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'Viver é perigoso' no maior oásis do São Francisco

O Globo, País, p. 9.
24 de mar de 2018

'Viver é perigoso' no maior oásis do São Francisco

ANA LUCIA AZEVEDO
24/03/2018 4:30 / ATUALIZADO 24/03/2018 15:51

Março chegou com chuva ao sertão da Bahia. Riachos mortos nos últimos sete anos voltaram à vida. Desceram em enxurrada as serras da Chapada Velha, atravessaram a caatinga e deram um fio de esperança à Mãe dos Pobres do São Francisco, a Lagoa de Itaparica. Considerada a mais importante da Bacia do São Francisco, por ser o seu maior berçário natural de peixes, uma "criadeira", ela se tornou um dos símbolos de sua degradação. No ano passado, Itaparica secou completamente e deixou sem renda cerca de dois mil pescadores.
A seca de 2012-17 foi o golpe de misericórdia num paraíso em agonia. Situada entre os municípios de Xique-Xique e Gentio do Ouro, num dos pontos mais áridos do semiárido baiano, a Lagoa de Itaparica era um oásis de águas cristalinas num lugar onde modernidade e passado se encontram, mas não se misturam. Um mundo de comunidades tradicionais de pescadores e rezadeiras, florestas de palmeiras ainda selvagens e torres de alguns dos parques eólicos com maior tecnologia e potencial do Brasil.
- Aqui, viver é perigoso - afirma Edmar Oliveira Filho, 69 anos, armado com uma espingarda de um tiro só, ao se embrenhar atrás de seu pequeno rebanho de cabras na floresta formada apenas por carnaúbas, às margens do leito seco da Lagoa de Itaparica.
Seu Edmar nunca ouviu falar de Guimarães Rosa, mas pronuncia por experiência própria uma das frases mais célebres de "Grande sertão: veredas", obra-prima da literatura. O sertão do seu Edmar é coberto por um labirinto de carnaúbas, em permanente verde, mesmo no auge da estiagem. Ainda há nessa mata onças-pardas, pacas, caititus (porcos do mato), veados, tatus e, sobretudo, jumentos abandonados que se tornaram selvagens. O carnaubal cobre 90% dos 78.450 hectares da APA da Lagoa de Itaparica _ é cerca de 20 vezes maior do que o Parque Nacional da Tijuca, por exemplo.
Ele mora no povoado de Jacu, em Xique-Xique. Já viveu da pesca. Hoje, com a mulher, sobrevive da aposentadoria rural e insiste em plantar a mandioca "que não vinga". Os jacus que dão nome ao povoado se tornaram raros. Já mergulhões, marrecas e patos selvagens, gaivotas, tuiuius, maçaricos e outras dezenas de espécies de aves que se reuniam aos milhares para se alimentar e fazer ninhos à volta da lagoa se foram com as águas.
Composta por uma só rua com chão de areia branca, a comunidade de pescadores ficava à beira d'água. Agora, se debruça sobre um campo de areia e mussambê, um arbusto nativo dos brejos do sertão, capaz de sobreviver em restos de umidade.
Com cerca de 24 quilômetros de extensão e 2.400 hectares de espelho d'água quando cheia (ou 11 vezes maior do que a Lagoa Rodrigo de Freitas), Itaparica era o que havia de mais próximo do cenário observado por Von Martius e Spix, os naturalistas alemães cuja obra está na essência do conhecimento da flora e da fauna do Brasil. Há 199 anos, ao descrever as lagoas marginais do São Francisco, relataram terem sido "transportados a um país inteiramente diverso. Em vez de matas secas, desfolhadas ou de campos de alto sertão, vimo-nos de todos os lados cercados de matas virentes, que orlavam extensas lagoas piscosas".
A TERRA ONDE CHOVE DE BAIXO PARA CIMA
Itaparica tinha surubins e dourados nativos do São Francisco, curimatãs, matrinxãs, mandis, piranhas, traíras, piaus e o hoje raríssimo piau. Os peixes vindos do São Francisco entravam na lagoa para desovar. Os alevinos nasciam, se criavam ali e voltavam ao rio quando adultos. Esse ciclo por séculos sustentou a pesca na bacia do São Francisco. A denominação de Mãe dos Pobres ou da Pobreza, vem da antiga fartura de peixes, garantia de alimento de qualidade aos pescadores e suas famílias.
