Veja, Ambiente, p. 108-109
27 de Jun de 2007
As vinhas do gelo
O aquecimento global altera a qualidade do vinho e empurra os produtores para regiões mais frias
Duda Teixeira
O aquecimento global já altera um dos principais dogmas do mundo do vinho: o de que os produtos de qualidade só podem ser produzidos entre os paralelos 30 e 45. As linhas que cortam o planeta horizontalmente delimitam duas faixas privilegiadas pelo clima, uma no Hemisfério Norte e outra no Sul. Nelas ficam as grandes regiões vinícolas, como Bordeaux, na França, o Vale do Napa, nos Estados Unidos, e o Vale do Hunter, na Austrália. Devido às alterações climáticas, essa predestinação geográfica está passando por uma lenta mudança que espalha os vinhedos em direção a áreas mais frias. Produtores franceses compram terrenos no sul da Inglaterra e australianos impulsionam a produção na Ilha da Tasmânia, ao sul. Países frios que eram impróprios para o cultivo da uva, como Canadá, Dinamarca, Suécia e Noruega, começam a aparecer no mapa. No Chile, duas dezenas de produtores estão investindo em regiões a 4 graus de latitude mais ao sul e em áreas próximas ao Oceano Pacífico, que sofrem a influência da gélida corrente marítima de Humboldt. "Para fazer um vinho fino e elegante, o ideal é estar em zonas frias, e estas estão cada vez mais difíceis de encontrar", disse a VEJA o enólogo Adolfo Hurtado, gerente-geral da Cono Sur, a segunda maior exportadora do Chile.
O calor em excesso prejudica a qualidade do vinho ao acelerar o amadurecimento das uvas, que ficam mais açucaradas, com menos tanino e menos acidez. A maior quantidade de açúcar produz, depois da fermentação, um vinho com teor alcoólico mais alto. No Vale do Napa, o nível médio de álcool subiu de 12,5% para 14,8% em trinta anos. A redução da acidez gera um vinho aguado, e um desequilíbrio na quantidade de taninos pode deixar a bebida amarga. Aparentemente sutis, essas alterações podem produzir efeitos marcantes. "A diferença que a elevação da temperatura causa no sabor é a mesma que existe entre uma cereja fresca e uma geléia de cereja", disse a VEJA o geógrafo americano Gregory Jones, da Universidade Southern Oregon. Um estudo coordenado por Jones mostrou que, em 27 regiões produtoras de vinho, o aumento de temperatura deve ser, em média, de 2 graus até 2049.
Além do aumento das temperaturas, regiões produtoras tradicionais podem enfrentar também secas mais intensas e prolongadas. A alternativa para enfrentá-las seria a irrigação - com o conseqüente aumento de custos, em especial na Europa. "Água mais cara certamente elevaria muito o custo do vinho", diz a portuguesa Marta Agoas, enóloga da vinícola Dão Sul, que tem vinhedos em Portugal e no Brasil. A empresa está fazendo experimentos para se adaptar às condições projetadas para um futuro nada distante. Seus técnicos testam raízes mais resistentes a secas e uvas que suportam melhor o calor, como a syrah. Em outros países, produtores trocam a pinot noir, adaptada a uma temperatura média de 15 graus, pela cabernet sauvignon, que suporta até 19 graus.
Entre as regiões mais promissoras está a Tasmânia, na Austrália, país que enfrenta a pior seca dos últimos 100 anos. A produção de vinhos começou na região na década de 70. Hoje, há 82 vinícolas na ilha, sendo que a grande maioria delas entrou no mercado nos últimos dez anos. No sul da Inglaterra, país não exatamente conhecido como produtor de vinhos, já existem 23 vinícolas nas proximidades das cidades de Kent e Sussex. Na Noruega, a produção de vinhos tem apenas quinze anos. Em um período pouco maior, o número de vinícolas na Holanda quintuplicou. As novas fronteiras do vinho não são um resultado benigno das mudanças climáticas, mas, sim, da incrível capacidade de adaptação do ser humano a novas condições. Onde houver terra para plantar e truques para contornar os obstáculos da natureza, algo será cultivado. Isso merece um brinde, nem que seja com chardonnay da Tasmânia.
Veja, 27/06/2007, Ambiente, p. 108-109
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