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Vitrine colorida da biodiversidade

O Globo, Planeta Terra, p. 10-16
26 de Out de 2010

Vitrine colorida da biodiversidade
Dilemas do Pantanal refletem desafios ambientais do Brasil

Renato Grandelle

Aquidauna, Itiquira, Nabileque, Piquiri e Salobra são nomes que, para muitos, não dizem nada. No Pantanal, são sinônimo de vida. Os cinco são os rios que fazem do bioma um dos mais ricos e, sem dúvida, o mais exuberante dos biomas do Brasil. Mais de 2.600 espécies de animais vivem em suas águas ou em planícies inundadas, tornando a região, no coração da Bacia do Alto Paraguai, um zoológico a céu aberto.
Enquanto a Amazônia esconde sua riqueza em mata fechada, o Pantanal não só expõe sua natureza, como a rege em ritmo próprio. As estações do ano são ignoradas. Há apenas dois períodos: um marcado pelas chuvas, de novembro a março; e outro de secas, que se estende pelo resto dos meses.
Este ano a seca se mostrou particularmente severa, alarmando os pantaneiros e os pesquisadores que estudam o bioma, a mais importante planície inundada do mundo e um dos tema em discussão esta semana em Nagóia, no Japão, na Conferência Internacional de Biodiversidade, promovida pelas Nações Unidas. A combinação da exuberância com um futuro repleto de incógnitas faz do bioma um pequeno resumo do meio ambiente no Brasil.
Segundo cálculos de pesquisador da Embrapa, o Pantanal dá ao Brasil R$ 700 bilhões, em serviços como água e regulação do clima. Porém, a seca incomum, o assoreamento crescente dos rios e hidrelétricas que deverão mudar o caminho das águas colocam toda essa riqueza em risco.

Paraíso ameaçado por secas e espécies invasoras

Renato Grandelle

CUIABÁ - A biodiversidade do Pantanal está ligada à forma de bacia do bioma. A água desce lentamente a planície, que baixa até 12 centímetros por quilômetro, do leste ao oeste; ou três centímetros por quilômetro, de norte a sul. Neste ritmo, ela demora até seis meses para atravessar os 140 mil quilômetros quadrados do bioma. A viagem lenta garante a permanente existência de alguma região inundada, inviabilizando a agricultura e, em boa parte, a construção de estradas. Graças a esse obstáculo natural, o conjunto de diferentes ecossistemas está preservado. Cerca de 85% da vegetação nativa estão de pé.
Nas bordas pantaneiras, porém, os problemas se acumulam: cidades crescem sem planejamento, plantações abusam de agrotóxicos, mineradores clandestinos prosperam e o desmatamento avança. E todas essas atividades ocorrem às margens dos principais rios que seguem para o Pantanal.
- O Pantanal é uma planície de inundação. Tudo que ocorre na parte alta o afeta significativamente - resume Débora Calheiros, pesquisadora da divisão do Pantanal da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Pantanal). - No planalto, mais de metade da vegetação nativa já foi derrubada, inclusive a mata ciliar que protege as margens dos rios. E 75% da água vêm justamente dessa região crítica.
Débora integrou os Projetos Ecológicos de Longa Duração, uma iniciativa que monitorou, até o ano passado, a qualidade da água que drenava para as planícies. Encontrou quantidades crescentes de metais pesados e elementos tóxicos, resultado do emprego de agrotóxico em diversas áreas e do garimpo de ouro na região do Poconé, no Mato Grosso. Todos os rios passam por processo de assoreamento - ou seja, entopem-se cada vez mais com sedimentos, principalmente areia, resultado do uso intenso do solo por atividades como agricultura e pecuária.
- Há indícios de que o assoreamento está afetando também a água subterrânea, que mantém os rios nos períodos de seca - observa Débora.
A chegada da água, progressivamente dificultada, compromete a limpeza do pasto. Sem a decomposição dessas plantas na época de chuvas, não há nutrientes para alimentar os animais. A cadeia alimentar - e, por extensão, a biodiversidade - fica comprometida. Alguns pesquisadores temem também que o Pantanal esteja entrando num período de secas mais severas, que poderia ter relação com a ação humana. A cada dez anos, o bioma passa por períodos de seca acentuados. Mas agora ela dura mais: a última começou em 1997 e não acabou.
Outra preocupação da Embrapa é com os prognósticos de que o desmatamento na Amazônia reduzirá a transpiração das árvores e a formação de nuvens.
- O Pantanal recebe muitas chuvas da Floresta Amazônica - alerta Walfrido Thomas, também pesquisador da Embrapa. - E a derrubada da mata é maior justamente na região fronteiriça ao Pantanal. Há, portanto, chance de que as secas aumentem.
A diminuição de áreas inundadas afeta diretamente alguns animais do bioma, como os jacarés. Há 24 anos estudando esses répteis, Zilca Campos já observou mudanças até na paisagem ao redor da fazenda da Embrapa, quase na fronteira com a Bolívia.
- Os jacarés têm sofrido muito com a estiagem prolongada - lamenta. - Eles dependem da água para que sua temperatura corporal não suba demais. As chuvas diminuíram muito desde o início da década. Antes, havia cerca de 100 lagos ao redor da fazenda. Não há mais nenhum.
- As lagoas marginais, que se desenvolvem paralelas aos rios, funcionam como berçários para os peixes - acrescenta Guilherme Mourão, especialista na fauna pantaneira. - Por isso eles dependem das enchentes para se reproduzir. São as inundações que fazem os peixes subirem os rios e recorrerem a esses viveiros naturais. E não podemos esquecer que diversos animais, de tuiuiús e garças a ariranhas e lontras, dependem do peixe para se alimentar.
Outro grave problema são as espécies invasoras. As piores são as de moluscos aquáticos como o mexilhão dourado. Proveniente do sudeste asiático, ele foi introduzido na bacia do Rio da Prata, na Argentina, pela água de lastro de navios. Conseguiu sobreviver na região do estuário e se dispersou pela bacia do Rio Paraguai.
- É uma espécie que, devido à altíssima densidade populacional, pode provocar grandes danos à biodiversidade - assinala Márcia Divina, pesquisadora de Ecologia Aquática da Embrapa.

