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Wayuri, a voz do Rio Negro

A Crítica, Cidades, p. C3
08 de jun de 2018

Wayuri, a voz do Rio Negro
Comunicadores indígenas produzem boletim de rádio que chega de variadas formas às comunidades mais distantes

A Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, composta por 18 integrantes de oito etnias (Baré, Baniwa, Desana, Tariano, Tuyuka, Tukano, Yanomami e Wanano), realizou o seu primeiro encontro para debater os desafios dessa pioneira rede de comunicação indígena, que formou-se em 2017 com o objetivo de reportar informação nas terras demarcadas, produzindo e distribuindo suas próprias notícias feitas pelos correspondentes, locutores e editores indígenas.
O encontro foi realizado entre 7 e 11 de maio passado na maloca Casa dos Saberes, da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em São Gabriel da Cachoeira. Reflexões sobre as dificuldades, desafios e pontos positivos do trabalho realizado pela rede até o momento foram compartilhadas pelo grupo, que produz mensalmente o boletim de áudio Wayuri, distribuído via Internet (WhatsApp e Soundcloud), radiofonia, rádio FM e compartilhamento via Bluetooth e ShareIT.
"Um ponto positivo da nossa rede até o momento é ver que ela está contribuindo para o aumento do interesse pela política e também fico feliz de saber que o boletim está sendo bem recebido pelas comunidades", comenta Claudia Ferraz, do povo Wanano, locutora e produtora do boletim Wayuri. Uma das mais experientes do grupo, Claudia trabalhou seis anos na rádio municipal de São Gabriel e integra a Renajoc (Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadores).
Entre as dificuldades e desafios, os jovens mencionaram a falta de infraestrutura, apoio financeiro para realizar o trabalho como comunicador e de equipamentos próprios para desempenhar as tarefas. Alguns comunicadores utilizam celulares emprestados de parentes para conseguir gravar e enviar suas notícias. "Precisamos fazer um trabalho para ficarmos mais conhecidos na comunidade como comunicadores e sermos mais valorizados", diz Laura Almeida, Tariana, comunicadora de Assunção do Içana.
O encontro contou também com a participação da representante da Unicef, Joana Fontoura. "A rede conseguiu realizar a circulação dos áudios dos boletins combinados na primeira oficina de formação", afirmou Joana, que viajou especialmente a São Gabriel para conhecer o trabalho dos comunicadores indígenas.
Os comunicadores tiveram também um encontro com o locutor Gilliard Henrique, da rádio municipal AM de São Gabriel da Cachoeira, para conhecer algumas técnicas vocais e estilos de locução. Gilliard é uma das vozes mais famosas da região e compartilhou sua experiência com os comunicadores indígenas em formação.
O grupo de teatro Sociedade da Alegria também promoveu uma oficina de improviso e técnicas de animação e mobilização com o grupo. "A gente precisa aprender mais a se soltar e saber como informar de um jeito que as pessoas entendam e prestem atenção", disse Marcivaldo Tuyuka, correspondente de Taracuá, no Baixo Uaupés (TI Alto Rio Negro), que produz notícias em Tukano e Português.

Grandes distancias e sem meios
Em uma área de 11,5 milhões de hectares, maior do que seis estados brasileiros, a carência de infraestrutura de comunicação, como telefonia celular, telefones públicos, radiofonia e Internet, e o maior entrave ao trabalho dos comunicadores indígenas no Rio Negro.
O levantamento dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das sete Terras Indígenas (TIs) do Médio e Alto Rio Negro, mostra que apenas 24,5% das comunidades possuem radiofonia na região e telefones públicos (orelhões) atendem somente a 8,5% das aldeias.
Essa carência prejudica o desenvolvimento sustentável, a geração de renda, assim como áreas prioritárias para o bem viver, como saúde e educação.

Nova edição de oficina
A próxima atividade da rede será em outubro, quando será realizada a 2ª Oficina de Formação dos Comunicadores. Durante o encontro, os integrantes também fizeram sugestões e comentários sobre o andamento do trabalho e o que deve ser mais focado na segunda formação.
"A construção coletiva da Rede de Comunicadores e fundamental para que o trabalho seja autentico, feito a partir da forma de se comunicar dos povos indígenas do Rio Negro, respeitando a cultura dos povos, as línguas, o ambiente e os desafios logísticos da região", afirma a jornalista do Programa Rio Negro do ISA (Instituto Socioambiental), que coordena as atividades da Rede de Comunicadores Juliana Radler.

Rede é apoiada pela União Europeia
Rede é apoiada pela União Europeia no âmbito do projeto de fortalecimento da autonomia das organizações indígenas. Os integrantes da Rede de Comunicadores são em sua maioria jovens de até 29 anos e dos 18 participantes, oito são mulheres das etnias Baré, Wanano, Tariano, Desano e Yanomami. Os departamentos de Comunicação, Jovens e de Mulheres da Foirn integram a rede e são os principais responsáveis pela condução dos trabalhos.

A Crítica, 08/06/2018, Cidades, p. C3

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