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Abelhas nativas no quintal

OESP, Agrícola, p. 6-7
21 de Out de 2009

Abelhas nativas no quintal
Para evitar a extinção, criadores disseminam colmeias que podem ser colocadas próximas de residências

João Carlos de Faria

Elas são minúsculas, mas têm importância fundamental para a natureza, já que 90% das plantas dependem total ou parcialmente delas para se reproduzir. Os nomes são genuinamente brasileiros: mandaçaia, jataí, uruçu, irapuá, jandaíra e muitas outras, num universo de mais de 400 espécies, chamadas de abelhas nativas ou indígenas. Há milhões de anos, elas cumprem a tarefa de manter a natureza viva, visitando árvores e arbustos, polinizando plantas e garantindo sua frutificação. Plantas como o maracujazeiro, o melão, o mamoeiro e o pepino dependem exclusivamente das nativas para frutificar.

No Norte e Nordeste, onde o clima favorece a produção, há vários produtores que sobrevivem da criação de abelhas nativas. Segundo a Embrapa Meio Norte, em Teresina (PI), a alta cotação do preço do mel das abelhas nativas no mercado, que em média varia de R$ 15 a R$ 50 o litro, aliada ao baixo investimento inicial e à facilidade em manter essas abelhas próximas às residências, tem estimulado a atividade.

No Vale do Paraíba paulista, há dois tradicionais meliponicultores - ou criadores de abelhas nativas. Ambos, porém, com objetivos preservacionistas. "Nosso foco é a preservação, pois muitas espécies já estão a caminho da extinção", diz o pesquisador e criador Daniel Martinez Castilla. Seu criatório tem apenas 20 caixas de várias espécies, na Serra do Palmital, uma reserva localizada em Caçapava. Além da criação, ele confecciona caixas para instalar as colônias. A ideia é estimular a criação das abelhas nas cidades, como forma de evitar a extinção de espécies como a mandaçaia, que ameaça sumir no Sudeste.

"A urbanização isola as colônias, que se fecham em grupos. O cruzamento dentro desses grupos leva à consanguinidade." A proposta é incentivar a criação em jardins, onde as caixas também são decorativas. Martinez alerta para que não haja tráfego de espécies de uma região para outra, pois além de a prática ser proibida, é prejudicial à meliponicultura.

Na cidade
Já o zootecnista Antonio Carlos de Faria é um exemplo de que as abelhas nativas podem ser criadas tranquilamente nas cidades. O meliponário de Faria fica na área central de Pindamonhangaba e entre as suas raridades está uma colônia da espécie "lambe-olhos", que mede pouco mais de 1,5 milímetro, sendo considerada uma das menores abelhas do mundo. Seu primeiro contato com a meliponicultura ocorreu em 1968, no Litoral Norte paulista, aonde ele chegou a montar uma associação de criadores, a Melinopa (Meliponicultores do Litoral Norte Paulista), reunindo 16 adeptos das nativas.

Faria também é o único que tem a própolis produzida pelas abelhas nativas, que, segundo análise feita no Centro de Estudos Apícolas da Universidade de Taubaté, tem propriedades terapêuticas. "A própolis da abelha jataí tem 100% de agentes bactericidas e a das mirins, como a lambe-olhos, chega a 90%, enquanto o mesmo produto originado das abelhas africanizadas tem 80%", afirma.

Caixas
O criador Daniel Martinez teve os primeiros contatos com as abelhas nativas há mais de dez anos, na Fazenda Nova Gokula, em Pindamonhangaba (SP). Hoje, dá cursos e pesquisa várias espécies, além de construir caixas para abrigar as colônias. Além de servir para preservar as espécies e evitar a extinção, a proposta de difundir as abelhas no meio urbano também é uma forma de ter um retorno financeiro para a atividade, com a venda de colônias. Martinez explica que a produção de mel no Vale do Paraíba é limitada. Uma colônia de mandaçaia, uma das espécies de maior porte no Sudeste, não produz mais que 1,5 quilo/ano. A lambe-olhos não passa de 250 mililitros/ano. Uma forma de explorar as colônias de nativas é para polinizar lavouras. "Produtores usam as abelhas para polinizar plantas em estufas", diz Martinez.

Mais informações:
Daniel Castilla, tel. (0--12) 3655-6575; Antonio Carlos de Faria, tel. (0--12) 3522-5878

Além do mel, polinização de várias culturas

A primeira colônia de abelhas lambe-olhos que veio parar nas mãos do criador Antonio Carlos de Faria foi trazida por um fazendeiro que temia que elas fossem mortas numa queimada que atingiu parte da sua propriedade. Desde então, Faria tem dedicado especial atenção a essa espécie. A explicação para o nome, segundo ele, é uma referência ao fato de que elas costumam "lamber" o suor dos olhos e de outras partes do corpo, em contato com o ser humano. "Elas foram descobertas na década de 1950 e só existiam em São Paulo", diz ele, que tem quatro colônias dessas abelhas.

No caso dessa espécie, a produção de mel é ínfima e serve muito mais para a alimentação da própria colônia, não ultrapassando 300 mililitros/ano. O manejo é extremamente difícil. "Elas são muito pequenas e frágeis." Faria afirma que, infelizmente, já tem muita gente achando que é fácil ganhar dinheiro com a criação das nativas. "Tem gente fazendo loucura, tirando colônias e vendendo a R$ 50."

No Maranhão
Entre as inúmeras iniciativas que se espalham pelo Brasil com vistas à criação de abelhas nativas como fonte de renda e desenvolvimento social, o projeto Abelhas Nativas, da Associação Maranhense para a Conservação da Natureza (Amavida), é um dos mais ativos e interessantes. O projeto, segundo o seu coordenador, prof. Murilo Sérgio Drummond, da Universidade Federal do Maranhão, abrange o nordeste do Estado e atende a 6 municípios e 19 comunidades. "São produtores da agricultura familiar", diz.

O projeto conta ainda com a parceria do Instituto Abelhas Nativas e apoio da Fundação Banco do Brasil, Suzano Papel e Celulose, Alumar e do governo federal, entre outras instituições. No Estado, são contempladas 180 famílias e as espécies tiúba, uruçu, jandaia e tubi são as mais comuns.

"A apicultura é inexistente localmente e, considerando a grande diversidade de espécies e de colônias e a relação cultural que as comunidades têm com as abelhas nativas, essa atividade tem um papel preponderante no modo de vida local", resume o coordenador.

Um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, aponta que as espécies de abelhas sem ferrão do Brasil estão desaparecendo num ritmo mais intenso do que as matas. O problema é que as florestas dependem das abelhas para continuar a existir. A exploração de madeira, segundo o estudo, é uma das maiores inimigas das abelhas brasileiras, pois as madeireiras buscam na floresta justamente as árvores maiores, em cujas cavidades vivem os enxames.

Mais informações:
Amavida, tel. (0--98) 3246-4485

OESP, 21/10/2009, Agrícola, p. 6-7

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