Nesta Sexta-Feira Santa, o peixe da tradição cristã virá da Argentina e do Mato Grosso, conta Marcelo Marques Santana, 38 anos, "desde sempre pescador de Itaparica". Sem água na lagoa para ter o que pescar, pescadores que como ele, "que não conhecem outra vida", se tornaram vendedores de pescado trazido de longe.
Vanderlei Pinheiro, engenheiro de pesca e analista ambiental do Ibama, dedicou 43 de seus 67 anos ao serviço do meio ambiente no São Francisco. Ele assegura que não há registro de seca tão grave da lagoa. Pesca predatória, aterro e desmatamento das margens, assoreamento de rios, destruição de nascentes, perfuração excessiva de poços que consomem o raso lençol freático e extração ilegal de areia destroem a Lagoa de Itaparica há pelo menos quatro décadas.
Segundo Pinheiro, a lagoa chegava a quatro metros de profundidade, mas nos últimos anos alcançava no máximo um metro. Até secar completamente, em agosto passado, vivia em eterno sinal vermelho. Na região, no semiárido do norte baiano, chove em média 600 milímetros por ano. Já a taxa de evaporação é de 2.200 milímetros. A pequena profundidade faz que a evaporação seja mais rápida. "No semiárido, chove de baixo para cima", diz Pinheiro.
- Quem matou Itaparica foi o homem. Se o mau uso continuar, mesmo que volte um pouco de água, não haverá mais o paraíso para homens e animais do passado - frisa.
Ao último surubim de Itaparica restou a escuridão. Vive confinado na cisterna da casa de Gilvânia da Silva Monteiro, 33 anos, do povoado de Lagoa de Itaparica, uma das comunidades tradicionais de pescadores do lugar. Antes que a lagoa secasse de vez bem em frente de sua casa, Gilvânia capturou um surubim, um piau e um mandi. Os colocou na cisterna - uma das um milhão já instaladas pelo governo federal em todo o semiárido desde 2003. Não pensa em transformá-los em refeição, pois "são mais preciosos do que isso, lembrança de um tempo bom".
Quando em agosto, a água da lagoa estava pouco acima da altura do calcanhar e os peixes agonizavam asfixiados ou comidos por porcos famintos que invadiram o leito seco, o professor de geografia do ensino fundamental e ambientalista Railton do Nascimento Barbosa arregimentou um grupo de voluntários para uma operação movida pelo desespero. Com baldes, resgataram cerca de 20 mil peixes antes que Itaparica se tornasse um deserto de chão rachado, a imagem que costuma caracterizar o martírio do semiárido.
Os peixes foram soltos nos riachos ainda com alguma água e vida com os dias contados. Um esforço desesperado, gota no oceano de 3,3 milhões de peixes que Vanderlei Pinheiro estima terem morrido, quando a lagoa secou de vez no fim daquele mês.
- É preciso muita coisa para salvar Itaparica, mas principalmente vontade política. Temos que desassorear os rios, recuperar as nascentes e educar esse povo que sofre muito, mas também contribui, sem saber, para essa situação ao cavar poços sem licença, não pescar conforme as regras. Há a extração ilegal de areia mesmo em área com potencial diamantífero, segundo estudos. As eólicas constroem torres junto a áreas de nascentes e não vemos fiscalização. É uma loucura o que se faz com essa lagoa e com o São Francisco. O rio não aguenta mais - frisa Barbosa, de 32 anos, nascido numa das comunidades à beira da lagoa e que se tornou reconhecido na região pelo trabalho de educação ambiental voluntário e os vídeos com denúncias postados em seu canal no YouTube.

