VOLTAR

A volta das grandes empreiteiras

O Globo, Economia, p. 17
24 de Abr de 2010

A volta das grandes empreiteiras
Camargo Corrêa, Odebrecht e Andrade Gutierrez tentam aderir a consórcio vencedor de Belo Monte

Eliane Oliveira e Gerson Camarotti
Brasília e Rio

Enquanto o mercado ainda estava atordoado com a vitória do consórcio Norte Energia na licitação da hidrelétrica de Belo Monte, na terça-feira, representantes das empreiteiras Camargo Corrêa e Odebrecht procuraram a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) informando interesse em aderir ao consórcio vencedor. As maiores construtoras do país - que desistiram de entrar na disputa 15 dias antes do certame alegando que os parâmetros do edital eram inviáveis - foram o estopim da intervenção federal no leilão, com a formação orientada pela União de um segundo consórcio, que de azarão virou o dono da maior obra do Brasil.

As duas se anteciparam, mas não foram as únicas. A Andrade Gutierrez, que liderava o consórcio favorito, também procurou a Chesf para dizer que, ainda que só participe como contratada, mantém o interesse na obra.

Terceira maior do país, a Andrade formou com a Camargo e a Odebrecht o trio de empreiteiras que fizeram o estudo para o projeto de Belo Monte.

Além das construtoras, Gerdau, CSN e Braskem procuraram a Chesf. A Vale, parceira da Andrade no grupo derrotado, também demonstrou interesse ao governo, apesar das restrições legais - a empresa só pode entrar após a assinatura do contrato de concessão.

Ontem, as ações PN da Gerdau subiram 2,59%, depois de o presidente do Conselho de Administração da empresa, Jorge Gerdau Johannpeter, ter afirmado, num fórum empresarial na Bahia, que cogita entrar em Belo Monte.

- O jogo de xadrez começou e cada um já começa a movimentar suas peças. Mas a Chesf é a dona do jogo - disse uma fonte do governo.
Concorrentes veem tentativa de cartel
Para o Palácio do Planalto, o movimento prova que o governo ganhou a queda de braço com as grandes empreiteiras, acusadas nos bastidores de chantagem na pressão pelo aumento na tarifa-teto de Belo Monte. Já as demais construtoras veem na jogada uma rápida rearticulação pelo oligopólio dos grandes empreendimentos.

- As grandes empresas queriam fixar um preço. Não conseguiram - avaliou um ministro.

- As grandes estão se articulando para manter um cartel na construção de grandes usinas - alertou o interlocutor de uma empreiteira.

O surgimento do Nova Energia foi uma cartada do governo para evitar a cartelização das três grandes construtoras, que queriam fazer juntas e sozinhas a obra. O governo vetou a operação, forçando a divisão do grupo e a formação de dois consórcios, e estes passaram a alegar que o projeto era inviável sem uma alta na tarifa.

A duas semanas do leilão, numa cartada final, Odebrecht e Camargo deixaram a disputa. Apostavam que ganhariam de qualquer maneira, pois o grupo da Andrade entraria sozinho e levaria o certame. Em seguida, as duas se juntariam ao vencedor, implementando o plano original.

Irritado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse publicamente que a União não seria subjugada e determinou que o governo costurasse o segundo consórcio. Pouco antes do leilão, liberou as estatais para desprezarem o lucro e apresentarem um preço bem menor do que o teto estipulado.

Sabia que só a Chef poderia cumprir a determinação, pois liderava o grupo que integrava.

Porém, o governo sabe que a expertise do trio de grandes empreiteiras é importante para Belo Monte. A ideia é, durante a execução da obra, fazer um mix de construtoras, evitando uma conduta combinada, que pressione o governo por melhores condições.

- Por que só pode ter grupo grande construindo Belo Monte? - questiona um ministro.

As negociações começam pela Queiroz Galvão, principal empreiteira do Norte Energia. A empresa quer aumentar sua participação o que, segundo uma fonte, é possível - Não há nada totalmente fechado.

Temos tempo para negociar até 23 de setembro, quando será batido o martelo.

O importante é que a negociação em separado nos coloca numa posição confortável de ditar as regras do jogo - acrescentou um alto funcionário.
Cemig também teria interesse na usina
O governo também está tranquilo quanto à viabilidade econômico-financeira da obra: - Agora, vamos ter muito mais gente querendo entrar do que sair.

Em dois ou três meses todo mundo vai ver que o governo defendeu bem os interesses do consumidor - observou esse ministro.

No mercado, fala-se ainda na adesão da Cemig, dos fundos de pensão da Caixa (Funcef) e da Petrobras (Petros) e na companhia belga de energia Suez.

A Eletronorte - outra empresa do grupo Eletrobrás, além da Chesf - é a única sócia estratégica confirmada.

Ontem, o presidente da Chesf, Dilton da Conti, demonstrou otimismo com a construção de Belo Monte.

- Tenho certeza absoluta de que vamos executar muito bem esta obra - disse Dilton da Conti.
Colaboraram: Mônica Tavares e Bruno Villas Bôas

O Globo, 24/04/2010, Economia, p. 17

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.