O Globo, O País, p. 5
26 de Mai de 2008
Abin: Amazônia é avaliada em US$ 50 bilhões
Ao estimular compra de lotes na região, empresário sueco investigado pela PF estipulou preço da floresta, diz relatório
Ilimar Franco e
Jailton de Carvalho
Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informa que o empresário sueco Johan Eliasch, consultor do primeiro-ministro inglês Gordon Brown, avaliou que poderia comprar toda a Floresta Amazônica por US$ 50 bilhões. Eliasch fez a declaração para estimular empresários ingleses a comprar ou fazer doações para a aquisição de terras na Amazônia. A Polícia Federal e a Abin investigam o suposto envolvimento de Eliasch com a compra de 160 mil hectares de terra no Amazonas e em Mato Grosso, como revelou ontem a coluna Panorama Político, do GLOBO.
"Eliasch realizou, entre 2006 e 2007, reuniões com empresários e propôs que comprassem terras na Amazônia, chegando a afirmar que seriam necessários 'apenas' US$ 50 bilhões para adquirir toda a floresta", alerta relatório da Abin enviado ao Ministério da Justiça e à Polícia Federal.
0 futuro ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que assume o cargo amanhã, manifestou preocupação:
- Estou chocado e vou mandar apurar essa história assim, que tomar posse.
Conselheiro de Gordon Brown para questões de desmatamento e energia limpa, Eliasch é um dos fundadores da organização não-governamental Cool Earth, entidade que está na lista de ONGs suspeitas de irregularidades na Amazônia, produzida pelo Ministério da Justiça desde o ano passado.
A partir das doações, a ONG compraria terras na Amazônia, no Brasil e no Equador. Para a Abin, a compra sistemática de terras na região por estrangeiros pode representar, no futuro, riscos à soberania nacional.
No relatório sobre a Cool Earth, os analistas de inteligência associam as compras de terras com declarações de políticos ingleses sobre a necessidade de preservar a Amazônia acima dos interesses específicos do Brasil: "Por mais de uma vez, políticos ingleses colocaram a preservação do meio ambiente acima de questões de soberania nacional, partindo do pressuposto de que países como o Brasil não são capazes de cuidar de suas florestas".
Preservação seria desculpa para venda da Amazônia
As terras adquiridas a partir da movimentação da ONG estariam em nome da Floream e da Empresa Florestal da Amazônia, empresas sob o controle do Brasil Forestry Fund Investiment. 0 fundo foi registrado em Delaware, nos Estados Unidos, onde a legislação proíbe a divulgação de informações sobre os sócios das empresas.
Só nos municípios de Itacoatiara, Manicoré, Humaitá e Novo Aripuanã, a Floream e a Florestal da Amazônia detêm 120 mil hectares. 0 fato de algumas dessas fazendas serem vizinhas de propriedades onde, segundo o Departamento Nacional de Produção Mineral, já existem pedidos para exploração de ouro chamou a atenção da Abin.
Outra fazenda em Mato Grosso estaria dentro de terras da Força Aérea Brasileira, na Serra do Cachimbo, uma das mais importantes bases militares brasileiras na divisa entre o Pará e Mato Grosso, e dentro do Parque Estadual do Cristalino (MT).
Um pedaço de floresta por US$ 70
Site da ONG Cool Earth diz que 37.100 acres já foram comprados
Fernando Duarte
A Cool Earth foi fundada no fim de 2006 pelo parlamentar do Partido Trabalhista Frank Field, tendo como um dos principais patronos o milionário sueco Johan Eliasch, consultor do primeiro-ministro Gordon Brown para assuntos relacionados à preservação ambiental e a energias limpas.
Segundo o sita da ONG, US$ 70 garantem a um indivíduo a compra de meio acre de floresta, com direito a certificado e informações detalhadas sobre as atividades e o terreno, incluindo a possibilidade de visualização da área usando os recursos de observação por satélite do site Google Maps.
Dos três projetos da ONG, dois estão no Brasil, incluindo os polêmicos terrenos em Mato Grosso. Ainda segundo a Cool Earth, cerca de 37.100 acres de floresta foram comprados até a semana passada.
Eliasch era colaborador do Partido Conservador
Desde o final do ano passado, a ONG tem divulgado sua proposta de preservar as florestas tropicais com a compra de grande extensões de terra em regiões como a Amazônia e com o estímulo de atividades econômicas menos predatórias, um projeto em que Eliasch já teria investido cerca de US$ 16 milhões.
0 empresário, mais conhecido por ser presidente do conselho executivo da empresa de material esportivo Head (famosa por fabricar raquetes e esquis), tem uma trajetória curiosa nos círculos do poder britânico. Até setembro do ano passado, Eliasch estava ligado ao Partido Conservador, a principal força de oposição no Reino Unido. Era um dos principais doadores individuais da legenda, tendo desembolsado cerca de US$ 5 milhões em contribuições. No entanto, surpreendeu os conservadores a aceitar o convite para trabalhar com Brown.
Já Frank Field está desde 1979 no Parlamento Britânico, eleito seguidamente pelo distrito de Birkenhead. Com a vitória trabalhista nas eleições de 1997, que puseram fim a 18 anos de governo conservador, aproximou-se do então premiê Tony Blair e dele recebeu a pasta da reforma previdenciária. Recentemente, foi um dos líderes da rebelião de parlamentares que obrigou Brown a cancelar o lançamento de um novo pacote fiscal.
0 lançamento da Cool Earth foi bem divulgado pela imprensa britânica, geralmente de maneira favorável. Mas houve também espaço para críticas de que Field e Eliasch estavam promovendo um tipo de colonialismo verde. Algumas entidades ambientais lembraram que a propriedade particular de terras na Amazônia tem contribuído para aprofundar os problemas sociais das populações indígenas. Procurada pelo GLOBO, a Cool Earth não se pronunciou a respeito da investigação da PF.
O Globo, 26/05/2008, O País, p. 5
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