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VICENTE CAÑAS

Diário de Cuiabá-MT
Autor: CARLA PIMENTEL
06 de dez de 2001

Após 14 anos, Justiça determina que os acusados devem ir a júri

Missionário jesuíta foi assassinado em 1987, à beira do rio Juruena, com pancadas na cabeça e facadas

O juiz da 2ª Vara da Justiça Federal, Jeferson Schneider, pronunciou os acusados do assassinato do missionário jesuíta Vicente Cañas, ocorrido na reserva indígena Salumã, em Juína (a 737 km de Cuiabá). A decisão coloca o caso mais perto do julgamento, a ser realizado mediante a convocação de júri popular. O reconhecimento, pela justiça, do crime de homicídio duplamente qualificado, acontece 14 anos depois da morte do religioso, que atuava no Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Foram pronunciados Ronaldo Antônio Osmar, Pedro Chiquetti, Martinez Abadio da Silva e José Vicente da Silva. A denúncia elaborada pelo Ministério Público descreve que, entre os dias 6 e 7 de abril de 1987, Vicente Cañas foi morto na margem esquerda do rio Juruena - um local denominado Caixão de Pedra, situado na reserva dos Enawenê-Nawê.

O documento acusa que o "Velho Martinez" - como era conhecido - ao lado de José Vicente da Silva e outros pistoleiros não identificados, assassinaram o missionário. A "missão" foi cumprida a mando do delegado Ronaldo Antônio Osmar, do fazendeiro Pedro Chiquetti, Camilo Carlos Óbici e Antônio Mascarenhas Junqueira.

Ainda conforme a denúncia, os executores aproximaram-se do barraco através de uma picada feita na fazenda Londrina - e posteriormente localizada pelos investigadores - e encontraram Cañas banhando-se no rio. Desferiram contra ele duas porretadas, com uma borduna, e duas facadas.

Fazendo um resgate de todo o episódio, a sentença, assinada pelo juiz federal em 7 de novembro deste ano, aponta que Martinez chegou a confessar ter recebido dinheiro do delegado Ronaldo Osmar para realizar a tarefa - que, por sua vez, havia armado o assassinato a mando de Chiquetti, entre outras pessoas.

A fazenda Londrina, aliás, foi uma das propulsoras do conflito. Segundo o secretário nacional do Cimi em Brasília, Sebastião Carlos Moreira, a propriedade pertencia, na época, a Pedro Chiquetti, que vinha realizando desmatamentos na área dos Enawenê-Nawê.

Agora, o processo está nas mãos do Ministério Público Federal. Em contato com o MP, Sebastião Moreira afirma que o órgão está finalizando uma leitura detalhada de todo o processo. Desta fase, a pronúncia dos réus segue para a publicação. A defesa tem então 15 dias para entrar com recurso e, caso contrário, fica a cargo da Justiça Federal marcar o júri popular.

Ainda é cedo para dizer que o julgamento dos acusados do assassinato de Vicente Cañas está perto de acontecer. Tudo depende das duas semanas que separam a publicação da determinação do júri - já que, se seguir para outras instâncias, fica impossível prever quando a sentença final será proferida. Mas, para quem esperou mais de uma década, isso não é problema: "O tempo não é importante. O que vale é que o processo está na Procuradoria, e caminha dentro de uma lógica", opina Sebastião Moreira.

Vicente Cañas era um padre jesuíta espanhol naturalizado brasileiro, que participou, como missionário do Cimi, dos primeiros contatos com os índios Enawenê-nawê, nos anos 70. Desde aqueles tempos, vinha trabalhando na região de Juína pela demarcação de terras.

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