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A vida se multiplica no fundo das cavernas

OESP, Geral, p. A14
12 de Set de 2004

A vida se multiplica no fundo das cavernas
Cerca de 30 pesquisadores brasileiros estudam as milhares de espécies desse peculiar ecossistema

Evanildo da Silveira

Numa de suas frases mais famosas, o Barão de Itararé, codinome do humorista Aparício Torelly (1895-1971), ensinou que de onde menos se espera daí mesmo é que não sai nada. Pois no que diz respeito à vida na Terra, um dos locais onde menos se esperaria encontrá-la em abundância seria no interior escuro e com pouco alimento das cavernas. Mas não é assim. Nelas vivem milhares de espécies que desmentem o dito do Barão. No Brasil, aos poucos, a ciência começa, literalmente, a trazer à luz os animais que vivem nesses ecossistemas peculiares.
Isso ocorre graças ao trabalho de uns poucos biólogos especializados em pesquisar a biodiversidade das cavernas. São os bioespeleólogos, que não passam de 30. "Ainda somos poucos estudando a biodiversidade cavernícola no Brasil", diz a bióloga Eleonora Trajano, da Universidade de São Paulo, uma das pioneiras da bioespeleologia no País. "Começamos tarde, na década de 70, enquanto na Europa e nos Estados Unidos se estuda fauna de caverna desde 1830."
Podem ser poucos os pesquisadores, mas eles vêm realizando um trabalho importante de levantamento e descrição de novas espécies subterrâneas. Um exemplo é Rodrigo Lopes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que acaba de divulgar os resultados de um trabalho de quatro anos. Entre 1999 e 2003, ele escarafunchou 113 cavernas espalhadas pelo Brasil. "Encontramos 3.173 espécies, das quais cerca de 50 eram desconhecidas da ciência", conta Lopes.
Desconhecimento - De acordo com ele, esse número revela quanto ainda se desconhece da fauna cavernícola brasileira. "A última lista, feita pelo pesquisador Ricardo Pinto da Rocha, da USP, que contabilizava os animais descobertos entre 1907 e 1994, continha 613 espécies", explica Lopes. "Desses, um pouco mais de 500 era de invertebrados."
Na verdade, os animais subterrâneos, que podem ser vertebrados ou invertebrados, se dividem em três tipos: troglóbios (vivem exclusivamente nas cavernas), troglóxenos (têm de sair para se alimentar) e troglófilos (podem viver tanto exclusivamente dentro como fora delas). "Das espécies subterrâneas conhecidas, cerca de 85% são de troglófilos, 10%, de troglóbios e o restante, de troglóxenos", explica Eleonora.
Entre os primeiros e os segundos, predominam os invertebrados, como aracnídeos (aranhas, opiliões) e insetos (grilos). Há, no entanto, também vertebrados entre os troglóbios, como peixes, que vivem em lagos e rios dentro de cavernas. Já foram registradas no Brasil 18 espécies desses peixes, 7 das quais descritas por Eleonora. "É uma das maiores biodiversidades de peixes troglóbios do mundo", diz a pesquisadora da USP.
"Nosso país só perde para o México e o sudeste asiático."
Megadiversidade - Dos troglóxenos, por sua vez, o exemplo clássico são os morcegos que vivem em cavernas, dos quais há 40 espécies no Brasil. Existem também algumas dezenas de outros mamíferos, como roedores (ratos, pacas, cuícas), além de aves, anfíbios e répteis. "A megabiodiversidade do País se reflete nas cavernas, principalmente entre os troglóxenos", explica Eleonora. "Já com os troglóbios isso não ocorre no Brasil. Temos relativamente poucas dessas espécies, não mais do que cem."
Diante de bichos e nomes estranhos como esses, alguém poderia se indagar sobre a importância de pesquisá-los. O que leva cientistas a se embrenhar em cavernas escuras, ambientes inóspitos, úmidos e abafados, carregados de equipamentos pesados, se arriscando a quedas ou até a ficar preso por uma inundação repentina da caverna, causada por chuvas, da qual só tomam conhecimento quando já é tarde?
Pedro Gnaspini, da USP, que já ficou preso por horas dentro de uma caverna, por causa de uma inundação que subiu cinco metros em cinco minutos, responde. "Queremos conhecer esses bichos para poder preservá-los", diz.
"Eles e o ambiente onde vivem são frágeis. Qualquer alteração ou interferência pode levá-los à extinção."
Embora a preservação, dessas como de outras espécies e ambientes, seja importante por si, o objetivo dos bioespeleológos vai além dela. "Cada caverna é um grande laboratório da evolução das espécies", explica Gnaspini, que se dedica a estudá-las há 20 anos e já descobriu várias espécies.
"Podemos comparar os animais que vivem ali com os seus parentes do exterior.
É possível verificar as mutações que sofreram, como a perda dos olhos e a despigmentação dos troglóbios."
Ritmos - Os campos de estudo são muitos. A mulher de Gnaspini, Sonia Hoenen, por exemplo, pesquisa desde 1990 os ciclos biológicos dos troglóbios. Todos os seres vivos têm ritmos, períodos de atividade e inatividade (sono), determinados pelo ciclo claro-escuro do dia e da noite. É o que se chama relógio biológico, que nos leva, por exemplo, a ter sono de noite e estar em vigília de dia.
O que Sonia quis verificar é se os troglóbios, que vivem há milhares ou milhões de anos na escuridão, teriam mantido ou perdido seu relógio biológico. "Descobri que algumas espécies o mantiveram e outras o perderam", conta. "Essas últimas mantêm períodos de atividades e sono totalmente irregulares. Podem ficar 2, 3, 10 ou 18 horas em atividade, sem nenhuma explicação aparente."
Apesar dos esforços desses poucos especialistas, ainda há muito trabalho a ser feito. Das cerca de 3 mil cavernas registradas no Brasil, menos de um terço foi estudado. Há uma enorme riqueza biológica a ser descoberta. Mas é preciso se apressar, porque grande parte dela já está em perigo antes mesmo de ser conhecida. "Destruição de cavernas por mineração, hidrelétricas, desmatamento do entorno, poluição, tudo isso causa diminuição das populações, já reduzidas, de cavernícolas, ameaçando sobretudo os troglóbios", alerta Eleonora. "É preciso estudá-los para conservá-los."

