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Verde, que ainda te quero ver

O Globo, Razão Social, p. 19
17 de Jan de 2012

Verde, que ainda te quero ver

Martha Neiva Moreira
martha.moreira@oglobo.com.br

Plástico feito com bagaço de cana de açúcar,tinta à base de água, lubrificantes biodegradáveis. Os três produtos são fruto de uma área nova da indústria química, a "química verde" que, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abquim), deve receber até 2020 cerca de R$ 40 bilhões em investimentos, ou 10% do valor total do recurso para o setor químico no país. Embora tenha verde no nome e seja, na teoria, um movimento para tornar mais sustentável ambientalmente o processo de produção, na prática este ramo da indústria de transformação tem sido mais uma oportunidade de negócios do que, propriamente, uma estratégia para tornar os processos de fabricação menos poluentes.
Para se ter uma ideia, o gasto com ações voltadas à preservação ambiental em 2010 entre as 155 indústrias associadas à Abquim, que representa 55% do setor, foi de R$ 150 milhões. O faturamento passou de R$ 150 bilhões.
-Nos últimos dez anos, o setor vem investindo para se adequar à legislação. Já há resultados como redução de emissão de gases, consumo de água, tratamento de efluentes e um movimento de substituir alguns tipos de solventes por água. Mas tornar o processo de produção mais limpo ainda é um desafio para o país. Química verde, hoje, significa desenvolvimento de produtos verdes e não, ainda, de processos de produção. Para isso, é preciso muita pesquisa -disse Marcelo Kós, diretor da Abquim.
Embora não revele números, Christianne Canavero, gerente de sustentabilidade para a América Latina da Dow Brasil, concorda com Kós mas diz que a tendência da indústria é apostar na "química verde" para ser competitiva. Até 2014, a companhia vai instalar no país uma das maiores plantas de fabricação de polietileno de cana da América Latina, com capacidade de produção de 340 mil toneladas por ano, que vai atender o mercado externo.
- A indústria química está passando por uma grande transformação e, sem dúvida, a área da química verde é uma tendência mundial. Mas, para podermos oferecer soluções mais sustentáveis e um processo produtivo mais limpo para o mercado, é preciso tempo, pois requer pesquisa. E isso no Brasil ainda é um desafio - contou Christianne.
Embora reconheça que o desafio da indústria química hoje ainda é tornar menos impactante o processo de produção, Sergia Oliveira, diretora de qualidade ambiental do Ministério de Meio Ambiente (MMA), aponta que há movimentos em curso neste sentido. Um deles é o compromisso assinado pelas 155 representantes da Abquim de reverter, nos próximos cinco anos, 10% do faturamento para investir no setor de desenvolvimento, pesquisa e produção voltado para a química verde.
- O movimento da química verde começou a ser divulgado no país em 2007 e hoje já existe uma consciência de que não é possível mais apenas vender produtos verdes, sem ter um processo de produção limpo. Este, certamente, é o desafio para os próximo cinco anos - disse a diretora.
Outra iniciativa recente é o movimento entre pesquisadores de universidades do país para criar a Rede Brasileira de Química Verde. Segundo Marcelo Kós, a ideia da Rede é aproximar os centros de pesquisa da indústria para pensar soluções conjuntas.
Membro do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), Zuleika Nycz acredita que sem uma legislação mais rígida será difícil a indústria química trilhar o caminho da sustentabilidade. Segundo ela, as empresas investem em marketing da química verde, mas não tomam decisões concretas, como reduzir uso de substâncias contaminantes.
- Não vejo nenhum grande avanço, mesmo com este movimento da química verde. É preciso entender que o setor é diverso e, a cada ano, lança no mercado inúmeras substâncias que a população simplesmente ignora por falta de informação. Os marcos legais precisam ser aperfeiçoados. No Brasil, já há uma legislação para novas indústrias que estabelece parâmetros de eficiência energética, níveis de emissão para as plantas industriais de 14 setores. Mas ainda é preciso mais rigidez com a proibição do uso de substâncias para tornar os processos de fabricação mais limpos e seguros - disse Zuleika.

O Globo, 17/01/2012, Razão Social, p. 19

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