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Violência em Humaitá: "Morre Ivan Tenharim"

Combate Racismo Ambiental - http://racismoambiental.net.br/
Autor: Ivã Bocchini
26 de dez de 2013

Morreu no último dia 03 de dezembro o cacique da Aldeia Kampinhu'hu Ivan Tenharim aos 45 anos de idade. Ivan era filho de Kwahã e neto de Ariuvi. Pertencia, portanto, a linhagem dos maiores guerreiros da história dos Tenharim. Se não bastasse a importância do cacique para a nação Tenharim, as circunstâncias da morte trouxeram tristeza e revolta. Ivan foi encontrado ainda com vida às margens da BR 230, Rodovia Transamazônica, pelo seu sobrinho Marcos no caminho entre o Distrito de Matupi (km 180) e a aldeia no dia 02. O cacique estava desacordado com inúmeros hematomas e ferimentos na cabeça, no entanto a moto, o capacete e a bagagem estavam quase intactos, levantando suspeitas sobre a verdadeira causa da morte, inicialmente apontada como um acidente de trânsito.

Ivan foi levado para Humaitá e, em seguida, removido para Porto Velho onde veio a óbito no dia seguinte. A comoção foi geral. Mais de quinhentos Tenharim e diversos parentes Jiahui e Parintintin compareceram ao velório na Aldeia Kampinhu'hu. Ivan foi enterrado ao lado de seu pai juntamente com seus pertences, como manda a tradição Tenharim. Arcos e flechas, roupas, redes, utensílios diversos foram todos jogados a cova. Os parentes colocaram, ainda, dentro do caixão, roupas próprias que haviam vestido em alguma ocasião que lembrasse Ivan. Eu, por exemplo, coloquei uma camiseta da FUNAI que tinha usado quando fui com Ivan ao seu castanhal Água Boa em 2011.

Ivan era do clã Mutum Nangwera e todo o trabalho de enterro ficou a cargo dos Taravé. Seus cunhados carregaram o caixão, abriram e fecharam a cova em sinal de respeito aos Mutum. Todos choraram compulsivamente por infinitas horas. E certamente ainda choram enquanto escrevo essas linhas. "Perdi meu companheiro!" soluçava João Bosco, cacique da Aldeia Mafuí e grande parceiro de Ivan. Bosco e Ivan casaram vários de seus filhos entre si, gerando um laço indissolúvel de companheirismo e obrigações mútuas. "Mataram meu cunhado!", choravam indignados Duca e Pedro Tenharim, antigas e respeitadas lideranças do clã Taravé.

O filho mais velho de Ivan, Gilvan Tenharim, foi quem chorou com mais força e ininterruptamente. Com maturidade e força impressionantes, Gilvan afirmou que dará continuidade aos trabalhos de seu pai assim que recuperar força após o luto. A mãe de Ivan, Tu'ã, e sua tia, Kururu'í, as mais velhas da família, choraram o morto e participaram de toda a cerimônia. Telma, a viúva, e os filhos Darlene, Gilson, Daiane, Daniela e a pequena Gabriela choravam abraçados uns aos outros. Ninguém pode aceitar que uma pessoa tão boa e com tantos amigos possa ter partido dessa forma.

Ivan era como um chefe de Estado. As autoridades competentes devem ser capazes, agora, de dar uma resposta a altura da importância que o cacique tinha para os Tenharim. A FUNAI irá cobrar a polícia para que haja investigação e seja apontada a verdadeira causa da morte.

Deixamos, aqui, nossos pesares pela partida de Ivan Tenharim. Que siga a luta do povo Tenharim!

Adeus xará! Ji acoeté derehé!

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