OESP, Metrópole, p. A17
18 de Mai de 2018
1/3 das áreas preservadas vive ameaça
Intensa atividade humana - como abertura de estradas e pastos - pressiona biodiversidade em áreas de conservação no planeta, diz estudo
Novo estudo internacional revelou que um terço das áreas protegidas no mundo está sob intensa pressão humana, envolvendo a construção de estradas, a abertura de pastos e o avanço da urbanização. O total da área ameaçada no planeta chega a quase 6 milhões de quilômetros quadrados, o que equivale a 70% do território do Brasil.
Publicado ontem na revista Science, o estudo foi liderado por cientistas da Universidade de Queensland (Austrália), da Universidade do Norte de British Columbia (Canadá) e da ONG americana Sociedade para a Conservação da Vida Selvagem (WCS, na sigla em inglês).
Segundo os autores, em alguns casos a escala dos danos é dramática, e os maiores impactos foram verificados nas áreas de conservação de regiões densamente povoadas da Ásia, da Europa e da África.
"Encontramos grandes infraestruturas rodoviárias, estradas, agricultura industrial e até mesmo cidades inteiras dentro dos limites de áreas que deveriam ter sido deixadas intactas para a conservação da natureza. Mais de 90% das áreas protegidas - incluindo parques nacionais e reservas naturais - apresentaram sinais de atividades humanas nocivas", disse Kendall Jones, um dos autores.
Segundo James Watson, da Universidade de Queensland e diretor da WCS, o estudo mostra que os países superestimaram o espaço disponível para a natureza dentro das áreas protegidas. "Os governos declaram que esses lugares são protegidos pelo bem da natureza, mas na realidade não são. Essa é uma das principais razões para que a biodiversidade ainda esteja passando por declínio catastrófico, apesar de cada vez mais áreas protegidas terem sido criadas nas últimas décadas."
O trabalho teve o objetivo de colocar a realidade em contraste com os compromissos assumidos pelos países na Convenção da Diversidade Biológica (CBD, na sigla em inglês) para deter a perda de biodiversidade por meio de áreas protegidas. Desde 1992, quando foi estabelecida a CBD, a extensão global de áreas protegidas dobrou de tamanho: mais de 202 mil unidades cobrem aproximadamente 15% da área do planeta. A CBD tem ainda a meta de elevar essa cobertura para 17% até 2020.
Para o estudo, os cientistas utilizaram os dados do Human Footprint, mapa global das pressões humanas sobre o meio ambiente, e analisaram as atividades humanas em quase 50 mil áreas protegidas do planeta. A análise revelou que 32,8% das áreas protegidas estão altamente degradadas.
Segundo o estudo, o Brasil tem 2.468.478 km² de áreas protegidas. Desse total, 3,9% estão sob intensa pressão e um quarto vive sob baixa pressão de atividades humanas. Países como Polônia e Alemanha têm taxas muito mais altas de pressão por atividade humana - 38,9% e 36,4%, respectivamente.
Alerta. Dentre as áreas protegidas criadas antes da ratificação da CBD no mundo, 55% tiveram aumento da pressão humana. Para os autores, os objetivos da CBD serão severamente comprometidos caso a pressão humana continue a se alastrar no interior dessas áreas. "Se permitirmos que nossa rede de áreas protegidas seja degradada, não há a menor dúvida de que as perdas de biodiversidade serão exacerbadas", afirmou Jones, da Universidade de Queensland.
O estudo ainda mostrou que as áreas protegidas maiores, com restrições mais rigorosas, sofrem pressão muito menor que áreas protegidas menores e permitem uma gama mais ampla de atividade humana. Segundo Watson, as áreas de proteção que têm financiamento consistente, são bem gerenciadas e bem localizadas e extremamente eficazes para evitar a perda de biodiversidade e para reverter a ameaça de extinção de algumas espécies.
OESP, 18/05/2018, Metrópole, p. A17.
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