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Vista como 'salvação' por Alckmin, represa Billings é a representação de tudo o que há de errado na gestão da água em SP

Brasil Post - http://www.brasilpost.com.b
30 de jan de 2015

Vista como 'salvação' por Alckmin, represa Billings é a representação de tudo o que há de errado na gestão da água em SP

Thiago de Araújo
thiago.dearaujo@brasilpost.com.br

Publicado: 30/01/2015 12:08 BRST Atualizado: 30/01/2015 12:12 BRST

Poluição, ocupação desordenada do solo e desmatamento. Poderiam ser listadas outras razões, mas essas três bastam para descrever a situação da represa Billings, localizada entre a zona sul de São Paulo, os municípios do ABC paulista, e a Serra do Mar. Suas águas são vistas como a 'salvação' para o colapso iminente do abastecimento em São Paulo nos próximos meses. Mas não se engane: para isso ser possível, de forma segura, não há atalhos.
Com capacidade de armazenamento de 1,2 trilhão de litros de água, a Billings é maior do que o Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de quase 9 milhões de pessoas da capital e da região metropolitana. Hoje, ela está com mais de 50% da sua capacidade e, territorialmente, é mais próxima da Grande SP do que várias represas do Cantareira. Naturalmente, há uma boa razão para que ela não tenha sido utilizada antes com mais ênfase.
"Por anos a Billings teve a lei de mananciais absolutamente relegada e, por não ser cumprida, acabou permitindo que enormes ocupações urbanas fossem feitas em suas margens. A péssima qualidade de gestão de pessoas que viraram vereadores e deputados acabou gerando o cenário atual. Não se fez nada antes para tratar a poluição. Há de se perguntar ao governador (Geraldo Alckmin) porque não se pensou nela antes para se tornar um manancial de fato. Deveriam ser tratadas áreas assim como as mais importantes, mas acabam se tornam depósitos de lixo", diz a secretária-geral da ONG WWF-Brasil, Maria Cecília Wey de Brito.
Segundo o estudo 'Billings 2000', feito pelo Instituto Socioambiental e publicado em 2002, a represa, com sua vazão natural de 14 metros cúbicos por segundo, poderia abastecer até 4,5 milhões de pessoas. Na época, o abastecimento era voltado apenas para 1 milhão de pessoas. A razão é o fato da Billings ter sido projetada, em 1927, com a construção da Barragem de Pedreira, para a produção de energia elétrica da a Usina Henry Borden, em Cubatão (SP).
Os problemas começaram a partir da década de 40, com o uso das águas do Rio Tietê, e depois do Pinheiros, para aumentar a vazão da represa e, consequentemente, produzir mais energia. "A Billings recebeu uma quantidade de água em uma época em que a coleta de esgoto em SP era desprezível. Então, durante anos, ela recebeu uma carga poluidora", comenta o professor de Engenharia Hidráulica da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Antonio Giansante.
A poluição, que fez a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) tomar as primeiras medidas contra algas tóxicas nos anos 70, permanece hoje. Segundo reportagem do Bom Dia Brasil, da TV Globo, há a presença de bactérias perigosas à saúde nas águas da Billings, que podem causar diarreia, vômito e até a morte de crianças e pessoas debilitadas. Na semana passada, reportagem da Folha de S. Paulo mostrou a reclamação de moradores quanto ao cheiro e estado da água, na qual lixo, fezes e "até corpos" compõem a paisagem.
Tanto a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) quanto Alckmin garantem que a companhia possui formas de tratamento suficientes para tornar a água muito poluída da Billings potável e própria para o consumo humano. Não por acaso, em até 20 dias técnicos da Sabesp vão concluir um projeto que vai determinar um uso maior das águas da represa, a partir de junho, no abastecimento da Grande SP. A informação é do Jornal Nacional.
