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Verba de ciclovia para 2011 é menor do que no discurso

OESP, Metrópole, p. C8
25 de Nov de 2010

Verba de ciclovia para 2011 é menor do que no discurso
Será de apenas R$ 1 milhão - entre os R$ 34,6 bilhões previstos no orçamento municipal; para especialistas, dinheiro é insuficiente

Rodrigo Burgarelli

O discurso já foi ouvido milhares de vezes: bicicleta é meio de transporte e São Paulo precisa de mais ciclovias e ciclofaixas para melhorar a mobilidade dos paulistanos. Mas se depender do planejamento da Prefeitura para 2011 as coisas não vão mudar tão fácil assim. Dos R$ 34,6 bilhões previstos no orçamento, apenas uma rubrica de R$ 1 milhão e outra de R$ 1 mil são para a infraestrutura cicloviária da cidade.
Essa é a primeira vez que existem dotações específicas para bicicletas no orçamento municipal. Mas os investimentos de R$ 1 milhão e R$ 1 mil correspondem somente a 0,09% do total a ser gasto pela Secretaria de Transportes (R$ 1.152.192. 088,00).
Segundo especialistas, o valor seria insuficiente até para realizar estudos e construir uma ciclovia de comprimento maior que 5 km, por exemplo.
Além disso, chama a atenção o fato de que R$ 1 milhão - ou seja, praticamente toda a verba - está previsto para ser utilizado pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, que é responsável pela construção de ciclovias em parques e em áreas de lazer. Apenas um valor simbólico de R$ 1 mil está previsto para ser gasto com esses projetos na Secretaria de Transportes, responsável pelas obras em avenidas e ruas visando a melhorar a mobilidade urbana.
No ano passado, o Pró-Ciclista, grupo executivo da Prefeitura para estudar e promover melhoramentos cicloviários, havia sido transferido da Secretaria do Verde para a pasta de Transportes, justamente para simbolizar uma mudança no modo de ver a bicicleta na atual administração. "Com essa mudança, a Prefeitura reafirma sua postura de dar à bicicleta o tratamento de um meio de transporte tão importante quanto os demais", diz o texto publicado no site oficial da Prefeitura na época.
Descaso. O resultado do baixo investimento em obras para bicicletas é que, apesar de a capital ter apenas 37,5 km de ciclovias, grande parte das promessas já feitas pela Prefeitura está atrasada - algumas ainda não têm nem projeto, mesmo após ter sido anunciadas há anos.
Esse é o caso das ciclovias das Avenidas Eliseu de Almeida, no Butantã, e Vereador José Diniz, em Santo Amaro, por exemplo (ver box ao lado).
Para Thiago Benicchio, diretor-geral da Associação Ciclocidade, o estágio atual das discussões sobre a importância das bicicletas é bom, mas ainda está muito distante o dia em que as propostas se tornem concretas.
"As dotações ainda são muito genéricas, parecem mais indicativas de desejo do que projetos bem estudados. Temos hoje um discurso favorável à bicicleta, mas que não se traduz em planejamento sério nem obras voltadas aos ciclistas", afirma.
Agenda 2012. Em nota, a Secretaria Municipal de Transportes informou que trabalha com os objetivos da Agenda 2012, programa de metas da Prefeitura que prevê 100 km de ciclovias e ciclofaixas até 2012.
A pasta informou que inaugurou, em parceria com o governo do Estado, 13 km de ciclovia na várzea do Rio Tietê e que todos os novos terminais de ônibus projetados pela Prefeitura contemplam bicicletários.
A pasta não respondeu em qual obra será gasto o R$ 1 milhão orçado para 2011.

