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10 de Mai de 2022
Vídeo com 'verdades sobre Brasil no meio ambiente' tem dados falsos e descontextualizados
Por Carol Macário
Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
10.maio.2022
Circula nas redes sociais um vídeo que mostra supostas verdades sobre o Brasil relacionadas ao meio ambiente. Na gravação, cuja primeira imagem é do presidente Jair Bolsonaro (PL) fardado junto a um felino, são exibidas cenas de natureza. Em inglês, um narrador diz que 66% do território brasileiro está totalmente conservado e que 84% da Amazônia brasileira está preservada. Também afirma que 85% da energia elétrica consumida no país é de fonte renovável e que 14% do território é indígena e preservado, entre outras alegações. O vídeo foi compartilhado pelo próprio Bolsonaro em suas redes sociais na última segunda-feira (9). No post, ele pediu que apoiadores compartilhassem o registro com "amigos do exterior". A reportagem procurou o presidente, e atualizará esta checagem caso haja resposta. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação:
"Você sabia que 66% do território brasileiro está totalmente conservado?"
Conteúdo de vídeo compartilhado no WhatsApp
FALSO
A informação analisada pela Lupa é falsa. Embora 66,3% do território brasileiro seja coberto com vegetação nativa, isso não quer dizer que todo esse espaço seja totalmente conservado. Apenas uma parte dessa vegetação está localizada em áreas legalmente protegidas, ou seja, que não podem ser desmatadas. Se levadas em consideração as Unidades de Conservação (UC), Áreas de Proteção Ambiental (APAs) e Terras Indígenas, apenas 29% do Brasil está de fato protegido contra o desflorestamento.
Um levantamento divulgado em 2021 pelo Projeto MapBiomas - Mapeamento Anual de Cobertura e Uso da Terra no Brasil mostrou que 59,7% do território nacional era de floresta em 2020 - uma diferença de quase 10% a menos em relação ao que existia em 1985.
"Você sabia que esse número [de território totalmente conservado] chega a 84% quando o assunto é a Amazônia Brasileira?"
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EXAGERADO
A informação analisada pela Lupa é exagerada e sem contexto. Embora 82,1% da Amazônia seja coberta por vegetação nativa, nem toda essa área está, de fato, protegida. Se levada em consideração a parte do território que está efetivamente demarcada para fins de conservação e preservação, apenas 62% das florestas remanescentes desse bioma estão em Áreas Protegidas (AP). Esse dado é do mapeamento anual de cobertura e uso da terra desse bioma no Brasil feito pelo MapBiomas.
Esse dado foi apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima em abril do ano passado. Ele afirmou, entre outros pontos, que o Brasil "tem orgulho de conservar 84% nosso bioma amazônico". Na época, a informação também foi classificada como exagerada pela Lupa e pelo Fakebook.eco. A partir de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento acumulado até aquela ocasião era de cerca de 20% da floresta, permanecendo 80% de pé, e não 84%. Pelo próprio sistema do Inpe, no entanto, não é possível distinguir áreas degradadas com árvores em pé das regiões que estão, de fato, preservadas.
Vale pontuar que o desmatamento em 2021 na região foi o maior dos últimos 10 anos e aumentou 29% em relação a 2020. Um levantamento feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) mostrou que foram destruídos 10.362 quilômetros quadrados de mata nativa, o que equivale a metade de Sergipe.
Além disso, o montante desmatado vem crescendo ano a ano. Entre 1985 e 2020, a Amazônia brasileira perdeu 45,2 milhões de hectares de vegetação nativa, o que equivale a 11,6% da sua cobertura original.
"[Você sabia que] 85% da energia elétrica consumida em todo o Brasil vem de fontes renováveis?"
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VERDADEIRO, MAS
A informação analisada pela Lupa é verdadeira. Se levado em consideração apenas o conjunto de fontes disponíveis para a geração de energia elétrica, 84,8% são provenientes de fontes renováveis (página 39). Segundo o Balanço Energético Nacional referente ao ano 2020 e divulgado no ano passado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 65,2% desse total é gerado por hidrelétricas. Biomassa (9,1%) e energia eólica (8,8%) aparecem em segundo e terceiro lugares.
