômetros ao sul de Florianópolis, Santa Catarina. Segundo os arqueólogos, entre 20 mil e 40 mil indivíduos teriam sido enterrados em apenas 700 a 800 anos de ocupação do local.

Muito falta para se entender dos sambaquis brasileiros. Cerca de mil apenas foram catalogados e parcialmente estudados. Falta ainda encontrar mais objetos feitos pelos homens ali enterrados.

OESP, 22/08/2006, Vida, p. A16

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