CB, Opinião, p. 17
Autor: KI-MOON, Ban
09 de Jun de 2007
Vítimas do clima
Ban-Ki-Moon
Secretário-Geral das Nações Unidas
As posições são claras. Quando as nações industrializadas do G-8 se reúnem em Heiligendamm, as forças para lutar contra o aquecimento global estão divididas em dois grupos. A Alemanha e o Reino Unido querem conversações urgentes sobre um novo tratado para entrar em vigor em 2012, quando expira o Protocolo de Kyoto. Falam de medidas drásticas para reduzir as emissões de carbono e limitar a alta das temperaturas mundiais a dois graus centígrados nos próximos 40 anos. Por sua vez, os EUA têm iniciativa própria e se opõem a metas e prazos, que consideram arbitrários.
Veremos para onde isso nos conduz. Mas, enquanto continuam os debates, há fatos que não admitem discussão. Em primeiro lugar, os dados científicos são incontestáveis. Não há a menor dúvida sobre o aquecimento do planeta. E nós, os seres humanos, somos os principais responsáveis. Todos os dias surgem novas provas, como o último relatório do Greenpeace sobre os glaciais no Everest ou a descoberta, feita semana passada, de que o Oceano Antártico não pode absorver mais CO2. É difícil acreditar: o lugar que mais absorvia carbono atingiu seu limite.
Em segundo lugar, é preciso agir agora. A maioria dos economistas está de acordo: o custo da inação superará o de uma atuação rápida. Ligados ao aquecimento global ou não, os danos causados pelo furacão Katrina, em Nova Orleans, são claro aviso dos perigos econômicos e sociais que implica não agir a tempo. É também evidente que não podemos pensar indefinidamente sobre as opções possíveis. A solução que hoje em dia está na moda - as trocas de direitos de emissão de carbono - é apenas uma das armas do nosso arsenal. As novas tecnologias, a poupança de energia, os projetos florestais e os combustíveis renováveis, bem como os mercados privados, devem fazer parte de uma estratégia de longo prazo. O mesmo se pode dizer da adaptação, já que, ao fim e ao cabo, só é possível atenuar os efeitos das alterações climáticas até certo ponto.
Há um terceiro fato que, para mim, é o mais importante de todos. Trata-se de questão de eqüidade, de valores, um dos grandes imperativos morais do nosso tempo. O aquecimento global afeta a todos, mas não da mesma maneira. Os países ricos possuem os recursos e os conhecimentos necessários para se adaptarem. O agricultor africano, que perde as colheitas ou vê o seu gado morrer devido às secas e tempestades de areia, ou o habitante das ilhas Tuvalu, que receia que a sua aldeia fique submersa, são infinitamente mais vulneráveis. É uma dicotomia que conhecemos bem - ricos e pobres, Norte e Sul.
Sejamos claros: as soluções que os países desenvolvidos propõem para lutar contra o aquecimento do planeta não podem ser postas em prática à custa dos vizinhos menos favorecidos. Será impossível alcançar o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio, que consiste em reduzir a pobreza mundial para metade, enunciado solenemente em anteriores reuniões do G8, se não forem respondidas as aspirações de maior participação na prosperidade mundial, sentidas pelos países em desenvolvimento. A dimensão humana é o princípio pelo qual se devem guiar os povos do mundo ao enfrentar os problemas comuns como este. É o prolongamento do dever sagrado de proteger que constitui o fundamento da ONU.
Todos os dias, atravesso o hall da sede da ONU em Nova York, onde alguns dos mais famosos fotógrafos do mundo expõem suas obras, que mostram os rostos e deixam ouvir as vozes de pessoas que, com freqüência, não vemos nem ouvimos, pessoas de todo o mundo, que vivem quotidianamente numa penúria agravada pelas alterações climáticas. Os debates que se desenrolam no Conselho de Segurança, freqüentemente pouco interessantes e em uma impenetrável linguagem diplomática, ganham subitamente vida e, por momentos, nada têm de diplomáticos. Recordo concretamente um debate que ocorreu em abril, no qual o representante da Namíbia expôs a percepção dos perigos inerentes às alterações climáticas, quase gritando: "Não se trata de exercício acadêmico, mas de questão de vida ou de morte para o meu país!"
Em seguida, falou da expansão dos desertos do Namibe e do Kalahari, que destrói as terras aráveis e torna inabitáveis regiões inteiras. Isso me fez pensar no meu próprio país, a Coréia, sobre o qual se abatem, cada vez mais, tempestades de areia vindas do deserto de Gobi, também em expansão, depois de terem atravessado o mar Amarelo. A malária propagou-se a zonas onde era desconhecida, prosseguiu o representante da Namíbia, país famoso pela biodiversidade em que agora espécies estão em extinção. Por último, afirmou que países em desenvolvimento como a Namíbia são, cada vez mais, vítimas do que classificou de "guerra química ou biológica de baixa intensidade".
Essa intervenção, baseada na realidade, não fruto da imaginação, exprimia emoções muito profundas. É importante que os países desenvolvidos ouçam os apelos e ajam em conformidade. Anunciarei a realização de uma cúpula sobre mudanças climáticas em Nova York, em setembro, antes da sessão anual da Assembléia Geral, como foi solicitado por diversos países. Foi também esse motivo que me levou a nomear três enviados especiais, cuja missão é representar os interesses e expressar as preocupações dos países mais vulneráveis às alterações climáticas, onde vive a maioria dos habitantes do planeta.
Congratulo-me com o fato de o presidente Bush ter anunciado recentemente sua intenção de lançar iniciativa sobre alterações climáticas. Exorto-o vivamente a fazê-lo no marco da ONU, para que as nossas atividades se completem e reforcem mutuamente. Em dezembro, os dirigentes políticos do mundo se reunirão de novo, em Bali, para levar adiante as decisões tomadas esta semana na Alemanha e em encontros posteriores.
Não podemos, no entanto, esquecer que, para que um acordo concluído no seio do G8 possa oferecer soluções mundiais para um problema que afeta todo o planeta, tem que ter alcance mundial. Chegou o momento de mudarmos nossa maneira de pensar e promover a inclusão.
Não podemos continuar agindo como se nada tivesse mudado.
CB, 09/06/2007, Opinião, p. 17
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