O Globo, Panorama Econômico, p. 34
Autor: LEITÃO, Míriam
15 de Nov de 2009
Verde que te quero
Míriam Leitão
Todos os governos criam versões convenientes e o fenômeno se acentua nas eleições. Na semana passada, no entanto, o governo Lula excedeu todo o nível tolerável de distanciamento dos fatos: ventos de Itaberá provocaram o apagão; o mensalão foi uma tentativa de golpe contra Lula; Dilma Rousseff é defensora da floresta. Tudo ficção. Mas o corte das emissões pode virar verdade.
Acredito que, nas democracias, a sociedade empurra os governos e os grupos políticos na direção que talvez eles não escolhessem voluntariamente. Isso me faz esperar que algum dia sejam verdadeiros os compromissos anunciados na sexta-feira pelos ministros Carlos Minc e Dilma Rousseff. Hoje ainda não são sólidos o suficiente. Mas poderão ser no futuro.
O redator da Carta aos Brasileiros divulgada pelo então candidato Lula em 2002 estava querendo apenas garantir a vitória do PT, depois de três derrotas. Lula comprometeu-se na Carta a não mudar a política econômica. Quem poderia imaginar que ele estivesse dizendo a verdade? Talvez nem ele. O medo de desmontar um modelo que garantia a inflação baixa fez o governo Lula manter escolhas opostas às que sempre defendera.
Diante da grosseira distorção dos fatos apresentada no palanque do anúncio da queda do desmatamento, o consolo é saber que a sociedade brasileira está cada vez mais convencida de que precisa mudar o modelo de ocupação da Amazônia. Isso explica porque o marketing político oficial procura o sabão que lava mais verde.
Não é simples como parece. Para que a versão do governo para a ministra Dilma Rousseff encontre a verdade é preciso mais do que apenas reescrever convicções. Será preciso mudar aliados, alterar rotas, reescrever programas e abandonar políticas de governo. As grandes hidrelétricas como as do Rio Madeira e de Belo Monte, a BR-163, a BR-319 e outros projetos que a ministra Dilma chama de vetores do desenvolvimento produzem desmatamento.
Algumas dessas obras não são conciliáveis com qualquer ideia de desenvolvimento sustentável. Outras poderiam ser, se saíssem do papel os projetos de conter o impacto ambiental que normalmente têm. Os ruralistas querem recuar a reserva legal para 50%, anistiar quem desmatou ilegalmente, recompor reservas usando espécies exóticas. Isso e as obras amazônicas pressionam no sentido exatamente inverso ao prometido semana passada pelo governo. Ele terá que fazer escolhas e contrariar aliados.
O ministro Carlos Minc chamou o ministro Guilherme Cassel de príncipe verde, mas o próprio Minc acusou os assentamentos de estarem entre os maiores desmatadores da Amazônia. Chamou o ministro da Ciência e Tecnologia de "meu querido Sérgio Rezende", mas os dois tiveram uma queda de braço recente em que os dois perderam.
Rezende bateu pé e não divulgou uma atualização das emissões brasileiras que ainda são de 1994. Minc fez então uma estimativa das emissões de 2007. O resultado foi ruim para ambos. O Ministério da Ciência não fez seu trabalho científico; o Ministério do Meio Ambiente divulgou dados que não são mais do que um bom chute. Esse desencontro compromete a credibilidade do que o governo fez na sexta-feira no anúncio das metas de emissão.
Sem saber quanto emite hoje, o governo anunciou que cortará em relação ao que estiver emitindo em 2020. A estreia da ministra Dilma Rousseff em assuntos nos quais não tem intimidade produziu um constrangimento público. Ela disse que em apenas um dos itens dos cortes brasileiros de emissão o Brasil vai cortar mais do que toda a redução a ser feita pelos Estados Unidos se eles aprovarem sua lei.
Diante das dimensões inteiramente diferentes das duas economias, e do volume de gases de efeito estufa que os dois países emitem, é impossível que apenas um dos itens do nosso programa seja maior do que todo o esforço americano. Além disso, o Brasil está falando em cortar emissões projetadas no futuro. E os Estados Unidos estão projetando um corte em relação ao nível das suas emissões em 1990.
Mesmo com todas essas contradições, o Brasil pela primeira vez mudou o discurso. Antes, dizia que não poderia ter metas porque não era país desenvolvido. Agora, diz que não são metas, mas tem números. Antes, argumentava que a responsabilidade de cortar as emissões era apenas dos países desenvolvidos. Hoje, promete fazer mudanças na agricultura, na indústria, na energia e conter o desmatamento para reduzir as emissões.
Os números brasileiros não são sólidos, não estão baseados em boa ciência, não foram detalhados de forma convincente, e foram criados de forma improvisada. Mas a partir desse momento o Brasil terá que caminhar inevitavelmente na direção de conter suas emissões.
Escrevi aqui inúmeras vezes que o Brasil só tinha a ganhar se assumisse metas nas negociações climáticas.
As políticas adotadas para se chegar a esse objetivo são boas primeiro para o Brasil. Conter o desmatamento irracional da Amazônia, tornar a agricultura mais produtiva, trocar combustível fóssil por energia com baixa emissão, mudar o transporte nas grandes cidades, tudo isso fará do Brasil um país mais moderno e desenvolvido.
Na semana passada, Lula disse que o mensalão foi uma tentativa de golpe contra o seu governo. Durante um comício de três horas, o governo sustentou que a queda do desmatamento se deve à ministra Dilma Rousseff. O ministro da Energia deu explicações toscas para o apagão. Tudo isso continuará sendo ficção. Mas o corte de emissão se tornará inevitável.
Porque esse é o caminho do século XXI. O governo apenas se rendeu aos fatos.
oglobo.com.br/miriamleitao e-mail: miriamleitao@oglobo.com.br
Com Alvaro Gribel
O Globo, 15/11/2009, Panorama Econômico, p. 34
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