Valor Econômico, Internacional, p. A9
Autor: CHIARETTI, Daniela
20 de Jan de 2015
2015 é crucial para o clima, diz ONU
Por Daniela Chiaretti
"Esta é uma incrível oportunidade. 2015 é o ano de fazermos História", disse Christiana Figueres, a mais alta autoridade das Nações Unidas na negociação do acordo global sobre mudança climática, em Abu Dhabi, a uma plateia de mais de mil membros de governos, ONGs e empresários. Ela não se referia, porém, ao tratado que representantes de 194 países devem assinar em dezembro, ao final da conferência da ONU, em Paris, mas sobre o que crê ser a possibilidade real de o mundo ser neutro em carbono em 2050, como recomendam os cientistas: a transformação energética de todas as economias.
O caminho de o mundo absorver os gases-estufa que emitir (e ser, desta forma, neutro em carbono), disse Christiana, está sendo aberto pelas energias renováveis. Um estudo recém-lançado de técnicos da Irena, a agência internacional que analisa e promove as renováveis no mundo, indica que solar, eólica, hidrelétrica e biomassa têm hoje preço competitivo em relação aos combustíveis fósseis. "Os preços das renováveis estão caindo e os investimentos, aumentando", pontuou. "Essa é a forma de se permitir o acesso à eletricidade a 1,2 bilhão de pessoas que ainda não têm energia em 2015, o que é inaceitável", continuou, durante discurso na sede da Irena, na capital dos Emirados Árabes Unidos.
"O maior desenvolvimento dessas tecnologias e as políticas de mudança do clima se fortalecem mutuamente e estão criando um círculo virtuoso", disse. "Se não fizermos essa mudança das nossas economias agora, e pela energia, então quando a faremos? Estamos em um momento de virada."
Christiana é positiva em relação aos resultados do acordo de Paris, mas sua perspectiva é realista. Acredita que o fato de a base da negociação ter espírito voluntário - cada país se compromete com o esforço que considera mais adequado aos interesses nacionais - tem como vantagem conseguir compromissos de todos diante do desafio global. "A desvantagem é que poderia haver a tendência do menor denominador comum, com todos fazendo o menos possível", reconheceu, em entrevista ao Valor. "A vantagem é que há uma chance bem maior de termos todos a bordo e nesse caminho. A transformação energética que já estamos experimentando não pode deixar ninguém para trás."
É por esse motivo que ela reage aos críticos do sistema de negociação da ONU (onde as decisões têm que ser tomadas por consenso de mais de 190 países), que defendem que o foro para resolver a questão climática deve ser o G-20, a reunião dos 20 países mais industrializados do mundo. O G-20 é responsável por 80% das emissões de gases-estufa globais, lembra. "De um ponto de vista matemático, claro, é sempre mais fácil se conseguir um acordo entre 20 do que entre 194", diz. "Mas do ponto de vista político, ético e moral, esse argumento é completamente inaceitável. Não é porque você é um país pequeno que não será parte da solução. As Nações Unidas nunca irão tolerar a possibilidade de as economias mais ricas se moverem para as tecnologias do futuro, e o resto do mundo ficar para trás."
O que se espera das grandes economias, cobra, é que entreguem no primeiro trimestre ou quadrimestre, ao secretariado da convenção do clima da ONU, seus compromissos nacionais para enfrentar a questão climática. O secretariado terá até 1o de novembro para fechar um relatório-síntese das metas dos países e mostrar quanto isso significa, em redução de emissões. Em fevereiro, os negociadores se encontram em Genebra e discutem o rascunho do acordo, herdado da conferência de Lima, de dezembro de 2014. Haverá duas outras reuniões antes de Paris.
O acordo de Paris, acredita, não evitará que o aquecimento ultrapasse 2 oC, mas levará o mundo à direção certa. No domingo, encontro do presidente dos EUA, Barack Obama, com o premiê Narendra Modi, na Índia, pode ser outro ponto positivo. "Não sabemos o que resultará dessa conversa, mas a mudança do clima será parte importante do diálogo", diz. Em novembro, Modi anunciou investimentos de US$ 100 bilhões para produzir 100 GW de energia solar em 2022.
A jornalista viajou a convite da Irena
Valor Econômico, 20/01/2015, Internacional, p. A9
http://www.valor.com.br/internacional/3867654/2015-e-crucial-para-o-cli…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.