Contudo, se levada em consideração a matriz energética, ou seja, as fontes de energia para geração de eletricidade e também para uso em diferentes propósitos, como movimentar carros e preparar comida, por exemplo, apenas 48,4% são de fontes renováveis (página 12). Essa média é ligeiramente maior que a do resto do mundo, cuja utilização de fontes renováveis corresponde a 46,1%. No Brasil, a maior parte da matriz energética é formada por fontes não-renováveis (página 16) como petróleo e derivados (33,1%), gás natural (11,8%) e carvão mineral (4,9%).
"Usando apenas 7% do nosso território para a agricultura"
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VERDADEIRO, MAS
A informação analisada pela Lupa é verdadeira, mas está fora de contexto. Embora 6,6% do território nacional seja usado para agricultura, a área destinada à agropecuária (cultivo de plantas e criação de animais) é de 30,9%. Segundo levantamento de 2021 feito pelo MapBiomas, essa área corresponde a 263 milhões de hectares, maior que os espaços legalmente protegidos, como Unidades de Conservação e Terras Indígenas, entre outras, que somam 259 milhões de hectares - ou 29%, como explicado acima. Só as pastagens, por exemplo, ocupam 18,3% do território nacional.
"Enquanto 14% [do Brasil] é território indígena protegido"
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VERDADEIRO, MAS
A informação analisada pela Lupa está fora de contexto. O total de terras indígenas no país corresponde a 13%, segundo cruzamento de dados recentes do projeto Terras Indígenas do Brasil, do Instituto Socioambiental, e da pesquisa Povos Tradicionais e Biodiversidade no Brasil, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Segundo estudo feito pela MapBiomas que comparou imagens de satélite entre 1985 e 2020, as áreas mais preservadas do Brasil foram justamente as terras indígenas - tanto as já demarcadas quanto as que ainda esperam por demarcação.
Apesar disso, nos primeiros dois anos do governo de Jair Bolsonaro, as invasões a terras indígenas aumentaram 137%. De acordo com o relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil - dados de 2020, publicados em outubro do ano passado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) -, foram "263 casos de invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio indígena" (página 101). Um aumento em relação a 2019, quando ocorreram 256 casos do tipo.
Além disso, a atual gestão usa manobras, como reanálise de processos demarcatórios em distintos órgãos federais e mudanças na composição dos grupos de trabalho, para travar as demarcações de terras indígenas. Em abril deste ano, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma reportagem na qual denuncia uma suposta ação da Advocacia Geral da União (AGU) para garantir a mineração em territórios indígenas que ainda não foram efetivamente demarcados.
"[Você sabia que] Os países do G20, responsáveis por 80% do PIB mundial, também são responsáveis por 78% do monóxido de carbono emitido na atmosfera?"
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VERDADEIRO, MAS
A informação analisada pela Lupa é verdadeira, mas está sem contexto. O relatório de 2019 sobre a Lacuna das Emissões, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), indicou que, juntos, os países que fazem parte do G20 foram responsáveis pela emissão de 78% dos gases de efeito estufa. Vale pontuar que o Brasil faz parte do G20. Quando o documento foi divulgado, a organização chamou a atenção para o Brasil e para a "tendência recente de aumento do desmatamento". Segundo o relatório, as emissões de CO2 estariam pelo menos 15% acima da meta de redução no país.
"Brasil é responsável pela emissão [de gases de efeito estufa] de apenas 2,9%"
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SUBESTIMADO
O dado analisado pela Lupa está subestimado. Em outubro de 2021, o projeto Carbon Brief publicou um relatório sobre a emissão de carbono em todo o mundo entre 1850 e 2021. O Brasil foi o quarto maior responsável pelo aquecimento global nesse período, com 5% do total das emissões. Estados Unidos (20%), China (11%) e Rússia (7%) ficaram à frente.
Essa pesquisa levou em consideração tanto as emissões de queima de combustível fóssil, como também as mudanças no uso do solo, produção de cimento e desmatamento desde o ano 1850.
O dado de 2,9% corresponde a um levantamento antigo, publicado em 2018 pelo projeto Climate Watch. Vale ainda pontuar que, em 2020, as emissões brasileiras de gases de efeito estufa cresceram 9,5% - no resto do mundo, as emissões caíram em quase 7% em razão da pandemia da Covid-19. Segundo estudo feito pelo Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg), do Observatório do Clima, a alta no desmatamento, em especial na Amazônia, colocou o Brasil na contramão do planeta.
Esta verificação foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.
Editado por: Maurício Moraes
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