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A verdade do clima

O Globo, Planeta Terra, p. 3
Autor: NOBRE, Carlos
27 de Abr de 2010

A verdade do clima

Carlos Nobre

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) realiza avaliações periódicas do estado do conhecimento sobre as mudanças climáticas, cobrindo a base física destas mudanças, os impactos, a vulnerabilidade e capacidade de adaptação de sistemas humanos e naturais às mudanças climáticas e estratégias de mitigação. Em face da gigantesca evidência de centenas de estudos, não há como negar e deixar de aceitar uma das principais conclusões do Relatório da Quarta Avaliação do IPCC: "O aquecimento do sistema climático é inequívoco" e que "a maior parte do aumento da temperatura média global desde meados do século XX é devida muito provavelmente a um aumento na concentração dos gases de efeito estufa antropogênicos".

Mais de 29 mil séries de dados observacionais mostram alterações significativas em inúmeros sistemas físicos e biológicos e mais de 89% destas alterações são consistentes com a direção de mudança esperada como resposta ao aquecimento. Seria muito difícil não enxergar este enorme corpo de evidências, que vão desde derretimento de geleiras continentais e aumento do nível do mar até mudanças em plantas e animais.

O processo estabelecido pelo IPCC para avaliar mudanças climáticas, suas causas e impactos, é confiável, neutro e rigoroso. Desde a publicação, em 2007, do Quarto Relatório de Avaliação, novas evidências têm vindo à tona que só fazem reforçar as conclusões deste documento. Em muitos casos, a escala e a velocidade das mudanças são ainda maiores do que as reportadas no relatório. As novas evidências serão plenamente avaliadas no Quinto Relatório de Avaliação, a ser publicado em 2014.

Recentemente, uns poucos erros foram apontados nas contribuições do Grupo de Trabalho II do Quarto Relatório de Avaliação. Estes erros têm sido utilizados para tentar desacreditar o processo do IPCC e retirar o peso das conclusões do relatório. Após exaustiva análise do que se têm apontado como "erros", de fato somente resta o equívoco de apontar as geleiras do Himalaia como tendo as mais rápidas taxas de degelo entre todas as geleiras do mundo. O IPCC reconheceu este erro, que não chegou a contaminar o relatório pois não foi selecionado com uma das conclusões principais do "Sumário para Tomadores de Decisão".

Tentou-se caracterizar como "erro" uma sentença dando conta de que a floresta Amazônica era sensível à redução da precipitação, por ter-se baseado em um relatório do WWF, que não foi submetido à revisão por pares. Entretanto, este relatório se baseava em publicações científicas de primeira linha, inclusive um trabalho publicado na prestigiosa revista científica "Nature".
Trabalhos científicos subseqüentes não deixam dúvida de que a floresta Amazônica torna-se cada vez mais vulnerável às pressões humanas que se adicionam sinergicamente: aquecimento global, desmatamento e aumento dos incêndios florestais.

Não há atividade humana - nem mesmo complexos processos de avaliação científica como o IPCC - que seja infalível. Entretanto, alguns pequenos erros não afetam as conclusões substantivas do Grupo de Trabalho II do Relatório da Quarta Avaliação do IPCC de 2007 e servirão para aperfeiçoar ainda mais os métodos de avaliação.
Além do mais, um grupo de 15 cientistas não ligados ao IPCC foi recentemente nomeado para fazer uma avaliação do Painel. Entre eles, um cientista brasileiro, Carlos Henrique Brito Cruz, ex-reitor da Unicamp, atualmente diretor científico da Fapesp.

Quem está por trás das tentativas de desacreditar o IPCC? As táticas dos lobbies de petróleo e carvão são conhecidas e seguem o padrão de indústrias que utilizam o método de colocar dúvida sobre avaliações científicas, semeando confusão no público, quando seus interesses comerciais são contrariados. É uma história que se repete desde a década de 70 com a relação entre cigarro e saúde, passando pela questão da emissão de dióxido de enxofre como causador da chuva ácida, ou dos CFCs com destruidores da camada de ozônio..... Estes lobbies sabem que não conseguem deter a força da informação científica para sempre, mas procuram adiar ações que são urgentemente necessárias para a transição a uma economia de baixo carbono. Só o futuro dirá se o tempo que estamos perdendo para atacar frontalmente a causa principal do aquecimento global nos fará falta algum dia...

Carlos Nobre é integrante do IPCC e climatologista do CPTEC/Inpe

O Globo, 27/04/2010, Planeta Terra, p. 3

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