Principais ameaças

1. Desmatamento: Há poucas informações sobre a sua taxa anual, mas este índice teria crescido na borda leste, onde há mais pastos.

2. Assoreamento: É um processo natural, mas intensificado pelo homem em todos os rios da região, especialmente no Taquari (MS). Pode descaracterizar o Pantanal ecológica e paisagisticamente.

3. Poluição dos rios: Causada principalmente pela produção de agrotóxicos, por metais sólidos e pelo despejo de lixo dos centros urbanos, inclusive coliformes fecais.

4. Hidrelétricas: Retêm água no período de cheias (o que muda a vazão no bioma) e a libera na seca. Alteram o comportamento hidrológico, inclusive a população de animais. A longo prazo, 116 hidrelétricas poderiam funcionar no Pantanal.

5. Mudanças climáticas: Seus efeitos ainda são estudados, mas o desmatamento na borda da Amazônia poderia provocar menos chuvas na bacia do Paraguai, o que aumentaria o período de seca do Pantanal.

6. Espécies invasoras: São introduzidas no bioma pela sua proximidade com a Amazônia ou pelo tráfego aquático nas bacias dos rios Paraguai e Paraná. O mexilhão dourado é um dos principais invasores, comprometendo a existência de diversos organismos aquáticos.

7. Pecuária: A forma tradicional da atividade tem perdido espaço com a divisão das propriedades. Os novos moradores, em busca de maiores lucros, desmatam a vegetação nativa e criam pasto.

Quanto vale o Pantanal?