"A Billings já atende o (Sistema) Guarapiranga através de um braço chamado Taquecetuba. Nós vamos aumentar (a vazão). Acho que podemos colocar mais um metro cúbico por segundo da Billings para a Guarapiranga e quatro metros cúbicos por segundo para o (Sistema) Alto Tietê", disse o governador recentemente, em evento em Taboão da Serra.
Viável? Seguro?
Atualmente, a Sabesp capta 7,7 mil litros por segundo. A meta é aumentar em mais 4 mil litros por segundo a captação, enviando-a para a represa Taiaçupeba, que compõe o Alto Tietê. Esse plano depende de obras e detalhes ainda não foram revelados. O certo é que caberia à uma estação de tratamento de Suzano fazer o processo de despoluição. Para Giansante, a companhia já mostrou que pode tratar essa água e levá-la para o abastecimento.
"Hoje os poluentes mais pesados encontram-se no sedimento da represa. Se fosse preciso usar, por exemplo, o volume morto da Billings, aí seria mais complicado. Ela tem capacidade de fornecer 18 metros cúbicos por segundo se necessário e não me lembro de outra represa com um número dessa ordem de grandeza. Já há um aproveitamento do braço do Rio Grande, que abastece o ABC, e o que se discute é a captação de um braço do Rio Pequeno, que corre praticamente paralelo. Este é mais protegido", analisa.
Embora positiva, essa 'solução' já é datada. "O projeto de interligação do Rio Pequeno com o Rio Grande é antigo. É muito bem-vindo que ele finalmente venha a ocorrer", afirmou a coordenadora da Aliança pelas Águas, Marussia Whately, à Agência Brasil.
Entretanto, nem todos concordam. "Os reservatórios (Guarapiranga e Alto Tietê) não vão dar conta de fazer o tratamento de água poluída da Billings para atender toda a demanda. Por isso, se quiserem utilizar a água da represa agora, farão apenas a desinfecção com cloro e a mandarão para as residências. Mas essa água não poderá ser consumida sob nenhuma hipótese. A cor será escura e o cheiro tão forte que dará náusea", explicou o professor da Unicamp Antonio Carlos Zuffo, em entrevista ao ABCD Maior.
Menos desculpas, mais gestão
A segurança hídrica também passa pela gestão das águas e dos assuntos relacionados. O despreparo governamental, seja ele municipal, estadual ou federal, fica evidente com o fato de invasões já estarem em andamento em áreas secas da Billings. O cenário não é muito diferente em outras represas e a ocupação desregrada do solo apenas contribui para a poluição e assoreamento, prejudicando a qualidade e uso da água destes locais.
"Essas áreas todas - Billings, Cantareira, Guarapiranga - são supersensíveis e a legislação de ocupação do solo foi totalmente descumprida. As áreas verdes foram devastadas e a ocupação só cresceu em todas elas. No Brasil se prefere ser populista do que tomar as medidas necessárias", comentou Maria Cecília.
O planejamento, aquele que não culpa períodos de estiagem, também é fundamental. Apesar do governo de SP culpar a "maior seca no Estado desde 1953" pelo quadro atual, estudos da Sabesp, da Agência Nacional de Águas (ANA) e da própria Secretaria Estadual de Meio Ambiente - como o intitulado 'Cenários Ambientais 2020', produzido na gestão de outro tucano, José Serra - precisam ser feito e respeitados, com antecedência.
Para o curto prazo, economizar água é o fundamental, diminuindo as perdas dentro do sistema de abastecimento. Para o médio e longo prazo, os planos devem ser outros. E considerando o papel da Billings para a Grande SP. "Avançar no uso da Billings como um manancial de abastecimento seria uma solução mais sustentável de cuidado com a água. Vamos recuperar uma represa que já existe, usar uma fonte de água ao lado da cidade e não gastar bilhões para construir novas represas em locais distantes e que, não necessariamente, trarão os mesmos resultados no tempo que precisamos", analisou Marussia.

http://www.brasilpost.com.br/2015/01/30/uso-billings-crise-agua-sp_n_65…

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