OESP, Geral, p. A20
25 de Set de 2004
A vida na pior área de contaminação do País
População sente os efeitos provocados pelo Aterro Mantovani, em Santo Antônio de Posse (SP)
Silvana Guaiume
Há três anos e meio, um relatório da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) apontou contaminação por solvente da água do poço do Sítio Santa Adélia, vizinho do Aterro Mantovani, em Santo Antônio de Posse, região de Campinas. A família do agricultor Hélio Staiger, porém, continuou consumindo, sem saber, a água contaminada até um ano atrás, quando a Cetesb lacrou o poço. Pouco depois, Staiger descobriu que tem mieloma, um câncer na medula óssea, e precisa de transplante.
Ontem, a secretária municipal de Saúde, Maria Sueli Rocha Longhi, afirmou que a doença de Staiger tem "conexão" com a contaminação, não só pela água, mas pela fumaça produzida nas operações de re-refino de resíduo de óleo em uma refinaria que funcionou no terreno do aterro até 2001, ambos de Waldemar Mantovani. A água foi contaminada pelo solvente 1,2 dicloroetano, considerado cancerígeno.
Maria Sueli acusou a Cetesb de ter sido negligente ao não impedir que os moradores do sítio continuassem consumido água contaminada. A Cetesb alegou que avisou a secretaria sobre a contaminação em abril de 2001 e, portanto, a prefeitura deveria ter tomado providências. Já Staiger revelou que sente muita raiva quando fala sobre o assunto. "Queria sair daqui, mas não tenho para onde ir", lamentou o empregado do sítio.
O pior - O Aterro Mantovani é apontado em um relatório do Ministério Público Federal como o pior caso de contaminação do Brasil. O local abriga declaradas 350 mil toneladas de resíduos industriais despejados por 63 fábricas da região, a maioria de grande porte, entre 1974 e 1987. As 350 mil toneladas já são um número assustador. Mas Maria Sueli comentou que há relatos indicando que essa quantidade seria maior, de no mínimo 500 mil toneladas. O aterro parou de operar em 1987 por determinação da Cetesb, mas a contaminação só começou a ser tratada 14 anos depois, em 2001.
Embora tenha afirmado que toda poluição ambiental é grave, o gerente regional da Cetesb de Campinas, Fernando Carbonari, reconheceu que o aterro é a maior contaminação em volume de sua região, que compreende 36 municípios e 53 áreas contaminadas.
Das 63 indústrias que despejaram detritos no local, 48 assumiram o problema e custearam os R$ 6 milhões gastos até agora com medidas de emergência de contenção dos poluentes (organoclorados, solventes e metais pesados, entre outros). As outras 15 fábricas estão sendo acionadas em uma ação civil pública do Ministério Público Estadual de Jaguariúna.
Entre as que não querem pagar a conta está o Grupo Ibrasol, da região de Araras, segundo Carbonari responsável por 30% da contaminação do aterro. Em 1996, Mantovani foi condenado a custear o tratamento do terreno, mas os bens em seu nome não cobriam o valor necessário.
No entorno vivem 35 pessoas, conforme Maria Sueli. Há um ano, as empresas passaram a fornecer água para quatro sítios, incluindo o Santa Adélia. A secretária disse que as indústrias precisam custear exames e tratamentos dos moradores do bairro. Staiger se trata no Hospital das Clínicas da Unicamp e contou que nunca recebeu apoio das empresas. Carbonari alegou que não recebeu notificação da secretaria de que a doença do agricultor foi provocada pela contaminação. Ele informou, ainda, que a empresa de engenharia ambiental CSD Geoklock, contratada pelas indústrias, entregará um projeto, até 31 de outubro, com pelo menos duas soluções definitivas para o saneamento do aterro.
OESP, 25/09/2004, Geral, p. A20
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