A pergunta pode fazer o leitor pensar na importância social, histórica ou cultural de um dos principais biomas brasileiros. Mas esses quesitos não são os únicos.
O economista André Steffens está ciente de toda a contribuição subjetiva do Pantanal. Ainda assim, quis lhe atribuir um valor em cifras. Após revisar estudos de diversas áreas, chegou a uma quantia de R$ 700 bilhões.
Steffens pondera que sua iniciativa soa polêmica, mas não incomum. De acordo com o economista, calcular o valor de um bioma pode ser importante para decisões estratégicas, como definir metas ou impor multas em situações de catástrofes ambientais.
-É assim que se determina uma penalidade à petroleira responsável pelo derramamento de óleo no Golfo do México-diz.
-Também é importante ter ideia de um valor para decidir planos, como converter ou não uma área em pastagem cultivada.
A comunidade internacional discute que valores atribuir a um conceito antes subjetivo: a retenção de carbono por uma vegetação, o que reduz o efeito estufa e o aquecimento. Steffens considerou outros 'serviços' prestados pelo Pantanal, como o controle de cheias -que, se não fosse feito pelo bioma, arrasaria outras áreas-e sua variabilidade genética.
-O cálculo final correspondeu ao que eu esperava. É o que os economistas dizem: para algo que não tem substituto, o valor é infinito.

Modelo tradicional e ecológico de pecuária pantaneira perde espaço

Renato Grandelle

CUIABÁ - Uma raça de gado e uma atividade econômica tradicionais do Pantanal estão em risco. O boi-tucura e a pecuária extensiva perdem espaço para modelos mais lucrativos. Para evitar seu desaparecimento, a pesquisadora Raquel Soares, da Embrapa, idealizou uma solução conjunta, ligando a dupla ameaçada a um projeto para estimular o mercado turístico. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o boi-tucura figura na lista das raças domésticas em extremo risco de desaparecimento. Apenas 289 exemplares da raça são conhecidos, todos no Pantanal: uma parte está em Poconé (MT) e outra em Corumbá (MS). Devido à pouca variabilidade genética, é grande o risco de extinção.
- É uma raça menor e, portanto, menos lucrativa para o pecuarista, que abandonou progressivamente sua criação - lamenta Raquel. - O tucura não atende ao rebanho comercial brasileiro, mas poderia ser usado em nichos de mercado, pelo seu vínculo com o Pantanal e por sua carne mais macia.
Outra dor de cabeça da pecuária regional é a desobediência a um modelo histórico de produção. Pesquisas mostram que, no Pantanal, cada cabeça de gado precisa de quatro hectares para se desenvolver e não comprometer aquele ambiente. Esse modelo extensivo, no entanto, tem sido cada vez mais contestado por novos fazendeiros, que se instalam na região após comprarem frações de antigas propriedades.
- Os pastos pantaneiros são de baixa qualidade nutritiva - alerta o economista André Steffens, também da Embrapa. - Outro problema é a grande quantidade de enchentes. Essas limitações naturais explicam por que a pecuária deve seguir o modelo extensivo.
O apelo, porém, tem sido ignorado. Em quase uma década, de 2001 ao ano passado, a devastação cresceu 6%, de acordo com estudo realizado por ONGs como WWF-Brasil, Conservação Internacional e SOS Mata Atlântica. O pecuarista desmatador evita as áreas alagadiças. Seu alvo são as terras de vegetação permanente, mais ricas em madeira, sequestro de carbono e biodiversidade. Enquanto causa prejuízos ao bioma, enche o bolso. De acordo com estudo coordenado por Steffens, os fazendeiros que respeitam a pecuária extensiva ganham, em média, US$ 12 por hectare. Aqueles que recorrem à serra elétrica e usam o solo de forma predatória têm renda de US$ 28 por hectare.
Paradoxalmente, quem pode despontar como um dos grandes heróis da preservação da biodiversidade do Pantanal é o porco selvagem, uma das cem piores espécies invasoras do planeta. Ele surge como o protagonista de uma economia, ainda inexplorada, que poderia render até R$ 5 milhões anuais aos fazendeiros: a caça.
- Como atrai para si o interesse dos caçadores, o porco contribui involuntariamente para a conservação da fauna silvestre - explica o pesquisador Ubiratan Piovezan, da Embrapa, que estuda a espécie.
Custodio Coimbra e Renato Grandelle viajaram a convite da Embrapa Pantanal

O Globo, 26/10/2010, Planeta Terra, p. 10-16

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