Imprensa n. 241 dez. 2008, p. 64-70
31 de Dez de 2008
Vozes da floresta
O Fórum Latino-Americano Amazônia, Sustentabilidade & Imprensa convidou a mídia, pesquisadores e autoridades para debaterem as pautas sobre preservação ambiental
Da Redação
Uma área com mais de 6,5 milhões de quilômetros quadrados e 17 territórios que, juntos, possuem um dos maiores PIBs do continente latino-americano. Lendo dessa forma, pode-se pensar em um país. Mas a Amazônia é muito mais que isso. Fonte de riquezas naturais incomensuráveis, a região vive há décadas sobre uma delicada balança que tenta equilibrar valores contrários como medo e sedução, ganância e preservação. A exploração inconseqüente e ,a falta de notícias coesas sobre a região deixam o Brasil e o mundo em alerta para o perigo que representa ultrapassar os limites que o ecossistema amazônico pode suportar. Então, como fornecer, afinal, informação consistente sobre as forças em jogo na vastidão desse território?
Debater essa questão foi um dos principais motes do Fórum Latino-Americano Amazônia, Sustentabilidade & Imprensa, realizado entre os dias 3 e 5 de novembro em Manaus (AM) pela IMPRENSA editorial, com apoio de mídia da Rede Amazônica e patrocínio da Petrobras, Governo do Estado Amazonas e Natura. Autoridades, pesquisadores e jornalistas refletiram e trocaram idéias sobre temas fundamentais, relacionados ao papel da imprensa, da ciência, da economia e, principalmente, da sociedade.
O foco social - e logo, ecológico - esteve no painel de abertura, chamado "A mata e suas vozes: conversas transamazônicas". A mesa foi composta pela radialista e apresentadora do programa "Natureza Viva" da EBC, Mara Régia Di Perna; pelo editor da National Geographic brasileira, Mathew Shirts; e pelo ator e apresentador do programa "Um Mundo para Chamar de Seu" da GNT, Daniel Dottori. O objetivo principal foi debater a importância de mesclar as diferentes vozes do universo amazônico, aquele que está não apenas no dia-a-dia do índio e das comunidades ribeirinhas, mas vai além dos limites da floresta, presente também no cotidiano dos cidadãos das grandes cidades do Sudeste brasileiro e na consciência dos habitantes do Primeiro Mundo.
De Mara Régia pode-se, por exemplo, ouvir a voz de personagens como Dona Raimunda dos Cocos, uma entre tantas mulheres que por meio do programa da radialista aprenderam a se orgulhar das raízes de sua comunidade - fossem físicas, fossem culturais. "Temos consciência de que fazemos parte da natureza e somos comprometidas com a preservação dos recursos naturais% disse Dona Raimunda, num áudio trazido pela radialista. Falante, Mara Régia mostrou parte de seu trabalho, que leva informação valiosa a comunidades de difícil acesso, debatendo assuntos como sexualidade, saúde, ecologia, cultura e comunicação. Carioca, admitiu que também aprendeu sobre o vínculo telúrico desses povos com a floresta. "Dá até uma invejinha. Eu gostaria de ter uma ligação dessa forma com a terra", contou Mara.
Com um outro viés, Mathew Shirts disse que, ao buscar a pauta na natureza, muitas vezes o melhor resultado informativo está na fotografia e que a missão da revista, atualmente, é inspirar as pessoas por meio de imagens e incentivá-las a cuidar do planeta. "Infelizmente as pautas ambientais nem sempre são as mais bem sucedidas em termos de venda da revista", reconheceu o jornalista, sem diminuir, no entanto, iniciativas como o projeto Planeta Sustentável da Editora Abril, do qual participa a National Geographic. Para ele, discussões sobre sustentabilidade são de extrema importância, uma vez que o tema é bem compreendido por empresas, mas não tanto por leitores comuns.
