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A volta do ver-julgar-agir

OESP, Aliás, p. J3
Autor: SERBIN, Kenneth P.
25 de Fev de 2007

A volta do ver-julgar-agir
Texto da Campanha da Fraternidade surpreende ao recuperar o ativismo do catolicismo libertário

Kenneth P. Serbin

A escolha pela Igreja Católica da região amazônica como foco da Campanha da Fraternidade deste ano vem reafirmar a posição da instituição como voz moral do Brasil e o seu relacionamento destemido, não obstante complexo, com o Estado brasileiro. A igreja procura colaborar com o Estado, mas, quando ele é negligente ou pernicioso, ela procura aliviar os males resultantes disso.

A instituição chegou a esse ponto passando por uma série de transformações. De 1930 a 1964, Igreja e Estado firmaram uma concordata moral. Enquanto os Estados europeus estabeleceram concordatas formais, ou tratados, com a Igreja, no Brasil o acordo foi informal, porém consistente e eficaz.

Com base nesse sistema, a Igreja apoiou o Estado, sustentou o status quo e se opôs ao comunismo, enquanto o Estado concedeu à instituição um status semi-oficial e também generosos subsídios para muitos projetos, como a construção da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, cenário da visita do papa Bento XVI ao Brasil em maio para a Quinta Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe.

A conferência é patrocinada pelo Conselho Episcopal Latino-americano (Celam) fundado no Rio de Janeiro em 1955, no auge da concordata moral, marcada pelo 36o Congresso Eucarístico Internacional. Apoiado vigorosamente pelo Estado, o Congresso Eucarístico atraiu mais de 1 milhão de visitantes, expressando a lealdade das massas à Igreja - num forte contraste com a situação atual, quando muitos brasileiros vêm aderindo às igrejas neopentecostais. Durante esse período, missionários do Amazonas apoiaram o controle estatal das populações indígenas.

Com a instalação do regime militar no País, a Igreja passou da concordata moral para a oposição moral, denunciando a tortura e a desigualdade social. Como base histórica da Campanha da Fraternidade de 2007, a oposição moral envolveu críticas ao mau tratamento das populações indígenas do Brasil e à devastação social no Amazonas e no interior em geral. Os problemas no interior foram resultado das políticas de crescimento descontrolado e de favorecimento das elites adotadas pelos militares e do fracasso em estabelecer uma presença efetiva do Estado no interior.

Em resposta, o Catolicismo progressista floresceu. Essa foi uma era heróica, em que a Igreja conquistou reconhecimento mundial por sua "opção preferencial pelos pobres". A segunda conferência do Celam, que se realizou em Medellín, na Colômbia, em 1968, e a terceira, que teve lugar em Puebla, no México, em 1979, ressaltaram a nova ênfase da Igreja na transformação social.

Com a saída dos generais em 1985, a Igreja do Brasil deixou de ser oposição e passou essa função aos novos partidos políticos do País e à vibrante sociedade civil que ajudara a criar. O papa João Paulo II refreou o clero progressista e na quarta conferência do Celam em Santo Domingo, República Dominicana, em 1992, fez com que a igreja latino-americana recuasse, abandonando o método ativista, intuitivo, não dogmático adotado pelo catolicismo libertário, conhecido como ver-julgar-agir.

No entanto, a Igreja brasileira passou a atuar como "vigilante moral", continuando a denunciar as injustiças e as falhas das políticas sociais do governo, desde o presidente José Sarney até Luiz Inácio Lula da Silva. Criadas durante o regime militar, as Comunidades Eclesiais de Base e órgãos militantes, como a Comissão Pastoral da Terra e o Conselho Indigenista Missionário, ainda tiveram um papel político importante, defendendo a Amazônia e seus habitantes contra interesses poderosos e muitas vezes violentos. Assim, a Igreja abandonou seu tradicional papel paternalista na Amazônia em favor da promoção da autodeterminação do povo. Nesse processo, muitos membros do clero e aliados locais se transformaram em mártires, caso do Padre Josimo Morais Tavares, assassinado em maio de 1986, e mais recentemente a Irmã Dorothy Stang, morta em fevereiro de 2005.

O texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano emprega ousadamente o método do ver-julgar-agir para analisar a realidade socioeconômica da Amazônia e propor um plano de ação. Nesse aspecto, reafirma a esperança da ala progressista da Igreja de que o papa Bento XVI e a conferência de Aparecida novamente darão legitimidade ao método.

Alguns podem interpretar a Campanha de 2007 como um ataque ao governo do presidente Lula. Na verdade, o documento critica alguns fatos, como o contínuo crescimento do agronegócio, com o conseqüente aumento do desflorestamento e um número cada vez maior de conflitos na região amazônica. Porém, como é comum nas declarações eclesiais, não menciona o governo Lula ou qualquer outro líder.

Na realidade o texto-base é fruto de anos de uma longa experiência da Igreja na Amazônia. Similarmente aos textos de outras campanhas o deste ano é um texto erudito, com citações de pesquisas publicadas. E, como os textos clássicos da Igreja da Libertação, procura conscientizar a população do Brasil sobre o desafio de proteger a Amazônia, as culturas e valores do seu povo, sobre os muitos interesses nacionais e internacionais (perniciosos ou não) que querem tomar parte na formação do seu futuro, e seu significado para o bem-estar do meio ambiente global.

É um documento radical. De acordo com o texto, o mercado descontrolado é o inimigo da Amazônia, cujas "culturas originárias (...) não são portadoras do vírus ideológico da propriedade da terra". Apenas "uma verdadeira frente Pan-Amazônica" - liderada pela Igreja - pode "contrapor-se à cobiça destruidora do mercado", apoiar a reforma agrária e permitir que os "filhos e filhas da Amazônia" protejam a floresta ao mesmo tempo que vivam dela. "O modo de vida dos povos da Amazônia oferece um contraponto para uma reflexão sobre um novo caminho para o Brasil e para a humanidade", diz o documento.

Enquanto os governos se sucedem, esse projeto garantirá a liderança moral da Igreja na região por muitos anos à frente. Sua insistência numa abordagem radical pode ser a única esperança para a Amazônia.

Kenneth Serbin é presidente da Brasa (Brazilian Studies Association) e autor de Gritos do Coração: uma História Social e Cultural do Clero e dos Seminários Brasileiros, a ser publicado pela Companhia das Letras

OESP, 25/02/2007, Aliás, p. J3

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