O Globo, Rio, p. 12-13
13 de Dez de 2012
A vida no meio dos escombros
Sem opção, famílias voltam a morar em casas interditadas em área de risco de Teresópolis
TAÍS MENDES
tais@oglobo.com.br
Destinado a desaparecer. Casas em ruínas em Campo Grande, Teresópolis: imóveis interditados são alugados por R$ 350. O bairro vai ser transformado numa área de contenção de cheias
Acreditando que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, o jardineiro Altair Corrêa de Oliveira, de 45 anos, voltou recentemente para Campo Grande, em Teresópolis, com a mulher e a filha Diana, de 5 anos. O bairro foi o mais atingido na cidade pela enxurrada de janeiro de 2011. A família não recebe aluguel social desde março e não teve mais como pagar por moradia num lugar seguro. Para a área de risco, já retornaram cerca de 50 famílias, que hoje vivem em meio a escombros e possivelmente sobre corpos de vítimas soterradas que nunca foram resgatados. As casas interditadas estão sendo alugadas, em média, por R$ 350 mensais. Nas chuvas de 2011, morreram 391 pessoas no município.
- Cortaram o pagamento sem dizer o motivo. Quando chove, fico com medo e relembro tudo que aconteceu naquela madrugada. Passo a noite vigiando o rio e lamentando não ter para onde fugir - diz o jardineiro.
Altair, que teve a casa destruída pela enxurrada, conta que perdeu 22 pessoas de sua família, mas apenas dois corpos, o da mãe e o de um irmão, foram encontrados. A mulher do jardineiro, Maria Regina, perdeu seis parentes:
- E só consegui enterrar uma delas.
O imóvel interditado onde o casal vive fica na beira do que sobrou daquele trecho do Rio Príncipe. Está cercado de grandes pedras, que servem de esconderijo para cobras.
- Em outros bairros, o aluguel é bem mais caro, e não tenho como pagar - justifica Altair, que na época da tragédia também perdeu o emprego de jardineiro num condomínios vizinho, o Bougainville, devastado pela chuva.
Bairro não tem mais comércio
No bairro, que não tem mais comércio, poucos falam. A maioria se esconde quando vê a chegada de jornalistas.
- Nada muda, e acho que nunca vai mudar. Querem tirar todos nós daqui. Só não sei para onde vão nos levar - diz Amaurino Gonçalves, de 65 anos, apressado para entrar na casa onde vive desde os 5 e que resistiu à enxurrada.
No último dia 4, máquinas e operários do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) retiravam pedras do que sobrou do leito do rio, mas, segundo moradores, o trabalho começou há poucos dias. Entre as pedras, ainda é possível ver objetos das vítimas da tragédia: chinelos, pedaços de roupa, bijuterias... Algumas pedras foram transformadas em memoriais. Nelas foram inscritos com tinta nomes das vítimas e a data da enxurrada: 12 de janeiro de 2011.
- Ninguém aqui esquece mais esse dia. Eu perdi 12 parentes, e de seis deles nunca acharam os corpos. Tem muita gente soterrada debaixo dessas pedras. Agora que começaram a obra no rio, quem sabe os corpos não aparecem? - diz Walace de Oliveira, de 19 anos, que nunca deixou o bairro - A minha casa foi destruída, mas agora alugamos uma mais distante do rio. E pago o aluguel do meu bolso.
Denúncias de que vítimas da enxurrada, que recebem aluguel social para deixar as áreas de risco, estão alugando seus imóveis interditados, entre outras, levaram a Secretaria de Desenvolvimento Social de Teresópolis a fazer o recadastramento das famílias beneficiadas. No total, 3.312 se recadastraram, mas o processo está sendo analisado por uma comissão formada por representantes do poder público e da sociedade civil. De acordo com a secretária Maria das Graças Granito dos Santos, as irregularidades deverão ser corrigidas com o novo cadastramento:
- Não tenho conhecimento de famílias retornando para Campo Grande, mas a Defesa Civil do município está atenta para essa questão. E o recadastramento foi feito justamente para corrigir as irregularidades.
Após a chuva, corrupção
Denúncia sobre o desvio de verba destinada à reconstrução de cidades serranas levou à cassação de prefeitos da região
Uma série de reportagens do GLOBO revelou, em julho do ano passado, a existência de um esquema para desvio da verba destinada à reconstrução das cidades serranas atingidas pela chuva, envolvendo prefeituras e empresas contratadas para prestar socorro às vítimas e fazer obras de recuperação. A tragédia deixou 918 mortos, 215 desaparecidos e milhares de desabrigados.
As denúncias culminaram na cassação dos prefeitos de Teresópolis, Jorge Mário Sedlaceck, e de Nova Friburgo, Dermeval Neto, além de provocar a instalação de duas CPIs para investigar o esquema.