A infância de Barbosa, um dos poucos filhos da terra que cursaram faculdade e voltaram para trabalhar com a comunidade, foi marcada pelas festas e rezas em torno da pesca organizadas por dona Cleonice Pereira da Silva, 75 anos, no povoado de Lagoa da Itaparica.
O bendito de São José, oração tradicional do sertão nordestino, soa ainda na voz de dona Cleonice, em sua casa nas margens secas de Itaparica. "Meu divino São José, aqui estou aos vossos pés, pedindo água com abundância, meu Jesus de Nazaré. Quem quiser chuva na terra, se apegue com São José, é um santo milagroso pela nossa santa fé", entoa. "A lagoa, quando tem água, é muito divertida. Nos dá alegria. Mas a lagoa agora está triste", diz ao explicar a apatia que tomou o povoado.
- É uma vida sofrida. Quem tem um pai ou uma mãe aposentados ainda tem um pouco. Ou uma mulher que receba Bolsa Família. Se não, vai ter que ir para os garimpos quebrar pedra. Mas quem sabe é Deus, o tanto que a gente merece que os peixes voltem - resigna-se dona Cleonice.
A lagoa depende das águas dos riachos da Serra de Santo Inácio, em Gentio do Ouro, e da Ipueira, um braço do São Francisco, que corre junto a Xique-Xique. As águas desse último chegam a Itaparica no povoado de Saco dos Bois. Como as demais comunidades, Saco dos Bois é um lar de pescadores e tradições de futuro incerto. Lá, até a água "partir em agosto", como em "Minha rede", composição de Roque Ferreira celebrizada na voz de Maria Bethania, se pescava com tambor. Este era improvisado. O que restou é um velho tanque de combustível enferrujado. As redes são de caroá - bromélia típica do sertão cuja fibra era muito usada no artesanato - outra tradição que desaparece.
- Até os anos 80 tinha muita fartura, cheguei a pescar três mil quilos de surubim graúdo, de 15 a 20 quilos. Mas a lagoa foi morrendo. No canal da Ipueira, quando aparece peixe, é miúdo. Antes, quando o gavião-pé-de-serra sobrevoava a lagoa, era sinal de peixe. A gente batia muito forte no tambor e tocava os peixes. Eles ficavam doidos, pulavam para fora d'água, como se fossem borboletas, e acabavam nas redes _ lembra Domingos Pereira Guedes, de 55 anos, que aprendeu a pescar de tambor com o pai, Vanderlei Guedes, o seu Vanu, de 91 anos, memória viva das tradições de Itaparica.
Seu Vanu guarda o tambor e a rede com carinho e ainda sonha pescar. Numa terra de santos - José, das orações que rogam por água; Inácio, protetor da serra; e Francisco, padroeiro do rio - , os pescadores de Saco dos Bois recorrem aos mitos para explicar sua tragédia.
- Mataram muitos peixes, sujaram e aterraram tudo e a mãe d'água se zangou e foi para a serra. Ela morava no fundo da lagoa e levou embora as águas da Itaparica. Chamamos com búzios e ela não responde. Dizem que está no Encantado, a nascente que nunca seca. Não sabemos se vai voltar e devolver a nossa vida. Aprendi sobre a mãe d'água com a minha avó. Aqui é um lugar de muitas histórias, mistérios, coisas antigas. A mãe d'água aqui faz sentido - diz Domingos.
O Encantado, na Serra de Santo Inácio, é a única das nascentes da lagoa que permanece viva mesmo no auge da seca. Tal resistência, considerada sobrenatural por pescadores, lhe valeu o nome. Sua torrente atravessa um cânion estreito até se despejar em cachoeira num lago de água transparente, cercado por paredes de calcário rosa. A beleza e a mãe d'água, porém, não livraram o Encantado das pichações e do lixo deixados por muitos dos que o frequentam em busca de alívio.
- Faltam educação, respeito e uso consciente da água. Isso aqui é um paraíso, tem uma beleza única no Brasil. Meu medo é que desapareça antes que possa ser recuperado e ter o seu valor seja reconhecido -lamenta Oscar Guedes, o secretário de Turismo de Gentio do Ouro, que recolhe ele próprio o lixo deixado por visitantes e se desespera em ver a cada fim de semana que seu esforço foi em vão.
Vanderlei Pinheiro tem pouco otimismo em relação ao futuro da principal lagoa do Velho Chico, a despeito das chuvas mais intensas deste ano. Segundo ele, se não chover com regularidade até abril, a água não vai durar dois meses. Na semana passada, a água tinha chegado a cerca de 10% da área original, mas não passava da altura de joelhos. E a chuva é só um paliativo.
- Para salvar essa lagoa, que era uma de uma das maiores belezas de toda a bacia do São Francisco, toda a comunidade terá que se envolver. Além de recuperação e dragagem, ela precisa de descanso. A pesca do jeito que sempre foi feita não é mais possível. É incompatível com a existência da lagoa. Não se pode explorar sem limite na crença de eterna fartura - salienta Pinheiro.
Dona Cleonice, como seu Edmar, reflete a alma sertaneja do universo retratado por Guimarães Rosa, vivo no semiárido. "O sertão é uma espera enorme", escreveu Rosa. E dona Cleonice, como os demais moradores das margens da Itaparica, também aguarda:
- Não tenho mais o rio de antes, mas ainda tenho esperança - afirma.

O Globo, 24/03/2018, País, p. 9.

https://oglobo.globo.com/brasil/oasis-do-sao-francisco-seca-causa-desas…

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