Cheio de equipamentos e sob as águas, o trabalho é mais árduo
Um grupo reduzido realiza mergulhos dentro de grutas atrás de peixinhos albinos
Dentro do reduzido grupo de bioespeleólogos brasileiros há ainda um subgrupo de pesquisadores mais radicais, superespecializados, que, literalmente, vão mais fundo em busca de conhecimento sobre espécies cavernícolas. São os que mergulham em rios e lagos dentro de cavernas. Com equipamentos que podem pesar 100 quilos, eles enfrentam águas muitas vezes turvas e labirintos de canais subaquáticos atrás de peixinhos albinos e sem olhos.
Assim como seus colegas que pesquisam cavernas secas, os bioespeleólogos mergulhadores nunca trabalham sozinhos. É sempre preciso ter alguém para ajudar ou ir atrás de socorro se houver algum problema. "Algumas cavernas têm obstáculos difíceis de ultrapassar (cachoeiras, abismos) e quando vamos estudar os animais temos de levar vários apetrechos que não são fáceis de carregar (cordas, escadinhas, bóias)", explica Maria Elina Bichuette, da Universidade de São Paulo, que já mergulhou em várias cavernas do Vale do Ribeira (SP). "Por esse motivo, sempre trabalhamos em grupo."
Por segurança também, todos os equipamentos que permitem a sobrevivência embaixo d'água, como os cilindros de ar e fontes de luz, são levados em duplicata. Além disso, eles têm de carregar toda uma parafernália de aparelhos para a pesquisa propriamente dita. "Para um trabalho com ecologia de peixes, levamos redes de mão, aparelhos para medi-los e pesá-los, para analisar as características físico-químicas da água, peneiras para coleta, potes para colocar os peixes", relata Maria Elina.
Assim equipados, os bioespeleólogos ficam até seis horas mergulhados na água subterrânea. Na hora de subir, não podem se esquecer de que acima da água há o teto da caverna. É preciso nadar de volta até o local onde se mergulhou, às vezes a 200 metros de onde estão.
"É um ambiente árduo para trabalhar", afirma Edmundo Costa, que dá aulas de biologia e pesquisa em cavernas da região de Bonito, em Mato Grosso do Sul.
"Mas também é frágil do ponto de vista biológico. Por isso, é importante pesquisar para saber como agir para protegê-los." (E.S.)

OESP,12/09/2004, Geral, p. A14

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