O Globo, Especial, p. 4-5
Autor: KUNKEL, Kenneth
05 de Jun de 2010
A vida entre o frio polar e calor infernal
Entrevista: Kenneth Kunkel
Diretor - executivo do Instituto de Pesquisas do Deserto, nos EUA, e colaborador dos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, vinculado à ONU, o americano Kenneth Kunkel não descreve o melhor dos mundos. O planeta analisado em seus estudos está repleto de extremos. Uma mesma região pode ser desértica em algumas estações e assolada por enchentes em outra parte do ano. Invernos rigorosos como o que afetou o Hemisfério Norte, seis meses atrás, terão novas edições. Ondas de calor tampouco serão surpresa em toda a Terra - no Brasil, o fenômeno seria uma ameaça à saúde nas metrópoles.
Imagens do Rio debaixo das águas de uma tempestade ou de Vancouver sem neve para as Olimpíadas de Inverno são o prenúncio de um fenômeno inegável, mas ainda carente de reação à altura: sem medidas expressivas, o aumento da temperatura global sairá de controle. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, concedida durante o Workshop Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável, promovido pelo Instituto Tecnológico Vale, Kunkel conta como seria este planeta desgovernado, resultado da inação de líderes que relutam em substituir os combustíveis fósseis e reduzir as emissões de carbono.
O Globo: Que eventos extremos climáticos podemos esperar para as próximas décadas?
Kenneth Kunkel: Comecemos por um óbvio: as ondas de calor serão mais comuns nos polos e no Hemisfério Norte. Trata-se de um fenômeno que causa graves problemas de saúde, porque a população de regiões polares e temperadas não está acostumada a um tempo tão quente. Em 1995, uma onda de calor de três ou quatro dias matou 700 pessoas em Chicago. Em 2003, outra onda, ainda mais intensa, matou dezenas de milhares na Europa. Em países tropicais do sul, como o Brasil, é difícil mensurar o impacto. Por ser um país tropical, as pessoas estão acostumadas com o calor. Ainda assim, há danos relevantes à saúde dos habitantes de grandes cidades, como Rio e São Paulo. As metrópoles retém mais calor. Sair de casa não significa encontrar uma temperatura mais amena.
As enchentes também vão se tornar mais comuns?
Kunkel: Certamente. Teremos mais chuvas de grandes dimensões, como aquela que o Rio experimentou em abril. Esta frequência aumentará bastante em todo o planeta. O motivo é simples: quando a temperatura da Terra aumenta, o mesmo ocorre com o oceano. Mais água evapora, e a sua maior concentração na atmosfera gera mais chuvas. Este será um grande problema nos trópicos. Nos EUA e na Europa, o aumento da quantidade de tempestades também se tornou muito evidente nos últimos 20 anos.
E nas regiões desérticas?
Kunkel: Ironicamente, há, também, uma expectativa de que as secas também se tornem mais frequentes. Parece incoerente esperar aumentos de dois fenômenos tão opostos. A explicação é que as precipitações, embora mais intensas, ocorrerão em menos oportunidades. Portanto, secas e chuvas podem ocorrer no mesmo lugar. E regiões já desérticas, como o norte da África e o sudoeste dos EUA, ficarão ainda mais secas.
Outros desastres climáticos podem ocorrer com mais frequência? Os furacões, por exemplo?
Kunkel: Os modelos climáticos não mostram com clareza se haverá mais furacões, mas nossa projeção é de que os (furacões) fortes poderão se intensificar ainda mais. Estamos falando de um fenômeno sensível às condições meteorológicas. O El Niño provoca ventos que impedem a formação de furacões no litoral americano banhado pelo Atlântico.
No fim do ano passado, o Met Office, serviço britânico de meteorologia, previu que 2010 será o mais quente dos últimos 160 anos. É culpa do El Niño?
Kunkel: Sim, em grande parte. Basta lembrarmos que 1998, que ainda detém o recorde de ano mais quente, também teve El Niño. O aquecimento das águas do Pacífico, promovido por este fenômeno climático, é o suficiente para deixar todo o globo mais quente. Este ano nem está perto de terminar, mas já vimos meses muito mais quentes do que a média.
Mas, ao mesmo tempo que prevemos um ano muito quente, o Hemisfério Norte saiu de um inverno particularmente rigoroso.
Kunkel: Esta diferença é normal. Mesmo que tivéssemos uma onda de calor muito grande na Europa, por exemplo, haveria, ao mesmo tempo, outra área do planeta passando muito frio. Há sempre um equilíbrio. Algumas vezes, tomamos um exemplo regional para questionar, de forma errada, a existência do aquecimento global. Em Washington, por exemplo, tivemos grandes geadas, mas, na mesma época, outras regiões registravam temperaturas superiores à média. Em Vancouver não havia neve suficiente para começar os Jogos Olímpicos. Não podemos interpretar só o que acontece onde moramos. Devemos falar sobre o mundo inteiro.
O último inverno no Norte foi um caso isolado ou deve se repetir?
Kunkel: Ocasionalmente teremos invernos rigorosos como o mais recente no Hemisfério Norte, mas não com muita frequência. A quantidade de ondas de frio diminuiu radicalmente desde meados dos anos 90. É, por isso, algo que atrai muita atenção.
Depois de 300 anos de alta atividade solar, o planeta está, desde 1985, em um período em que esta atividade é menor. Por que, mesmo assim, registramos fenômenos tão característicos do aquecimento global?
Kunkel: A baixa atividade solar provoca impacto no sistema climático, mas é menos determinante do que a quantidade de CO2 já existente na atmosfera. Até agora, portanto, ainda não vimos mudanças suficientemente grandes nessa chegada de energia para superar as consequências provocadas pelos gasesestufa.
Apesar de vivermos uma série de situações atípicas, como as chuvas que inundaram o Rio em abril, os meteorologistas hesitam em atribuir estes fenômenos ao aquecimento global. Este termo deve mesmo ser reservado a eventos que só ocorrerão daqui a algumas décadas?
Kunkel: É fácil dizer que a emissão de gases-estufa é a causa da temperatura global. Mas, estudando os extremos climáticos, você começa a sentir dificuldades em estabelecer essa relação. Por definição, os extremos não ocorrem sempre. É possível relacionar, por exemplo, o furacão Katrina e o aquecimento global? Pelas séries históricas, não. Talvez possamos dizer que temos mais furacões hoje do que há 20 anos. E isso seria um efeito do aquecimento global. O mesmo vale para a precipitações mais intensas. Talvez estejamos vivendo uma flutuação natural.
Um freio ao aquecimento global e aos eventos extremos seria conter o aumento da temperatura global em até 2 graus Celsius. É possível cumprir esta meta?
Kunkel: Este é mesmo o número mágico. Creio que a única saída para evitar um aumento da temperatura global superior a este índice é uma ação conjunta. Se os EUA não tomarem medidas efetivas, se a China não reduzir a emissão de combustíveis fósseis, nada acontecerá, até porque eles são os maiores emissores de gases-estufa. E, mesmo que os países desenvolvidos alcançassem emissões zero - o que não vai acontecer -, a meta não seria atingida sem Brasil e Índia, que estão entre as principais nações em desenvolvimento. Sou extremamente pessimista com o nosso futuro, porque os EUA demonstram muito pouca vontade política.
Quando alguém compra um veículo, isso simboliza mais dez ou 12 anos de um carro emitindo combustíveis fósseis. Este é um exemplo simples de como todos os dias tomamos decisões determinantes, que nos afastam do resultado que queremos atingir.
O Globo, 05/06/2010, Especial, p. 4-5
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