VOLTAR

Vida após a morte

FSP, Mais, p. 10
11 de jun de 2006

Vida após a morte
Cientistas começam a montar o primeiro mapa das florestas secundárias da Amazônia, o que deve mudar o cálculo de desmatamento

Rafael Garcia
Enviado especial à Amazônia

Um fator até pouco tempo atrás negligenciado deve entrar na conta do desmatamento da Amazônia dentro de alguns anos. As chamadas florestas secundárias, produto da regeneração da mata após a derrubada, devem começar a ser contabilizadas pelo Prodes, o Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia.
O rebrotamento de florestas não reconstitui toda a biodiversidade, mas pode ser relevante no longo prazo. Sabe-se, por exemplo, que florestas secundárias podem reabsorver até 15% do carbono emitido pela perda da mata primária -o que ajuda a reduzir o efeito estufa. Só que esse dado não entra na conta das 200 milhões de toneladas de carbono que a destruição da Amazônia lança no ar por ano porque ninguém ainda mediu a capacidade de "ressurreição" da floresta.
"Hoje o Prodes está simplesmente mapeando o quanto é derrubado e considera que aquela área está desmatada para sempre, só que isso não é verdade", diz Cláudio Aparecido de Almeida, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que está se lançando à tarefa. "Há estudos mostrando que alguns proprietários de terra abandonam certas áreas ao longo do tempo e elas podem começar a regenerar vegetação."
Não se sabe ainda com que intensidade esse fenômeno acontece na Amazônia, que ainda preserva cerca de 81% de mata virgem. "Um trabalho feito na região de Altamira (PA) viu que até 56% das áreas desmatadas já tinham florestas secundárias", diz Dalton Valeriano, coordenador do Prodes.
Entender o que acontece nas florestas secundárias também é importante porque elas podem ser cortadas de novo e suprir parte da demanda por madeira e voltar a receber pasto. Isso já pode estar ocorrendo.
Os fatores que influenciam no grau de regeneração das matas, porém, são inúmeros, e pode não ser tão simples prever como uma área desmatada e depois abandonada se comportará. Tudo isso depende, por exemplo, do tipo de uso que a terra teve antes. Um terreno desgastado por pastagens por muito tempo pode se recuperar mais lentamente do que outro submetido à agricultura com rotação de culturas.
A proximidade do trecho desmatado com áreas de floresta primária também conta. Terras muito isoladas não estão sujeitas a processos de polinização e semeadura naturais. "Se houver um banco de sementes próximo, em uma uma área florestal ainda grande, com pássaros, ou algum vetor que possa trazer sementes, ela pode recuperar parte da biodiversidade", explica Almeida.
A absorção de carbono pode ganhar força se o mercado de créditos de carbono incluir a regeneração de florestas em futuras negociações internacionais. Donos de terras desmatadas que mantiverem um pouco de mata secundária poderiam ganhar para preservá-la.

Quatro dias no arco da tragédia

Do enviado à Amazônia

Quem foi tu?", entoa o ornitólogo Mario Cohn-Haft ao ouvir o canto de um pássaro logo antes de embarcar em um pequeno avião no aeroporto de Marabá, no sudeste do Pará. A ave, em uma árvore ao lado, é um anu-branco. "Esse pássaro é natural do cerrado, mas com o desmatamento começou a entrar em áreas de bioma amazônico", explica o pesquisador do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia).
Cohn-Haft embarcou no pequeno avião Bandeirante do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que sobrevoaria entre os dias 2 e 6 de junho toda a extensão do chamado arco do desmatamento, a região formada pelas florestas de Rondônia, matas de transição de Mato Grosso e Tocantins, além do sudeste do Pará.
O canto do anu-branco foi o prenúncio daquilo que os passageiros e a reportagem da Folha estavam por ver naquele dia, voando no nordeste mato-grossense e no Tocantins: pasto e mais pasto onde antes havia matas de transição, entre a Amazônia e o cerrado.
O objetivo do Inpe com o vôo era fazer videografias -filmagens contínuas de algumas rotas na região, que depois podem ser usadas para comparação com as imagens de satélite. Ao emparelhar os dois dados, os pesquisadores podem tirar dúvidas sobre informações que parecem ambíguas. Vista de longe, uma área de cerrado pode se parecer com floresta desmatada, mas o sobrevôo oferece o tira-teima.
"A câmera do avião capta detalhes de 1 metro, em média, enquanto os satélites disponíveis registram apenas seções de imagem com mais de 30 metros", explica Carlos Alberto Steffen, do Inpe, antes do pouso em Palmas, no Tocantins.
No sobrevôo do dia seguinte, o avião cruza o rio Araguaia para revelar algumas áreas de transição preservadas e mais pasto. Pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi estão de olho nessa região, para identificar áreas de interesse para a conservação de biodiversidade que estão fora de proteção oficial -antes que o trator chegue até elas. Em algumas áreas de mata, clareiras de desmatamento parecem surgir sem conexão com atividade humana, mas logo as pastagens surgem e se fundem com a BR-158, estrada que trilhou a entrada da pecuária na região.
Só no terceiro dia de vôo a paisagem se torna um pouco mais agradável aos olhos, com o avião cruzando o Parque Indígena do Xingu. A área tem vasta extensão de mata preservada, tudo isso perigosamente perto da BR-158 -cuja conclusão do asfaltamento, sob critérios que receberam críticas de ambientalistas, é meta do governo.
Quando todos já estão acostumados ao verde-escuro da floresta, porém, mais clareiras isoladas começam a surgir. Desta vez as áreas são maiores e guardam as marcas do cultivo da soja. Durante um breve pouso para abastecimento na cidade de Sinop, no centro-norte do Mato Grosso, mais um anu-branco canta para os visitantes.
Em algumas poucas áreas abertas, ainda sem cultivo, listras escuras revelam as chamadas leiras, restos de madeira cortada depositados em fileiras pelo terreno desmatado. Secando ao sol, aguardam agosto, mês de início das queimadas.
No sobrevôo até Vilhena, sul de Rondônia, alguns trechos de mata preservada logo terminam com o pouso em uma cidade que, em meio a pastos e lavouras, mais parece uma vila do Sudeste do que uma cidade amazônica. Caminhonetes e restaurantes exibem adesivos de uma campanha publicitária institucional: "Você já comeu hoje? Agradeça ao agricultor".
Almeida, do Inpe, estranha o céu limpo na cidade. "Em setembro passado, a cidade estava coberta de fumaça."
No último de dia de sobrevôo acompanhado pela Folha, um pouco mais de verde-escuro. Um sobrevôo sobre terras indígenas em torno do rio Aripuanã encanta os pesquisadores.
Cohn-Haft tira fotos em busca de áreas que mereçam uma visita em terra. Formações de vegetação diferenciadas perdidas no meio da imensidão podem ser o lar de muitas espécies desconhecidas.
Ao sobrevoar o rio Juruena, mais a leste, alguns dos passageiros já sabiam que ele era a notícia do dia. Naquela tarde de 5 de maio, dia do Meio Ambiente, aquela região era declarada área de preservação ambiental pelo governo federal.
À tarde, um pouso em Porto Velho, a capital rondoniense, encerrava a viagem para alguns dos passageiros. No ar, ao lado do hotel, fumaça e cheiro de mato queimado. "Deve ser um terreno baldio queimando", conclui o jornalista, avisado de que a estação de queimadas ainda não havia começado. "Não", diz o piloto. "É queimada mesmo. Nós vimos na hora do pouso." O progresso da agropecuária, pelo visto, não tem calendário fixo. (RG)

FSP, 11/06/2006, Mais, p. 10

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.