Daniel Dottorí sabe bem sobre o que se refere Shirts. O programa, que apresenta com Rosana Jatobá, tenta aproximar o cidadão comum de um tema muitas vezes espinhoso, relacionado à mudança de hábitos antigos, mas que interferem - muitas vezes diretamente - no ecossistema amazônico. Apesar de não ter se formado no cerne da prática jornalística, Dottori consegue exercer muito bem o papel de comunicador. "Atores e jornalistas, mesmo não se conhecendo, andam juntos no trabalho e na disseminação das informações de formas diferentes", resumiu.
Pesquisa exclusiva
Sob encomenda da IMPRENSA Editorial, o instituto Mídia B realizou uma pesquisa de análise quantitativa e qualitativa dos temas relacionados à Amazônia abordados em seis grandes agências de notícias: EFE, Reuters, BBC, AFP, G1 e Agência Estado. Com a presença de um dos coordenadores da pesquisa, Fábio Santos, e do editor-geral de jornalismo da Rede Amazônica, Luis Augusto Batista, os resultados foram apresentados aos participantes do Fórum Latino-Americano Amazônia, Sustentabilidade & Imprensa.
O levantamento analisou o conteúdo abordado pelas agências entre maio e julho de 2008, período escolhido por ter sido palco de eventos importantes, como a demissão de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente, substituída por Carlos Minc, e a criação do Plano Amazônia Sustentável (PAS). "É notável como esses acontecimentos amplificam o debate sobre devastação e soberania", afirmou Santos no painel que apresentou a pesquisa. Os gráficos mostram que de 29 de maio a 4 de junho, período em que estourou o caso Gethal, envolvendo o milionário sueco Johan Eliasch, foi a fase de auge de notícias sobre temas da região,(veja os gráficos no decorrer desta matéria).
Batista destacou, entre os temas mais presentes no noticiário nacional deste ano, a Raposa Serra do Sol em Roraima, a demarcação dessas terras e a questão do território indígena, além da propriedade comprada por Eliasch, que abriu as portas para a discussão de uma legislação mais incisiva e atuante para as terras da região. Notícias sobre os quatro estudantes que se perderam na floresta também ecoaram país afora. "Muitas vezes, há uma visão distorcida da mídia sobre os temas relacionados à floresta amazônica. No estado do Amazonas há pouquíssimo desmatamento, isso acontece mais na região do Mato Grosso, Pará e Rondônia por conta da facilidade do acesso às rodovias", afirmou.
Além dos problemas, as soluções
Outro painel recebeu o título de "Política, economia e planejamento sustentável: os acordos e os conflitos". Entre os presentes estava a Secretária do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado do Amazonas, Nadia Ferreira, que compartilhou políticas estaduais e dados sobre grupos étnicos e diversidade. "Uma das ações que nós desenvolvemos é o Programa Zona Franca Verde, que ajuda a promover o desenvolvimento sustentável do estado a partir de sistemas de produção florestal, pesqueira e agropecuária ecologicamente saudáveis, socialmente justos e economicamente viáveis, amparados por instituições e políticas sustentáveis", contou.
Como mediadora, o painel contou com a diretora do Centro de Ciências do Ambiente e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Maria Anete Leite Rubim. A professora afirmou que, muitas vezes, a informação científica que é cultivada por meio da pesquisa passa por caminhos tortuosos que não correspondem ao previamente esperado. Citou, como exemplo, o fato de ter desenvolvido, na década de 1990, uma pesquisa sobre o arroz selvagem nos rios do estado do Amazonas junto à Universidade de São Paulo (USP) e a um instituto de genética japonês. "Em determinada matéria para um jornal local expliquei que na época que a água sobe a planta pode crescer diversos centímetros para não se afogar e continuar fazendo fotossíntese. A partir dessa matéria a repercussão foi enorme, mas a manchete da principal cobertura nacional foi 'Descoberto o superarroz da Amazônia que cresce sete centímetros por dia'", ri.
