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Veias abertas da América

CB, Mundo, p. 20
23 de Jul de 2006

Veias abertas da América

Claudio Dantas Sequeira

Manaus - A Amazônia dos livros escolares ficou mais de 6 mil km para trás. Essa foi a distância percorrida de ônibus, barco e avião por 45 estudantes sul-americanos de ensino médio que participaram da expedição Caminhos de Orellana, ambicioso projeto de divulgação da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Com o suporte de professores e pesquisadores de diversas áreas, os jovens de nove países refizeram em cinco semanas os passos do navegador espanhol Francisco Orellana, que no século 16 desbravou o Amazonas. No caminho, conheceram a diversidade natural de uma região de beleza surpreendente. Ficaram comovidos com a miséria de muitas populações locais, marcas da exploração numa paisagem devastada.

O Correio acompanhou a viagem entre os dias 12 e 17, desde a cidade de Coari - no médio Solimões - a Manaus. A experiência prática superou de longe as lições aprendidas na escola e despertou a mente dos estudantes para o dilema envolvendo preservação e desenvolvimento. Para a venezuelana Mariannys del Carmen Coronel, neta de uma índia Ianomami, a solução está no fortalecimento das etnias tradicionais. "Essas populações de cultura milenar são as únicas habilitadas a promover o desenvolvimento da região, pois conhecem cada planta e cada animal", afirma.

Coronel, de apenas 14 anos, domina cinco idiomas indígenas, entre eles o iekuana e o ianomami - este último de "uma das culturas mais importantes e reconhecidas em meu país" -, e recebeu uma bolsa do governo da França para estudar Lingüística. "Terei de escolher, pois o governo venezuelano já havia me oferecido estudar em Cuba", diz. O boliviano Gustavo Ibáñez Cueto considera que as riquezas da Amazônia não podem ser intocáveis, e devem servir ao desenvolvimento das comunidades locais. "Vamos levar para nosso país a dura realidade. Ficamos decepcionados com tantos problemas que desconhecíamos."

"A Amazônia romântica que lemos nos livros não existe. O que vejo é um alto nível de degradação ambiental", emenda a estudante peruana Claudia Cristina Sauñe Rojas. Ela comenta que, pela primeira vez, conheceu o trecho peruano do Rio Amazonas, batizado de Marañon, na altura da cidade de Iquitos. "Agora entendo porque nosso governo não se interessa pela Amazônia. Eles não a conhecem. E é preciso conhecê-la para amá-la", argumenta.

Brasília
Os pequenos expedicionários desembarcam hoje em Brasília e na terça-feira posam para fotos ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro da Educação, Fernando Haddah. A brasiliense Amanda Martimom Morgado espera cobrar de Lula mais atenção para a região amazônica.

"Todos os políticos deveriam fazer esse tipo de viagem para entender a realidade socioambiental daqui, que é muito diferente da que vemos a partir de Brasília", recomenda. Apesar das idiossincrasias de cada região, Moragado considera a Amazônia uma só, "desde o Equador até o Brasil".

Satisfeita com a viagem, ela trocou e-mails e telefones com os demais colegas brasileiros e sul-americanos.
"Espero que a OTCA ajude a gente a manter essa união. Temos a responsabilidade de transmitir nossa experiência para outros estudantes do país e da região", conclui. A secretária-geral da OTCA, Rosalía Arteaga, esteve com os jovens em Quito e em Manaus. "Creio que o propósito da viagem foi plenamente alcançado. Queríamos abrir os olhos das futuras gerações para o patrimônio sobre o qual seus países têm soberania", afirma. O coordenador da expedição, Ademir Paraguassu, ressalta a interação entre os jovens. "Eles debatem os mais variados assuntos relacionados às visitas e tiram dúvidas com os professores. Esse é o melhor resultado que podemos obter."

O grupo partiu da capital equatoriana em 26 de junho. De lá, desceu os Andes até Puerto Orellana. De barco, seguiu pelo Rio Napo para Iquitos. No Peru, o rio passa a se chamar Marañon e vai até a fronteira com Tabatinga e Letícia (Colômbia). Os estudantes chegaram ao Brasil no dia 5 de julho. Visitaram Tabatinga, Tefé, Mamirauá e Manaus. Um dos pontos altos da expedição foi a visita à Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá, unidade de conservação estadual localizada no médio Solimões.

Integram a expedição cinco alunos de cada país da OTCA: Brasil, Peru, Equador, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Guiana e Suriname. Representantes da Guiana Francesa também participaram.

Comunidade sustentada

O pescador Raimundo Ferreira da Silva, de 47 anos, é catraiero há seis meses. Usa sua estreita canoa motorizada para transportar estudantes de 55 famílias que formam a comunidade Espírito Santo do Izidório, no Lago de Coari.
Para o serviço, recebe R$ 380 mensais. Como assinou contrato com a prefeitura, deixou de receber o auxílio familiar de R$ 100 do programa Direito à Cidadania - que segue os moldes do Bolsa - Família do governo federal. Ele diz que sua renda caiu, e que não sabe se votará no presidente Lula.

"Tirava por mês uns R$ 500 com a bolsa e a pesca. Não sei se voto nele de novo. Ainda não escolhi candidato a governador", diz.

Raimundo e sua mulher, Cecília Maria, vivem com seus três filhos numa palafita de madeira.

Sem qualquer luxo, como outras famílias de Izidório. Praticamente todas ali são subsidiadas. O local é alvo do programa de compensações do gasoduto Coari-Manaus, inaugurado por Lula no início de junho. A obra de 400 km de extensão está orçada em quase US$ 400 milhões, e transportará 5,5 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Parte dos royalties da exploração do combustível está sendo investida na comunidade, com a construção escolas, poços artesianos e a implantação de antenas parabólicas e uma fábrica de farinha.

A produção é subsidiada, e a venda da farinha no mercado local está assegurada pelo governo. O desenvolvimento da exploração do gás avança com rapidez e deverá modificar a matriz energética da região em pouco tempo. As pequenas benesses do progresso demoram a fazer a cabeça dos ribeirinhos. Alcilene Gonçalves, de 37 anos, é "líder do grupo das mães" e beneficiária do Bolsa-Família. Tem oito filhos e, com os R$ 95 do governo, ela compra 10kg de açúcar, dois litros de leite, um pacote de café, óleo e sal. "Ainda não sei em quem votar", diz. (CDS)

CB, 23/07/2006, Mundo, p. 20

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