OESP, Metrópole, p. A22
Autor: KELMAN, Jerson
21 de Fev de 2016
'Volume morto do Cantareira deve ser incluído no sistema'
Reserva de água usada na crise deve ser adotada em definitivo como estoque disponível para a região metropolitana
Fabio Leite
Usadas de forma emergencial por 19 meses para evitar o colapso no abastecimento de água da região metropolitana durante a crise hídrica, as duas cotas do volume morto do Sistema Cantareira devem ser incorporadas em definitivo ao manancial, ampliando em quase 30% a capacidade operacional dos reservatórios. É o que defende o presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Jerson Kelman, em entrevista exclusiva ao Estado.
Polêmica, a medida pode ajudar a empresa a manter os limites pré-crise de retirada de água do sistema na renovação da outorga do Cantareira, adiada para maio de 2017, e até retardar ou evitar medidas de restrição na captação feita nas represas impostas pelos órgãos reguladores no caso de uma nova seca. "Não há nenhuma razão para você considerar o tamanho do seu reservatório menor do que na prática você pode usar", afirma Kelman.
Embora o Sistema Cantareira ainda tenha menos água do que no início da crise hídrica, em janeiro de 2014, por que a Sabesp diz que a situação é melhor hoje?
Ao longo de 2014 houve um aumento de estoque disponível pelo bombeamento da água do volume morto. Então, temos de comparar volume disponível no início da crise com o atual. Hoje, são 895 bilhões de litros nos seis sistemas. Há dois anos, eram 619 bilhões. Portanto, estamos em melhor situação, parcialmente, porque contabilizamos como volume disponível aquilo que é bombeável da reserva técnica.
Isso só faz sentido se o volume morto for incorporado definitivamente. Caso contrário, o sistema vai perder no futuro essa capacidade.
A crise demonstrou que não é desejável, mas é possível utilizar o volume morto. Portanto, em termos de disponibilidade de armazenamento, há que considerá-lo como parte do estoque. Não há nenhuma diferença a não ser o custo da água. Uma precisa de bombeamento e outra, não. O fato de termos feito obra para bombear o volume morto incorpora estoque às reservas. Ele não deve ser desprezado.
Mas isso não precisa de aval dos órgãos reguladores e ser discutido na renovação da outorga do Cantareira, adiada para maio de 2017?
A boa técnica diz que no pedido da outorga tem de se considerar todo volume utilizável, e um nível de confiabilidade a ser decidido pelos órgãos outorgantes. Ao meu juízo, devem levar em consideração todo volume disponível. Não estou dizendo que é desejável você ficar entrando no volume morto. Mas que é possível.
Em janeiro, o senhor fez proposta de operação na qual projetava o nível do Cantareira em 5%, sem considerar a reserva. A Agência Nacional de Águas (ANA) vetou e estipulou 20%, indicando que não inclui a reserva.
Não fiz isso porque gosto de correr risco. Você tem de fazer uma escolha entre restrições operativas hoje ou mais na frente. Não há certo ou errado nisso. O que há é bom senso. Na nota da ANA não fica claro se ela considera ou não o volume morto como parte do volume disponível. Agora eu estou afirmando que não há dúvida nenhuma de que volume morto é parte do volume disponível.
Se a situação é melhor, por que manter a multa para quem não economiza água, que foi descartada em 2014? Não virou uma medida com fim arrecadatório?
O bônus também foi prorrogado. A empresa continua tendo redução de receita pelo bônus muito maior do que a arrecadação que vem pela tarifa de contingência. Ela foi prorrogada porque estamos em condições um pouco melhores, mas não absolutamente normais. Temos de ter um pouco de prudência. Quando estivermos em condições normais, nossa posição será para eliminar tanto o ônus quanto o bônus.
Quando isso deve ocorrer?
Não sei. Quando estivermos em condições normais.
A crise ainda não acabou?
A crise amainou. Não há perspectivas de que o ano de 2016 repita as condições hidrológicas de 2014, mas a prudência indica que devemos ser cautelosos. Evito definir o que é condição normal para não suscitar uma contagem regressiva.
Mas, se a situação em 2014 era pior, não foi imprudente ter desistido da sobretaxa?
A hidrologia de 2014 nunca tinha sido observada antes. Qualquer hidrólogo tem posição diferente depois que observa um fenômeno de baixíssima probabilidade, de 0,4%. Não é razoável cobrar de quem não tinha passado por essa experiência uma percepção do que é essa seca. Em 2016, é diferente. Sabemos o que aconteceu. Aí, sim, seria imprudente desprezar que qualquer coisa parecida possa acontecer.
Há prazo para o fim do racionamento pela redução da pressão?
Não. A redução da pressão hoje ocorre de noite, até as cinco da manhã, o que é normal, para não desperdiçar água.
A Sabesp está retirando do Cantareira quase 5 mil l/s a menos do que tem direito. É a cautela ou a população não voltou a consumir água como antes?
As duas coisas. A população incorporou hábitos de economia, o que é positivo. Outra coisa é que tivemos dias mais frios em janeiro. Vamos ver qual é a real situação a partir de agora, que o País volta à normalidade depois do carnaval.
A queda no volume vendido e o aumento do custo de energia foram usados pela Sabesp para conseguir um reajuste extra de 15,2% na conta em 2015. É possível ter redução da tarifa de água quando a situação se normalizar e a energia baratear?
A Arsesp (Agência Reguladora de Saneamento e Energia de São Paulo) vai levar em consideração todos os efeitos, incluindo a questão energética, durante o cálculo da revisão tarifária.
Uma solução anunciada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) durante a crise foi a construção de duas estações produtoras de água de reúso (Epar). A Sabesp desistiu de fazê-las?
Não estamos planejando fazer no nosso horizonte. Temos a maior instalação de água de reúso da América Latina, o Acquapolo. Estudamos todas alternativas, mas entendemos que havia outras mais atraentes, como pegar água do Rio Itapanhaú. Nova York é um exemplo porque conseguiu captar água em área preservada. São Paulo também.
OESP, 21/02/2016, Metrópole, p. A22
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