Esteve presente também o gerente de relações governamentais da Natura, Leandro Machado, e o diretor de redação da Amanhã, Eugênio Esber, que apresentou aos presentes um teste publicado pela revista com cem questões para que as empresas fizessem um autodiagnóstico sobre sua prática sustentável no dia-a-dia. "Em primeiro lugar é muito importante que nós, a imprensa, nos capacitemos mais sobre o contexto em que apresentaremos as informações aos nossos leitores", diz. As discussões questionaram o papel do jornalista como mediador- e deixaram claro o desafio de levar aos leitores uma informação mais contextualizada sobre a Amazônia e a preservação ambiental. "Esse é o papel do jornalista, precisamos parar de produzir matérias sem inteligência", comentou Esber.
Em seguida, a cobertura da Amazônia nos países latino-americanos foi debatida pela presidente da Associação dos Correspondentes Estrangeiros, a peruana Verônica Goyzueta; o correspondente da EFE da Colômbia para o Brasil, Waldheim Montoya; a jornalista do El Clarín na Argentina, Eleonora Gosman; e o jornalista da revista colombiana Semana, Santiago Nicólas Martinez Rivera, com mediação do diretor geral da Fundação Amazônia Sustentável, Antônio Ximenes. Com o título "Um panorama da Amazônia latino-americana: convergências e divergências", a mesa foi das mais polêmicas do Fórum.
Em vez de sustentabilidade, logo se percebeu que a maior preocupação das pautas latino-americanas sobre a região é o tráfico. A falta de atenção da mídia brasileira com o problema foi questionada. Segundo Eleonora e Montoya, não são apuradas denúncias de cultivo de coca dentro da Amazônia brasileira. Ximenes acrescentou que o tráfico inclusive é, apesar de seus problemas, uma fonte de renda importante para as populações ribeirinhas, "alimentando a modesta economia local por meio dos barqueiros, por exemplo".
Verónica apurou, fundamentada em um clipping do Itamaraty, que durante o outubro último os principais jornais do Brasil veicularam cinco notícias sobre a Amazônia e os do exterior, 32.
Aqui, a pauta concentrou-se sobre desmatamento; lá, variou sobre esse e outros assuntos, como política e soberania nacional. "Um dado curioso é que quase todos os jornais só falam em Amazônia brasileira, quase nunca de outros países da América Latina", ressaltou Verónica - um alerta para o provável distanciamento de nossos vizinhos da pauta ecológica sobre a própria região.
O último dia de fórum trouxe novamente a discussão para o Brasil, relacionando a Amazônia aos interesses nacionais. O tom da mesa foi bastante realista, criticando a pouca relevância que a mídia tem dado à pauta amazônica. "Tem que chamar a atenção para a Amazônia, pois ela é tratada como se fosse à parte do resto do Brasil. Deve ser de um jeito novo, porque, como tem sido feito, não funciona", protestou Hiram Firmino, editor da revista JB Ecológico, vinculada ao Jornal do Brasil. Adriana Ramos, jornalista do Instituto Sócio-Ambiental (ISA), reiterou o tom inflamado do discurso de Firmino: "É um momento de crise. Crise climática, crise financeira, crise da violência nas grandes cidades, crise como guerras e conflitos... Essa é a hora de criar novos paradigmas." Para Adriana, o mundo tal qual o conhecemos hoje se organizou anteriormente ao problema do aquecimento global, quando a finitude dos recursos naturais não era uma questão. Mas a adaptação setorial que a sociedade, empresas e jornais têm feito para essa realidade não tem sido suficiente. "Não é possível a gente ficar lendo nos jornais do Brasil as matérias sobre a descoberta do pré-sal e ninguém mencionar que estamos numa fase mundial de fugir da base de carbono, de combustíveis fósseis", reforçou Adriana. "O maior problema é o desconhecimento do brasileiro e do profissional de imprensa sobre a nossa região", concluiu Ercilene de Oliveira, gerente de jornalismo da Rede Amazônica.
