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Verdades cinicas

CB, Caderno Pensar, p.3
24 de Jul de 2004

Verdades cínicas
Rebelde, o antropólogo Pierre Clastres sentia-se melhor em um boteco que numa discussão acadêmica. Ao escrever arqueologia da violência, usou estilo leve e muito humor
Leonardo Cavalcanti
Da equipe do Correio
O reino acadêmico foi um dia destronado. O responsável, Pierre Clastres, o antropólogo de prosa fácil. E o exemplo mais claro está em Arqueologia da violência, um apanhado de 12 artigos do parisiense nascido em 1934 e morto em acidente de carro 43 anos depois. Sem empolações, os textos provam que é passível entrar no mundo das teses das universidades deixando os vícios academicistas do lado de fora.
Ele vasculhou o universo acadêmico sem afetações. E "até onde seria possível chegar na hierarquia universitária com tão pouca idade. Mas isso pouco importa ao ler "O último círculo", o primeiro capítulo de Arqueologia da violência. Mais do que uma tese etnológica, estamos diante de uma grande reportagem, feita por quem sabe trabalhar o texto, abrindo espaços para o leitor se envolver.
A reportagem "O último círculo" é resultado de uma viagem à Amazônia venezuelana, de 1970 a 1971, entre os ianomâmi. O relato da aventura está descrito em 28 páginas de forma detalhada e com bom humor. E, é claro: com uma técnica mínima de observação para tal proeza.
'As bananas (assadas verdes nas cinzas) acompanham tudo. É época de férias, come-se, fica-se balançando na rede, tagarela-se, peida-se. Os ianomâmi são verdadeiros artistas nesse ponto, no que são favorecidos pelas bananas. No silêncio noturno, é uma fuzilaria interminável. Quanto a nossos próprios decibéis, mal se fazem ouvir..
Há destinos piores (. ..)
(..) Brincadeira comum: você dorme inocentemente na rede, quando uma detonação o mergulha numa nuvem nauseabunda. Um índio veio peidara dois ou três centímetros de seu rosto... ( ..)"
Clastres sempre foi visto como uma pessoa avessa aos rituais acadêmicos. "Era mais chegado a um boteco do que a um seminário formal", diz o filósofo Bento Prado Júnior em entrevista, publicada no prefácio de Arqueologia da Violência. "Lembro-me dele (Clastres) dizer em 1967 ou início de 1968:'0 Fernando Henrique Cardoso e o José Arthur Giannotti não gostam muito de boteco, não é?' Ao que respondi: 'Infelizmente não."'
Universo acadêmico
A brincadeira leve do antropólogo está estampada no terceiro texto do livro, chamado de "0 atrativo do cruzeiro", onde o autor descreve uma excursão de um grupo estrangeiro a uma tribo primitiva. Os turistas, segundo Clastres, pagam uma quantia bastante elevada para ver os selvagens". Duas horas de visita e uma negociação complicada do senhor Brown com um dos "selvagens". Um peso para as fotos.
- Sim, mas é preciso tirar essa roupa. Foto, mas não com essa roupa.
-Eu tirando roupas, cinco pesos.
- Tudo bem. Cinco pesos.
0 índio desaparece alguns instantes no interior e volta a sair, inteiramente nu, atlético, calmo e livre em seu corpo. Rápidas nostalgias passam pela mente do senhor Brown e, em torno do sexo, a senhora Brown deixa vagar um olhar
"O atrativo do cruzeiro" é apenas um ensaio, sem grandes pretensões. A acidez de Clastres, entretanto, é apresentada. O senhor e a senhora Brown são esculhambados com delicadeza. Uma ironia desconcertante. Mas nem tudo em Arqueologia da violência, é bom que se diga, resume-se a reportagens e ensaios do antropólogo. Há também o mundo das teses, é claro.
Os textos mais sisudos de Arqueologia da violência reafirmam as idéias do professor sobre as sociedades primitivas. Os indivíduos dessas sociedades se voltam para a guerra como a única forma de negar o Estado. É a partir dessa negação que eles mantêm a liberdade, se distanciando do poder centralizado. A violência propriamente dita está na busca pela liberdade e é bem diferente da guerra da conquista, da destruição pela destruição.
Tais conceitos estão expostos em "Do etnocídio", o quarto capítulo de Arqueologia da violência. O artigo foi publicado originalmente em 1974. Ali, Clastres explica com clareza a diferença entre os termos genocídio e etnocídio, a partir dos massacres dos índios na floresta amazônica (Brasil, Colômbia e Paraguai). "Se o termo genocídio remete à idéia de `raça' e à vontade de extermínio de uma minoria racial, o termo etnocídio aponta não para a destruição física dos homens, mas para a destruição de sua cultura."
Para Clastres, enquanto o genocídio assassina os povos em seu corpo, o etnocídio os mata em seu espírito. O antropólogo francês diz saber quem são os assassinos, aqueles contrários à alma dos índios da América do Sul: em primeiro lugar, os missionários. "Propagadores da fé cristã, eles se esforçam por substituir crenças bárbaras dos pagãos pela religião do Ocidente". Depois, o próprio Estado. E aí o exemplo citado é o brasileiro,
principalmente. "Os últimos índios sucumbem sob a pressão enorme do crescimento econômico."
O Clastres pragmático, no fim do texto, faz referência a uma carta do general Sherman, um dos carrascos dos índios norte-americanos para explicar a intolerância estatal. "Essa mudança (dos índios pelos brancos nos territórios indígenas) foi salutar e se cumprirá até o fim", escreveu o general. "0 general tinha razão. A mudança se cumprirá até o fim, só acabará quando não houver absolutamente mais nada para mudar", conclui o antropólogo.
Em alguns momentos parece tudo muito chato para um leitor pouco preocupado com teses ou conceitos acadêmicos? Talvez. Mas depois de conhecer o Clastres cronista, é possível explorar parte do universo acadêmico descrito - protegido por armas do próprio antropólogo, que um dia destronou o reino acadêmico.

Arqueologia da violência, ensaios de antropologia política
De Pierre Castres. Tradução de Paulo Neves.
Editora Cosac & Naify, 280 páginas
Preço: R$ 53,50.

CB, 24/07/2004, p. 3

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