OESP, Nacional, p.A8
25 de Nov de 2003
Venezuelanos erram alvo e atacam brasileiros
Episódio evidencia a tensão crescente na região da fronteira
Os garimpeiros brasileiros Enoque Ferreira e João Pires, mais cinco companheiros venezuelanos, foram atacados há 20 dias por aviões da Força Aérea da Venezuela (FAV) quando cruzavam um trecho da Serra de Pacaraima, próximo da fronteira. O grupo teria sido confundido com uma das equipes clandestinas de prospecção geológica que, segundo a Secretaria de Comunicações do gabinete do presidente Hugo Chávez, agiriam na região sob contrato de corporações multinacionais, americanas e britânicas principalmente.
"Eram duas muriçocas (como são chamados na região os turboélices Emb-312 Tucano, exportados pela Embraer) voando baixo. Passaram uma vez, fizeram uma curva e voltaram mais baixo ainda, despejando fogo", contou Enoque à Polícia Federal.
Os brasileiros não foram atingidos. Entretanto, Pires afirmou em seu depoimento que viu um dos venezuelanos caído, ferido na perna direita. Para escapar dos disparos das metralhadoras calibre 7.62, o grupo foi obrigado a abandonar quase todo o seu material de trabalho: um bote inflável, ferramentas, comida, medicamentos e material eletrônico como um sinalizador de GPS acoplado a computador portátil. Todos os garimpeiros estavam registrados e eram habilitados ao trabalho nos dois países.
Tensão - O ataque, um dia antes da operação conjunta da PF e da Força Aérea Brasileira (FAB) que destruiu em Caparro, a dois quilômetros da fronteira com a Colômbia, uma das maiores pistas clandestinas de pouso e decolagem utilizadas pelo narcotráfico, foi considerado"um indicador claro da crescente tensão ao longo da fronteira norte, noroeste e oeste", de acordo com umanalista de Inteligência do Comando Militar da Amazônia (CMA).
Com a entrada em funcionamento do imenso Sistema deVigilância da Amazônia (Sivam) - cobertura de 5,5 milhões de quilômetros quadrados com dezenas de radares e sensores, mais os aviões eletrônicos Emb-145 ISR de alerta avançado e sensoriamento remoto - "ficaram claras as reais condições do quadro de situação". Para o general Cláudio Barbosa de Figueiredo, comandante doCMA,"as Forças Armadas estão preparadas" para enfrentar eventuais ações em defesa da fronteira. Falando na Comissão de Defesa Nacional, o general Figueiredo disse que, embora não haja ameaça de ataques formais em larga escala contra o território brasileiro, "sempre é preciso estar alerta". O CMA está reforçando um eixo de 2,4mil quilômetros com 3 mil soldados.
Fronteira - De acordo com o oficial da Inteligência, "o efeito multiplicador da instabilidade regional" também preocupa o Comando da Amazônia em relação ao endurecimento entre os governos da Colômbia e da Venezuela. OComando do Exército venezuelano, que havia deslocado 6mil homens para o extremo norte do país em novembro de 2002, enviou outros 14 mil ao longo dos cinco meses seguintes e em junho mobilizou mais 4 mil combatentes especializados em luta de selva.
Na sexta-feira, o porta-voz da força terrestre, major Aúro Garcia, disse ao Estado, por telefone, que o contingente de 24 mil soldados "atende a um pedido do governo do estado andino de Táchira para aumentar a segurança nos postos de Socoavo e Catatumbo". As duas comunidades abrigam simpatizantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que se abastecem nos pequenos centros comerciais.
O Alto Comando colombiano insiste em que o presidente venezuelano dá apoio logístico aos guerrilheiros. Os serviços de informações dos Estados Unidos, que sustentam o esforço do governo de Bogotá no combate aos insurgentes e ao narcotráfico, apresentaram ao Ministério da Defesa no dia 23 de outubro um detalhado informe a respeito desse nvolvimento. Entre as evidências, há uma gravação em vídeo na qual aparecem militares da Venezuela reunidos com guerrilheiros das Farc. A gravação foi feita durante um churrasco.
No Brasil, a inteligência do Comando Militar da Amazônia tem conhecimento de outro episódio, em La Gabarra, município do distrito da Santander, na área da fronteira binacional.
Em maio, helicópteros armados e pelo menos um Emb-312 Tucano (a FAV opera 20 unidades convertidas para ataque leve) invadiram o espaço aéreo colombiano e interditaram o avanço de milicianos paramilitares que combatiam a Frente 33, das Farc, depois de uma longa batalha.
OESP, 26/11/2003, p. A8
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