No encerramento, o professor Antônio Ocimar Manzi, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia Inpa), expôs certa frustração do meio científico com o jornalístico, que parece não se preocupar em conhecer a fundo os problemas relacionados ao ambiente e suas especificidades técnicas. "O jornalismo tem dificuldade de lidar com certos termos... Muitas vezes, para um repórter, efeito estufa e aquecimento global é igual, mas são coisas diferentes", exemplificou.
Mais do que soluções prontas e fechadas, o Fórum Latino-Americano Amazônia, Sustentabilidade & Imprensa levantou questões importantes que ainda procuram por boas respostas. Ficou evidente que a mídia, de forma geral, pode prestar um serviço melhor à sociedade no que diz respeito à informação sobre a Amazônia. Ainda assim, alguns trabalhos isolados conseguem, com muito sacrifício e pouca repercussão, exercer dignamente um jornalismo responsável, ecológico e, principalmente, sustentável. Pois se a mídia ainda discute como noticiar o problema dos outros, ela ainda deve prestar contas sobre sua própria - e distante - sustentabilidade.
Jornalismo verde
Por Júlia Baptista
Autor de mais de 20 livros sobre ambiente, o jornalista e professor estadunidense Michael Frome tem muito a ensinar sobre jornalismo ambiental, especialidade ainda mal-incorporada pelas redações brasileiras. No último dia 4 de novembro, a editora da UFPR (Universidade Federal do Paraná) lançou no Brasil "GREEN INK: uma introdução ao jornalismo ambiental", escrito em 1996. A redação da revista Imprensa aproveitou para conversar com o autor sobre seu livro e alguns dos temas que pautaram o Fórum Latino-Americano Amazônia - Sustentabilidade e Imprensa:
Imprensa - Como o jornalismo ambiental pode influenciar o poder público e a sociedade civil a tomar as melhores decisões para o ambiente?
Michael Frome - O jornalismo ambiental pode influenciar o processo explorando profundamente todos os aspectos de qualquer projeto e revelando conseqüências a curto e longo prazos, não apenas para os interesses privados envolvidos, mas para toda a comunidade.
Quais são as peculiaridades desse segmento?
O jornalismo ambiental requer o seguinte: comprometimento com um ambiente saudável e natural; habilidade para pesquisar profundamente e entrevistar com paciência e persistência; amor pela escrita e desejo de escrever bem.
Como começou sua carreira?
Eu comecei há muitos anos, como repórter de jornal. Isso foi muito importante para desenvolver precisão. Então, me tornei um escritor viajante, era muito agradável, mas eu me vi mais preocupado com a proteção das áreas naturais do que em promovê-las. Eu me especializei em escrever sobre parques, florestas, vida selvagem e políticas de conservação. Tornei-me editor de conservação da revista Field & Stream; escrevia a coluna semanal "Trilhas do Meio Ambiente" no jornal Los Angeles Times e escrevi 20 livors, incluindo "Green Ink".
Na sua opinião, o jornalismo ambiental melhorou nos últimos dez anos?
Não muito, eu lamento dizer. Nós precisamos de mais escritores capacitados, com cuidado e comprometimento, e editores dispostos a ajudá-los.
De acordo com uma pesquisa realizada recentemente pela mídia B e revista Imprensa, a devastação é o principal assunto publicado por agencias de noticias nacionais e internacionais. Como os jornais dos EUA tratam desse assunto?
A proteção das incríveis florestas sul-americanas está entre os principais desafios da sociedade moderna. A maioria da mídia norte-americana está se esquecendo disso, pelo menos até agora. Eu apenas posso esperar que eles dêem mais atenção à devastação incluindo nosso país.
O cidadão médio estadunidense já percebeu que os recursos naturais são limitados?
Eu diria que mais americanos estão aprendendo que os recursos naturais são limitados que devemos reduzir o consumo e eliminar o lixo para que possa ser mantida a qualidade de vida. Nós temos um longo caminho para fazer de nosso país um modelo. Eu espero que o governo de Obama mostre o caminho.
Imprensa n. 241 dez. 2008, p. 64-70
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