CB, Brasil, p. 12
13 de Mar de 2007
Acampados contra a obra de transposição
Hércules barros
Da equipe do Correio
Cerca de 600 ativistas de movimentos sociais do Norte e do Nordeste acamparam ontem na Esplanada dos Ministérios para pressionar o governo federal a paralisar as obras de transposição do Rio São Francisco. Na bagagem, trouxeram uma série de saídas alternativas para reduzir o impacto da seca no semi-árido. Segundo os manifestantes, estes projetos custariam metade dos R$ 6,6 bilhões previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) a serem gastos nas obras de transposição nos próximos quatro anos. Apesar da mobilização, o governo só aguarda a licença ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para começar as obras.
"Vamos ficar em Brasília até conseguir chegar às autoridades e levar para casa a paralisação da transposição e a revitalização do São Francisco", anuncia o sociólogo Ruben Siqueira, representante do projeto Articulação São Francisco Vivo. Estão agendadas audiências com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, com o Ministério Público Federal, parlamentares da Câmara dos Deputados e com seis dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Siqueira acredita que o volume de críticas e projetos alternativos que os movimentos têm acumulados será suficiente para o governo pelo menos questionar a continuidade do projeto e perceber o descontentamento dos nordestinos com a obra.
De acordo com líder do movimento, saídas para a estiagem na região já foram apresentadas pela Articulação do Semi-Árido (ASA) e pela Agência Nacional de Águas (ANA). "Para os municípios com mais de 5 mil habitantes, a solução seria as 530 obras contempladas no atlas da ANA", explica Siqueira. O documento faz um retrato de 1.112 municípios, apresentando ações de manejo da água para o semi-árido. "Custaria R$ 3,5 bilhões, quase a metade do recurso para a transposição, e iria atingir 34 milhões de pessoas dos nove estados do Nordeste e do norte de Minas Gerais", enumera. A transposição pretende beneficiar quatro estados - Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.
Representando 900 entidades como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Pastoral de Pescadores (CPP), a ASA diz ter catalogado mais de 40 alternativas com tecnologia simples e econômica que descentralizam o acesso à terra e à água. Segundo Siqueira, a região tem 70 mil açudes. A intenção dos movimentos é interligar esses açudes, fazer adutoras e implantar uma gestão eficiente para a rede de distribuição da água existente. "O próprio Tribunal de Contas da União (TCU) contesta os 12 milhões de pessoas que o governo alega que seriam beneficiadas na transposição e diz que não chega a 7 milhões de nordestinos, em 2025", acrescenta Siqueira.
"A transposição é a menina dos olhos do agronegócio", ressalta o bispo dom Tomás Balduíno, conselheiro permanente da CPT. De acordo com o religioso, a maneira de convencer o governo a desistir da transposição é a força popular. "A população difusa (aproximadamente um milhão de habitantes do semi-árido) vai continuar com sede e é o clamor dessa população que vai chegar ao presidente", diz. A transposição dividiu a igreja no Nordeste. Apesar da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não ter tomado posição sobre o assunto, dom Balduíno afirma que bispos dos cinco estados nordestinos que não serão atingidos pela obra e do norte de Minas estão contra.
CB, 13/03/2007, Brasil, p. 12
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