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Velhos entraves

O Globo, Sociedade, p. 24
01 de Dez de 2015

Velhos entraves
Conferência de Paris é inaugurada com discurso otimista, mas documento repleto de lacunas

VIVIAN OSWALD
Enviada especial
vivian.oswald@oglobo.com.br

A inegável pompa da Conferência do Clima (COP-21) inaugurada ontem em Paris, com a presença de 150 chefes de Estado e de governo que pediam empenho e ousadia uns aos outros para salvar o planeta, não terá sido suficiente para destravar os pontos básicos do acordo histórico que se pretende fechar para combater o aquecimento global nos próximos cem anos. No rascunho do documento de 20 páginas, sobre o qual os negociadores deverão se debruçar em longas reuniões que devem entrar noite adentro nas próximas duas semanas, ainda há 231 colchetes - sinal usado para deixar em evidência onde não há consenso. São os mesmos velhos vilões das últimas tentativas de se estabelecer um acordo.
O financiamento às medidas de combate ao aquecimento global é considerado uma das questões mais sensíveis. Outra questão que deve causar polêmica é em quanto ficará a meta de aumento da temperatura do planeta até 2100. Desde Copenhague, em 2009, defende-se o marco de 2 graus Celsius. No entanto, todos reconhecem que este valor não será suficiente para impedir os danos ao meio ambiente e, por isso, pedem mais. O problema é que os 183 planos de ação de redução voluntária apresentados pelos países tampouco conseguiria cumprir a atual meta. Diversos estudos afirmam que, se estes compromissos forem cumpridos, ainda assim os termômetros podem ser elevados em até 3,7 graus Celsius.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, foi incisivo ao defender um acordo "dinâmico", que seja capaz de se adaptar às mudanças climáticas produzidas pela economia mundial sem a necessidade de renegociá-lo constantemente. Ban Ki-moon pediu pressa, ousadia e afirmou aos líderes presentes que eles têm "a responsabilidade moral e política" no combate às mudanças do clima.
- Precisamos de um mundo com menos emissões - reivindicou. - Temos que andar mais depressa e ir mais longe se quisermos limitar o aumento da temperatura em 2 graus Celsius. Mesmo com isso, teremos consequências sérias para a segurança do planeta. Precisamos de um acordo robusto.
LIMITAÇÃO AMERICANA
Secretária-executiva da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU, Christiana Figueres avisou aos 150 chefes de Estado e de governo presentes na COP-21 que "nunca tanta responsabilidade esteve nas mãos de tão poucos".
- O mundo está de olho em vocês. O mundo está contando com vocês - ressaltou.
O presidente americano, Barack Obama, fez um discurso enfático e pediu o fim do cinismo para lidar com o clima, pouco depois de anunciar que havia chegado o momento da virada para a questão climática e de avisar que "nada vai nos impedir de construir o futuro para os nossos filhos". Os EUA são considerados peça-chave para as negociações em curso por se tratarem do maior obstáculo a um acordo "legalmente vinculante", ou seja, com obrigações legais para as nações - como defende o Brasil e a União Europeia. Recentemente, o secretário de Estado americano, John Kerry, revelou que o Congresso não aceitaria estes termos. Vale lembrar que os EUA não ratificaram o Protocolo de Kioto, único documento que já tentou impor, por força de lei, o corte de emissões de gases-estufa.
- Um dos inimigos com o qual vamos lutar aqui é o cinismo. O progresso deve nos dar esperança nessas duas semanas - afirmou Obama.
Enquanto o presidente da China, Xi Jinping, anunciava os investimentos feitos por seu país contra combustíveis fósseis, Pequim bateu novo recorde de poluição atmosférica. A cidade disparou pela primeira vez este ano o alerta laranja, o segundo mais grave de uma escala.
O início da cúpula foi marcado por um minuto de silêncio dos participantes em homenagem às vítimas dos recentes atentados terroristas. No discurso de abertura da conferência, o presidente francês, François Hollande, disse que o que está em jogo no encontro é a paz. Segundo ele, os dois grandes desafios mundiais são o terrorismo e a mudança do clima. Ele defendeu um acordo que, se possível, tenha compromisso com o aumento da temperatura global em até 1,5 grau Celsius.
- Esses eventos trágicos nos afligem, mas nos obrigam e nos forçam a nos concentrar sobre o essencial. A sua presença reforça uma grande esperança que não temos o direito de decepcionar - avaliou. - Não estou escolhendo entre lutar contra o terrorismo e lutar contra o aquecimento global. São dois grandes desafios que devemos superar. Devemos deixar para as nossas crianças um mundo livre do terror e um planeta protegido dos desastres, um planeta viável para se viver.

O Globo, 01/12/2015, Sociedade, p. 24

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