Como mostrou a série "Depois da tempestade, vem a corrupção", um empresário contou em depoimento ao Ministério Público Federal que, na semana da tragédia, um grupo de empresários e funcionários públicos dos dois municípios acertou a divisão dos recursos públicos e ainda o valor da propina que seria paga pelos empresários, prática que já existia anteriormente. Normalmente, os servidores públicos pediam 10% e passaram a exigir 50%. A investigação do MPF apontou ainda irregularidades em licitações.
Um bairro condenado ao desaparecimento
Campo Grande, onde ruínas ainda lembram a tragédia, dará lugar a barragem para contenção de cheias
TAÍS MENDES
tais@oglobo.com.br
RIO - À beira do Rio Príncipe, o bairro de Campo Grande, que existe desde a década de 1940, vai desaparecer do mapa de Teresópolis. Pelos planos do Instituto Estadual do Ambiente, aquela área será transformada numa grande barragem de contenção de cheias. O Rio Príncipe foi canalizado até o bairro da Posse e, segundo Marilene Ramos, presidente do Inea, já foram licitados o restante da canalização e a construção da barragem:
- Aquela área toda coberta de pedras deverá ser desocupada para dar lugar a um lago de amortecimento de cheias. Quando chover forte, as pedras (carregadas pela enxurrada) ficarão retidas na barragem.
Por ser um bairro destinado a desaparecer, o lugar sequer tem sirenes de alerta para dias de chuva forte.
- Fomos abandonados. Quando ameaça chover, eu corro para a casa de amigos, longe daqui. Nem espero cair a chuva. Só voltei porque não tinha mais como pagar aluguel caro em outro bairro - diz Maria Borges, que paga R$ 370 pelo aluguel de uma das casas interditadas.
De acordo com Marilene, apesar da falta de sirenes, quem voltou para Campo Grande não corre risco de ser vítima de deslizamentos na encosta:
- Em Campo Grande, não há sirene, mas há um sistema de alerta, e os moradores são avisados, por celular, pela Defesa Civil municipal.
Ela conta que muitas casas em ruínas ainda estão de pé porque os proprietários negociam as indenizações com o Inea. Em Teresópolis, 70 famílias que tiveram as casas destruídas já foram indenizadas, sendo 30 em Campo Grande. Já os imóveis de outras 85 estão em fase de vistoria e avaliação. Foram 500 famílias cadastradas.
- Quem ainda está lá é porque não negociou as indenizações - diz.
Novas casas ainda nem começaram a ser construídas pelo governo do estado. A previsão é erguer 1.664 unidades na localidade de Fazenda Ermitage.
- Agora é que vou fazer sondagem, topografia, fechar tudo para poder começar a fazer o chamamento das empresas para a construção das moradias - informa o secretário estadual de Obras, Hudson Braga.
Das oito pontes que precisam ser reconstruídas em Teresópolis, apenas uma - sobre o Rio Paquequer - foi concluída.
- Contratei as pontes em caráter de emergência, e o Controladoria Geral da União disse que ponte não era emergência. Os contratos venceram, e colocamos as pontes em licitação. Pulverizaram a obra, e ela não interessou mais às grandes empresas. Tivemos que contratar fornecedores pequenos. Mas, apesar dos problemas, ninguém está sem acesso, e a produção agrícola está sendo escoada sem problema - afirma o secretário.
Segundo o governo, ainda este mês, uma segunda ponte, a do Caleme, será inaugurada. Em janeiro e fevereiro próximos, serão entregues mais quatro. E, em junho de 2013, as duas últimas.
Medo volta a cada chuva
Já os investimentos em contenção de encostas enfrentaram menos problemas. A Secretaria estadual de Obras diz que já foram feitas intervenções nos bairros de Golf, Caleme, Três Córregos, Salaco, Frades e Fisher. Mas, enquanto as obras caminham lentamente, a população vive em alerta a cada chuva que se anuncia. E não é para menos. Pouco mais de um ano após a tragédia de 2011, no dia 6 de abril passado, cinco pessoas morreram em decorrência da forte chuva que caiu. Cerca de 800 ficaram desabrigadas.
- Estão todos aqui em alerta e preocupados com o período de chuvas que se aproxima. Eu perdi minha irmã em 2011, em Campo Grande. A impressão que tenho é que não há mais bairro seguro em Teresópolis - diz Valéria de Oliveira, moradora do bairro do Alto.
Como O GLOBO informou na quarta-feira, a Secretaria estadual de Obras disse que está executando R$ 2,3 bilhões em obras na Região Serrana. Segundo o órgão, de 80% a 90% das intervenções estarão prontas no verão de 2014.
O Globo, 13/12/2012, Rio, p. 12-13
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.