As obras
Ciclovia da Avenida Eliseu de Almeida - Butantã
Com 15 km, projeto ainda não está pronto e não há prazos
Ciclovia da Inajar de Souza - Freguesia do Ó
Ainda falta a sinalização. Está fechada ao público. Tem 7 km
Ciclovia da Vereador José Diniz - Santo Amaro
Projeto de via de 6 km ainda não está pronto e não há prazos
Sistema cicloviário dos bairros Jardim Helena, Jardim Brasil e Grajaú/Cocaia
Com 55 km, licitação está sendo preparada
Ciclovia da Guarapiranga Projeto prevê via de 12 km. Licitação para trecho foi iniciada em setembro

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101125/not_imp644917,0.php

Vontade política para cidades sustentáveis

Análise: Jonas Hagen

Moradores de cidades como Copenhague, Munique e Tóquio, onde a bicicleta é muito usada como modo de transporte, desfrutam de boa qualidade de ar e saúde, e não perdem tempo em engarrafamentos. Recentemente, capitais mundiais como Londres e Nova York, cientes que têm de oferecer alta qualidade de vida urbana para atrair os melhores talentos do mundo, estão fazendo esforços para fortalecer o papel da bicicleta na rede de transporte.
Em Nova York, cujas ruas foram dominadas por trânsito pesado, a prefeitura está implementando "ruas completas", com condições de mais segurança para pedestres, e belas ciclovias. Elas estão estimulando o uso da bicicleta e as ruas que recebem esse tratamento têm queda de atropelamentos entre 40% e 50 %. A prefeitura de Nova York paga aproximadamente R$ 1,34 milhão por quilômetro de rua completa.
O panorama econômico da prefeitura de Londres está precário por causa da recessão, mas nem por isso está deixando de implementar ambiciosas iniciativas para estimular o uso da bicicleta. O modelo de Londres é de parceria público-privada: o banco Barcley"s está patrocinando os "Cycle Superhighways", 12 faixas de 15 km que levam para o centro. Os primeiros dois "Cycle Superhighways", de 25 km, foram implementados neste ano, por R$ 62 milhões.
No Brasil, as ciclovias custam menos. A da Radial Leste custou em torno de R$ 750 mil por km, e uma ciclofaixa em Copacabana, R$ 57 mil por km. Vontade política é o fator mais importante para criar cidades sustentáveis. Não é fácil mudar décadas de planejamento para os carros.
É vice-diretor do Institute For Transportation and Development Policy (ITDP) no Brasil

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101125/not_imp644919,0.php

Vereadores afirmam que vão propor mais verbas para projetos

A pouca verba destinada às ciclovias e ciclofaixas pela Prefeitura está causando movimentação na Câmara Municipal de São Paulo. O relator do projeto de lei do orçamento de 2011, o vereador Milton Leite (DEM), afirma que vai aumentar a previsão de verbas destinadas a esses projetos. "Não posso dizer ainda quanto será remanejado. Mas vamos mexer alguma coisa sim, negociando com o governo", disse.
As mudanças no orçamento, que deverá ser votado no dia 15 de dezembro, foram anunciadas após as audiências públicas que discutiram o transporte na cidade. Participaram das reuniões na Câmara Municipal organizações não governamentais e cicloativistas da cidade.
Para o vereador Chico Macena (PT), o principal problema é o fato de a bicicleta não ser considerada um meio de transporte pela Prefeitura. "Nunca vamos conseguir implementar o sistema cicloviário da cidade, previsto em uma lei de 2007, com o que temos neste orçamento", afirmou. Ele também diz que vai apresentar emendas ao projeto do governo municipal, destinando recursos para a construção e a requalificação de ciclovias e bicicletários na cidade.
Um conjunto de vereadores firmou também o compromisso de criar a Frente Parlamentar em Defesa da Mobilidade Humana, que deverá ser analisada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. "Vamos pressionar para aumentar o dinheiro para os projetos e acompanhar a execução orçamentária para garantir que as ciclovias previstas no Plano Diretor saiam do papel", afirmou Floriano Pesaro (PSDB), um dos autores da ideia. Além dele e de Macena, também participarão da frente os vereadores Mara Gabrilli (PSDB), Netinho de Paula (PCdoB) e Ricardo Teixeira (PSDB).

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101125/not_imp644920,0.php

OESP, 25/11/2010, Metrópole, p. C8

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